No vale do Wadi Hadhramaut, localizado na porção leste do Iêmen, um agrupamento de torres feitas de barro que foi seco sob o sol forte se ergue do meio do deserto como se fosse uma miragem de uma cidade moderna. Shibam concentra em seu território cerca de 500 edifícios que possuem de 5 a 11 andares de altura, todos eles construídos com tijolos de terra crua, sendo considerada a metrópole mais antiga de todo o mundo a fazer uso do princípio da construção em altura.
Uma verdadeira fortaleza erguida na vertical para se proteger de saques no deserto
A cidade de Shibam não se desenvolveu para o alto por uma questão de mero acaso. Ela foi fundada por volta do século III e se tornou a capital do Reino de Hadhramaut no ano 300 da era cristã, logo depois que a capital anterior, Shabwa, foi completamente destruída. Por estar localizada bem no meio de uma rota extremamente lucrativa de especiarias e incenso, a riqueza acumulada por seus moradores não demorou a atrair os ataques constantes das tribos beduínas que viviam na região. A solução encontrada para se defender foi a de erguer torres que ficassem bem próximas umas das outras, dentro dos limites de uma muralha de formato retangular que media 330 metros por 240 metros, eliminando assim quaisquer pontos que pudessem ser mais vulneráveis.
Os andares que ficam no nível térreo das construções não possuem janelas. Eles eram utilizados para abrigar o gado e para armazenar os grãos que garantiam a alimentação durante os longos períodos de cerco. Passarelas que foram construídas em um nível mais elevado fazem a ligação entre os prédios vizinhos, o que permite uma fuga muito mais rápida entre as torres, sem que seja necessário descer até o nível da rua. De acordo com a UNESCO, foi justamente essa competição que existia entre as famílias rivais da cidade, que buscavam tanto por prestígio quanto por uma maior proteção, a responsável por moldar o desenho urbano denso e vertical que se pode observar até os dias de hoje.

A técnica de tijolos de terra, palha e sol que dá sustento a prédios de 11 andares
As edificações que compõem a paisagem de Shibam são construídas com uma mistura que leva solo, palha e água, a qual é moldada no formato de tijolos e depois deixada para secar sob a ação do sol por vários dias. As paredes que formam a base dessas torres podem chegar a ter até 1,2 metro de espessura, e essa largura vai diminuindo de forma gradativa à medida que a construção ganha altura, criando um perfil em forma de trapézio que ajuda a distribuir melhor todo o peso da estrutura. Vigas feitas de madeira são utilizadas para reforçar a parte interna das paredes. Alguns dos edifícios mais elevados de Shibam ultrapassam a marca dos 30 metros de altura, um feito que fez com que a cidade fosse uma verdadeira pioneira no tipo de construção que hoje em dia costumamos classificar como arranha-céus.
Todo o sistema de construção está profundamente integrado ao ciclo da agricultura que se pratica no vale. Depois que a colheita é realizada, o solo fértil que se acumula nas margens do curso d’água temporário (o wadi) é recolhido para que se possa fabricar novos tijolos ou, então, para que se reapliquem novas camadas de argamassa de barro nas fachadas das torres já existentes. É essa manutenção de caráter constante o grande segredo que mantém as torres de pé ao longo de tantos séculos. Sem a realização desse cuidado periódico, a ação do vento, das chuvas e do calor extremo seria capaz de degradar as paredes em um período de poucos anos.
Quem se sente fascinado pelos segredos da arquitetura antiga vai gostar deste vídeo do canal Unique World, que já conta com mais de 132 mil visualizações. Nele, é mostrada em detalhes a impressionante cidade de Shibam, no Iêmen, que é famosa por seus arranha-céus construídos com lama:
Uma cidade do século XVI que mais parece ter saído de um cenário de Manhattan
Ainda que a cidade de Shibam tenha uma existência que já dura cerca de 1.700 anos, a maior parte de todas as construções que são visíveis nos dias de hoje data do ano de 1533, um período em que uma enchente de proporções devastadoras destruiu a cidade que existia anteriormente e forçou a sua reconstrução quase que por completo. Apesar disso, ainda é possível encontrar alguns fragmentos que são ainda mais antigos: existe uma mesquita que data do ano 904 e um castelo que foi erguido em 1220. Foi durante a década de 1930 que a exploradora britânica Freya Stark esteve na região e, encantada com o que viu, apelidou Shibam de a “Manhattan do deserto“, uma comparação que acabou se tornando inseparável da imagem da cidade.
No ano de 1982, a UNESCO concedeu à Cidade Murada de Shibam o título de Patrimônio Mundial, baseando sua decisão em três critérios principais: por ser um testemunho excepcional da competição que existia entre as famílias rivais da cidade, por representar um exemplo notável de planejamento urbano que se deu na vertical e por constituir uma evidência de uma sociedade que soube se adaptar à vida precária em um ambiente sujeito a constantes inundações.

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A ameaça das enchentes, dos bombardeios e a luta diária para não se tornar uma ruína
A mesma água que é responsável por alimentar a agricultura em todo o vale também carrega consigo a ameaça constante de destruir Shibam. Em outubro do ano de 2008, uma violenta tempestade de origem tropical provocou uma série de enchentes que comprometeram seriamente as fundações de muitas construções e chegaram a derrubar edifícios de grande valor histórico. De acordo com um relatório que foi divulgado pela UNESCO, as águas chegaram a atingir a base das torres, o que acelerou de forma dramática o processo de erosão dos tijolos de barro. Um amplo programa de restauração que foi financiado com recursos da União Europeia foi então colocado em prática, e uma de suas principais diretrizes foi a de empregar os jovens da própria comunidade local, ensinando-lhes as técnicas tradicionais de reconstrução.
Em 2015, a eclosão da guerra civil no Iêmen fez com que a UNESCO tomasse a difícil decisão de incluir Shibam em sua lista de Patrimônio em Perigo. Ainda que a cidade tenha conseguido escapar de sofrer bombardeios diretos, o conflito armado acabou paralisando a maior parte dos projetos de conservação que estavam em andamento, provocou uma grande redução na disponibilidade de mão de obra qualificada e deixou todos os edifícios históricos em uma situação de vulnerabilidade ainda maior. A organização GOPHCY, que é a responsável pela preservação das cidades históricas do Iêmen, havia conseguido documentar 98% de todas as moradias tradicionais e restaurar mais de 60% delas antes que a guerra interrompesse de forma tão abrupta a maior parte de seu trabalho.
Os 30 metros de barro que continuam a dar lições à arquitetura moderna
O que mais causa espanto em Shibam não é apenas a sua idade avançada, mas sim a lógica que está por trás de sua construção. As torres que não possuem janelas em seus andares térreos acabam funcionando como um eficiente sistema de isolamento térmico de origem natural, sendo capazes de manter uma diferença de temperatura de até 15°C entre o ambiente externo e o interior das casas. A seção em formato de trapézio ajuda a reduzir a carga que incide sobre os andares que ficam mais abaixo. A própria malha urbana, que é extremamente compacta, cria áreas de sombra que são mútuas entre os edifícios, o que diminui de forma considerável a incidência da luz solar direta sobre as fachadas. Escritórios de arquitetura que atuam na atualidade, como aqueles que foram responsáveis pelo projeto da cidade de Masdar em Abu Dhabi, reconhecem abertamente Shibam como uma importante referência morfológica para se pensar o urbanismo em todo o Oriente Médio.
Aproximadamente 7 mil pessoas ainda residem no interior do perímetro que é delimitado pela muralha da cidade. Esses moradores seguem reaplicando camadas de lama nas paredes de suas casas, sobem e descem longas escadas sem contar com a ajuda de elevadores e convivem diariamente com a mesma situação de escassez de água que é típica do deserto. A cidade inteira se comporta como se fosse um grande organismo vivo, cuja própria sobrevivência está diretamente atrelada ao ciclo das colheitas e à realização de uma manutenção que precisa ser contínua para que ela não venha a desmoronar.

A Manhattan que ainda é protegida pela imensidão do deserto
Shibam é a prova mais concreta de que os conceitos de verticalidade, de planejamento urbano e de engenharia estrutural não começaram com a invenção do aço. Muito antes que cidades como Chicago ou Nova York começassem a empilhar seus andares em direção ao céu, famílias iemenitas já subiam lances de até 11 pavimentos feitos de barro para poderem dormir em segurança, a salvo dos saqueadores que rondavam a região. A cidade já resiste bravamente há quase dois milênios, enfrentando enchentes, terremotos de ordem política e a própria ação implacável do tempo.
Se um dia for novamente possível cruzar o Wadi Hadhramaut em condições de segurança, vale muito a pena ir até lá para ver com os próprios olhos essa cidade de barro que, muito antes de qualquer outra, já havia inventado o conceito do arranha-céu.
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