VÍDEO: Menor felino do Brasil é filmado em Porto Alegre

O pequeno felino está ameaçado por perda de habitat e atropelamentosReprodução: Museu de Ciências do RS/Felinos do Pampa/Alan da Costa

Um Leopardus guttulus (gato-do-mato-do-sul) ficou pelo menos 1 minuto em frente às câmeras no Lami, Zona Sul de Porto Alegre. As filmagens foram feitas às 7h30 do dia 05 de janeiro e fazem parte do mestrado de Alan da Costa, que investiga como as enchentes e a urbanização afeta o felino, a fim de sugerir corredores ecológicos para proteger a rara espécie. O flagrante chama atenção pela raridade. Segundo Alan, Geógrafo e mestrando em Biologia Animal, este felino está ameaçado e restam apenas os últimos indivíduos. Além disso, o gato-do-mato-do-sul tem hábitos totalmente ligados às florestas, então é quase impossível que seja visto em perímetro urbano.

Confira o registro feito em conjunto entre o Museu de Ciências Naturais RS, o projeto Felinos do Pampa e a pesquisa de Alan da Costa no vídeo abaixo:

As imagens foram obtidas por “armadilhas fotográficas” posicionadas em locais específicos para monitorar o animal. Além do Lami, na Zona Sul de Porto Alegre, outras três câmeras estão posicionadas em: Itapuã, o Banhado dos Pachecos em Viamão e o Mato do Júlio em Cachoeirinha.

Alan esclarece que todas as câmeras já flagraram o pequeno animal, mas que este último vídeo ganhou repercussão devido à clareza e qualidade das imagens, que tiveram a sorte de captar o alvo durante o dia, ainda que os hábitos dele sejam noturnos.

Curiosidades sobre o animal

Segundo Alan, o gato-do-mato-do-sul chega a ser menor do que gatos domésticos. Ele varia numa média de 1 a 3 quilos, enquanto gatos comuns podem pesar mais de 5 quilos com facilidade. Além do tamanho e da pelagem que relembra uma onça-pintada, o comportamento do pequeno felino também é totalmente diferente de um gato doméstico.

Por ser animal silvestre, o felino do vídeo acaba tendo temperamento diferente, muito mais voltado à caça. Alan explica que existem ocorrências no Brasil em que pessoas pegam filhotes de gato-do-mato e levam para casa, mas depois acionam o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), pois o animal começa a matar galinhas, pássaros e agredir outros gatos.

A espécie vai até metade do Brasil, habitando zonas de floresta no Sul do Brasil, no Sudeste e no Centro-Oeste, e uma pequena região do Paraguai e da Bolívia, conta Alan. O mestrando destaca que as principais ameaças a esse bicho são a perda de habitat e o atropelamento.

De acordo com o pesquisador Felipe B. Peters, do projeto Felinos do Pampa, o Leopardus guttulus é uma espécie típica da Mata Atlântica, que depende de áreas com vegetação densa e alta umidade para sobreviver. Felipe levantou as seguintes curiosidades e destaques sobre a espécie:

  • A espécie é considerada vulnerável à extinção, com cerca de 6 mil indivíduos maduros no mundo;
  • Vive em baixas densidades populacionais, com cerca de 1 a 5 indivíduos a cada 100 km²;
  • Apesar do pequeno porte, ocupa áreas relativamente grandes para se deslocar e caçar;
  • Alimenta-se principalmente de pequenos mamíferos, aves e répteis;
  • Tem hábito majoritariamente noturno, mas também pode ser ativo durante o dia;
  • Indivíduos com pelagem preta (melânicos) são mais ativos em noites claras;
  • Já os animais pintados preferem caçar em ambientes mais escuros;
  • A espécie só foi reconhecida oficialmente como distinta em 2013;
  • A principal ameaça é a perda e fragmentação do habitat natural;
  • Também sofre com atropelamentos e envenenamento indireto (uso de venenos contra roedores);
  • Doenças transmitidas por animais domésticos estão entre os riscos;
  • Em áreas do sul do Brasil, há hibridação com o Leopardus geoffroyi e a mistura genética pode impactar a conservação da espécie a longo prazo;
Felipe Peters, pesquisador do Felinos do Pampa, resumiu as curiosidades do felinoDivulgação: Felipe Peters/Felinos do Pampa

O mestrando Alan detalha que é muito curioso como a pelagem e como ela influencia no comportamente deste pequeno felino. Segundo ele, de forma parecida com as panteras-negras, que são onças-pintadas porém totalmente pretas, o gato-do-mato também tem indivíduos com pelagem escura.

Neste caso, apesar do felino evitar caçar em noites claras, de lua cheia, os poucos que são totalmente pretos conseguem manter a caça até mesmo sob à luz do luar, por terem camuflagem mais eficiente. 

Tão pequeno quanto o que resta de seu habitat

Alan esclarece que este animal tem presença limitada a áreas verdes. Ou seja, quanto mais perto da região metropolitana, mais raro se torna o felino. Além disso, o mestrando explica que uma pessoa que não é pesquisadora não vai ver o animal, mesmo que vá ao local das gravações.

O pesquisador explica que a espécie é sim rara, pois está ameaçada e restam apenas os últimos indivíduos. Por outro lado, o gato-do-mato-do-sul tem um nível ainda maior de raridade na região metropolitana, pois é um animal dependente de áreas verdes.

Entretanto, Alan afirma que se acredita que a espécie vá se manter, ainda que em poucos indivíduos, desde que existam as florestas, neste caso, a Mata Atlântica.

Ele destaca que para isso, é necessário áreas protegidas, de preservação, que não podem ser derrubadas mesmo com alterações de leis.

O projeto Felinos do Pampa

O projeto Felinos do Pampa promove a conservação desta espécie (e de outras) por meio de iniciativas integradas as comunidades. Atualmente, a atuação se estende entre 10 cidades gaúchas: Quevedos, Dom Pedrito, Alegrete, Livramento, Candiota, Rosário do Sul, Rio Pardo, Quaraí, Arroio Grande, Eldorado do Sul, Região Metropolitana de Porto Alegre, entre outras.

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