‘Pegou foto sem autorização’, diz evangélica de 16 anos vítima de influencer que usou IA para sexualizar sua imagem em igreja


Influencer usa IA para sexualizar jovens evangélicas em igrejas; entenda
“Ele pegou a minha foto sem autorização e fez uma montagem com inteligência artificial, com as mulheres sensualizando na frente e [comigo] junto a elas”.
O desabafo foi feito ao g1 por uma jovem evangélica de 16 anos que teve a própria imagem manipulada por um influenciador digital com uso de inteligência artificial (IA) (veja vídeo acima). A Polícia Civil de São Paulo investiga o caso.
Segundo a investigação, Jefferson de Souza usou ferramentas de IA, como o deep fake, para inserir fotos da adolescente e de outras jovens evangélicas da Congregação Cristã do Brasil (CCB) em vídeos com conotação sexual dentro das igrejas da entidade.
O material foi publicado nas redes sociais do influencer, onde ele soma quase 50 mil seguidores. Em algumas filmagens, ele critica as roupas usadas pelas fiéis nas igrejas e costuma usar hinos da CCB como trilha sonora.
🔎Deepfake é uma técnica que usa inteligência artificial para criar ou alterar fotos, vídeos ou áudios de forma realista, fazendo parecer que uma pessoa fez ou disse algo que nunca aconteceu.
O que é deepfake e como ele é usado para distorcer realidade
Jefferson é investigado por suspeita de simular cena de sexo ou pornografia com menor de 18 anos por meio digital, conforme o artigo 241-C do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), cuja pena varia de 1 a 3 anos de reclusão, além de multa. A polícia também apura se ele cometeu difamação em relação a outras jovens expostas.
Humorista, imitador de Silvio Santos e borracheiro, Jefferson tem 37 anos. O g1 o procurou para comentar o assunto, mas ele não respondeu até a última atualização desta reportagem. Em depoimento à polícia, negou as acusações. Depois gravou vídeo pedindo desculpas (saiba mais abaixo).
‘Não queria ter sido exposta’
Adolescente que tirou foto na CCB teve foto manipulada por IA para aparecer sensualizando em vídeo ao lado de outros mulheres
Reprodução/Redes sociais
A estudante contou que a fotografia usada na montagem foi tirada em 2025, durante um momento de fé, em frente ao altar da CCB do Brás, no Centro de São Paulo, e que nunca autorizou qualquer uso da imagem. “Eu sou muito envergonhada, então não queria ter sido exposta. Eu tomo cuidado e também fico com medo disso afetar meu convívio social”
Nem a identidade, nem o rosto das vítimas serão divulgados nesta reportagem.
Segundo a adolescente, o episódio mudou seu comportamento. “Eu não tirei mais nenhuma [fotografia]. Eu não tirei mais de mim. Não tem mais nenhuma e também me gerou preocupação.”
O caso veio à tona em fevereiro, quando a jovem e os pais procuraram a 8ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), em São Mateus, Zona Leste da capital paulista. Eles acusam Jefferson de ter alterado e erotizado a imagem da adolescente.
No vídeo criado pelo influencer, além da estudante, foram inseridas outras três jovens — que ela não conhece e tampouco há confirmação de que sejam reais. As quatro aparecem com os braços erguidos e as bocas abertas; duas usam minissaias, vestimentas que não costumam aparecer nos cultos da CCB.
”Tira o sono’, diz mãe
Garota de 16 anos foi vítima de deep fake em São Paulo
Fabio Tito/g1
Para a família da adolescente, o impacto da exposição é profundo. “Do mesmo jeito que eu senti que fui ferida por mexer com a minha filha, eu também senti isso com as outras meninas”, diz a mãe. “Tira o sono.”
O pai destacou que o alcance da repercussão do caso foi além do controle deles e de outras jovens da Congregação Cristã do Brasil. “Havia uma quantidade enorme de vítimas. Não só a minha filha”, afirma. “[Ele usou de] manipulação [de foto] com [vídeo de] conotação sexual que se agrava ainda mais com menores de idade… isso tem que cessar.”
A família entrou com ação na Justiça pedindo indenização por dano moral. “A apuração desse crime, bem como o processo de danos morais, é muito importante para que tenha um caráter educativo”, fala o advogado William Valvasori.
‘Internet não é terra sem lei’, diz delegada
Delegada Juliana Raite Menezes, da 8ª DDM de SP
Kleber Tomaz/g1
“A gente está investigando esse caso de deepfake. Houve uma simulação dessas imagens dessas meninas, algumas delas adolescentes”, afirma também ao g1 a delegada Juliana Raite Menezes, da 8ª DDM.
Ela já identificou algumas vítimas, mas pede que outras jovens expostas pelo influencer também procurem à delegacia. “A internet não é uma terra sem lei. As leis que nos protegem no mundo real também se aplicam no ambiente virtual”, afirma a delegada.
O inquérito, que começou na 8ª DDM da capital, foi encaminhado pela 1ª Vara de Crimes Praticados contra Crianças e Adolescentes de São Paulo à 2ª Vara da Comarca de Lençóis Paulista, no interior do estado, onde o investigado mora. O pedido foi feito pelo Ministério Público (MP).
Jovem evangélica teve imagem manipulada por deep fake. Influencer usou IA para colocar mulher com roupa curta e Silvio Santos ao lado dela
Reprodução/Redes sociais
Uma outra jovem evangélica ouvida pela equipe de reportagem afirma que já tentou derrubar o conteúdo de Jefferson nas redes sociais. “Já fiz várias denúncias contra essa conta [do influencer]”, disse. “Já entrei com um processo com todos que estão usando minha imagem.”
No caso dela, o influencer usou uma foto em que ela aparece de blusa de mangas compridas e saia longa, apoiada no banco da igreja, e criou um novo vídeo. Ele inseriu imagens de uma outra jovem com minissaia, e Silvio Santos, vestido com o tradicional terno com microfone.
As publicações foram feitas no YouTube, onde o influenciador mantém o canal “Humor do Crente”, com mais de 11 mil inscritos, além de perfis no Instagram, no Facebook e no TikTok, onde se apresenta como “Silvio Souza”, numa alusão ao apresentador Silvio Santos, e reúne aproximadamente 37 mil seguidores.
O que dizem especialistas
Páginas de Jefferson Souza no YouTube e no TikTok nas quais critica a CCB e fez vídeos sensualizando fiéis a partir de IA
Reprodução/Arquivo pessoal
Especialistas ouvidos pelo g1 afirmam que o uso de IA não reduz a responsabilidade de quem cria ou divulga esse tipo de material.
Segundo a pesquisadora Laura Hauser, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o foco não deve ser o comportamento das vítimas. “Não é a vítima que tem que se cuidar. O predador que deve ser intimado a melhorar.”
Para Juliana Cunha, diretora da SaferNet, casos como este tendem a crescer com o avanço da tecnologia. “É muito importante que vítimas dessa violência não se sintam culpadas”, disse Juliana. E emendou: “Sem dados, a gente não consegue influenciar mudanças de políticas públicas e de legislação.”
A organização conduz, há pouco mais de um ano, uma pesquisa sobre o uso ilegal de IA para gerar imagens de nudez e sexo envolvendo adolescentes e mulheres.
SP registra 4 casos de deepfakes sexuais em escolas, aponta levantamento da SaferNet
O que diz o influencer
Moça com vestido branco teve a foto manipulada por IA por influencer. Imagem dela aparece dançando em vídeo entre duas mulheres com roupas curtas
Reprodução/Redes sociais
O g1 procurou Jefferson, mas ele não respondeu. Nos seus vídeos, ele afirma ainda ser membro da Congregação Cristã do Brasil. Também faz comentários depreciativos sobre mulheres que usam véu branco, tradicional na igreja.
Em algumas gravações, o influencer veste uma camiseta com o símbolo do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), fazendo uma paródia com as letras da emissora ao se definir como: “Sou Borracheiro, Trabalhador”. Ele já chegou a inserir imagens do apresentador Ratinho em outras ocasiões.
Em um vídeo publicado no TikTok, o influencer comenta o comportamento de jovens na igreja e explica como produz os conteúdos.
Jefferson Souza usou IA para introduzir Ratinho num vídeo a partir da foto de uma fiel em frente a CCB. Também é acusado de manipular fotos de outras evangélicas as fazendo dançar sensualmente dentro das igrejas
Reprodução/Redes sociais
“E a menina começa até fazer pose ali, né? Como se fosse tirar uma selfie ou fazer um vídeo. Você pode ver que a maioria das irmãzinhas que vai tirar foto… é dentro da igreja, elas tiram de costa”, fala.
“Algumas mostram o rosto, mas mostrando a outras partes também. E hoje em dia as roupas que as irmã usam são roupas que marcam o corpo”, critica Jefferson. “Eu acho assim, não tem nada a ver, tudo bem, cada um com a sua vida, mas eu não acho certo fazer filmagem dentro da igreja.”
“No meu caso, eu posto os vídeos aqui quando eu comecei a fazer a brincadeira com a voz de Silvio Santos”, explica o influencer na publicação.
“Porque eu gravo os vídeos que eu falo da Congregação. Que eu coloco a imagem da CCB aqui atrás, que eu canto, que eu brinco. Aí eu tenho um canal (…) . Pego a foto, as irmãs postando foto de costa, aí eu jogo na IA, a IA faz dançar.”
Jovem evangélica, de roupa preta, teve foto manipulada por IA para aparecer dançando num vídeo ao lado de uma para aparecer dançando num vídeo ao lado de mulher com minissaia inserida por IA. Influenciador digital Jefferson Souza (à esquerda) é investigado pela polícia
Reprodução/Redes sociais
“E eu faço isso. E eles falam que eu estou manchando a obra de Deus, que eu estou colocando mulheres seminuas. Mas não é, pessoal. Tem algumas que eu coloquei lá, mas é uma forma de chamar atenção para poder ganhar seguidores”, continua Jefferson.
Em depoimento à polícia, por carta precatória, o influencer admitiu usar fotos de jovens evangélicas da Congregação Cristã do Brasil e ferramentas do TikTok para animar e manipular as imagens, transformando-as em vídeos.
Sobre a adolescente de 16 anos que o denunciou na delegacia, afirmou desconhecer que se tratava de uma adolescente e disse que, “em razão do porte físico”, acreditou que fosse “uma pessoa adulta”.
Também declarou que “negou ter vinculado a imagem da adolescente a fotografias de mulheres com pouca vestimenta ou a qualquer conteúdo sexualizado ou pornográfico”.
Polícia de SP tenta identificar e localizar mais vítimas de deepfake
Reprodução/Redes sociais
Ele confirmou ser responsável pelos perfis nas redes sociais e disse que produz “conteúdo humorístico”, com imitações e críticas relacionadas à igreja da qual é fiel.
Segundo Jefferson, “a crítica associada à postagem representava sua opinião pessoal de que determinadas fotografias não seriam adequadas dentro da doutrina da igreja”.
Afirmou ainda que acreditava que o uso da imagem não causaria problemas por já estar disponível na internet e que “negou qualquer intenção ofensiva específica contra a adolescente ou contra outras pessoas fora do contexto religioso”.
Jefferson Souza gravou vídeo pedindo desculpas pelas críticas a CCB
Reprodução/Arquivo pessoal
Em outro vídeo postado no domingo de Páscoa, dia 5 de abril, Jefferson pediu “desculpas” aos “irmãos” da Congregação Cristã do Brasil pelos vídeos que postou com críticas à igreja.
“Eu quero pedir desculpa, pedir perdão publicamente pelos vídeos que eu andei postando”, diz o influencer. “Eu confesso que errei na minha forma de falar.”
Em nenhum momento ele menciona os deepfakes que fez com as adolescente e mulheres. “Eu peço perdão a todos que se sentiram ofendidos (…) Eu prometo ser mais cauteloso.”
O que dizem os citados
G1 Explica: Deepfake
O SBT foi procurado pelo g1 para informar se Jefferson teve vínculo com a emissora e se adotará alguma medida pelo uso do logotipo na deepfake com as evangélicas da CCB, mas não respondeu até a última atualização desta reportagem.
Em nota, a Congregação Cristã do Brasil informou que não possui registro formal de membros e que apoia a adoção de medidas legais cabíveis por parte das autoridades a respeito das pessoas envolvidas.
“Estamos de pleno acordo com as medidas cabíveis de justiça, que se fizerem necessárias, preservando a individualidade e, sobretudo, o respeito para com as pessoas”, diz trecho do comunicado da CCB.
As plataformas digitais também se manifestaram. O TikTok informou adotar tolerância zero para exploração sexual infantil e remover conteúdos desse tipo. O YouTube disse que retirou vídeos que violavam suas diretrizes. A Meta, responsável por Instagram e Facebook, não comentou.
Algumas das postagens misóginas feitas por Jefferson contras as evangélicas foram retiradas recentemente por ele ou pelas empresas de tecnologia.
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