Ciro Gomes, o highlander

Ciro x ElmanoArquivo pessoal

A figura do highlander parece se encaixar bem em Ciro Gomes, um dos políticos mais peculiares de nossa história. Originalmente, um Highlander é um habitante ou nativo das Terras Altas (Highlands) da Escócia. No âmbito cultural, porém, o termo adquiriu outro sentido por força do filme “Highlander: O Guerreiro Imortal”, de 1986, fazendo referência, neste caso, a um guerreiro imortal que só morre por decapitação. Passou, assim, a ser um termo usado como metáfora para alguém extremamente resiliente. Ciro exibe, de algum modo, essa resiliência. 

Por quantos partidos o líder cearense (que nasceu em SP) passou? Pegue papel e caneta: PDS (1982–1983); PMDB (1983–1990); PSDB (1990–1997); PPS (1997–2005); PSB (2005–2013); PROS (2013–2015); PDT (2015–2025) e retorno ao PSDB (2025). Ele próprio já declarou que “minha vida partidária é uma tragédia”. 

Na disputa pela presidência, há três momentos para se destacar: em 2002, Ciro polariza com Lula e indica que com ele disputaria o 2° turno. Visto como de perfil de centro e moderado, Ciro teria grandes chances de superar Lula. Seu temperamento explosivo, porém, pôs tudo a perder. Assim, José Serra, antevendo sua exclusão, passou a provocar o então jovem pretendente do PDT e acabou tomando a sua vaga na segunda parte do pleito. Lula ganhou. 

O líder cearense voltou à carga em 2018. Lula estava preso e Ciro esperava ser ungido por uma coalizão de centro-esquerda e, de fato, teria boas chances se isso ocorresse. Lula, porém, rechaçou tal pretensão e lançou Fernando Haddad que perdeu para Jair Bolsonaro. Ciro, mesmo com pouquíssimo apoio, ainda fez 12% de votos no 1° turno e guardou uma mágoa definitiva de Lula e PT. Já em 2022, o desempenho de Ciro foi bem abaixo do esperado: 3,5%. E sua candidatura foi vitimada pela grande polarização Lula-Bolsonaro. 

Agora, 2026, a energia cirista se volta para o governo do Ceará, estado que Ciro já havia governado (1991-1994). Seu desempenho nas pesquisas vem gerando uma espécie de aglutinação em torno de seu nome, mostrando-o acima do atual governador, Elmano de Freitas (PT), em todos os cenários. No percentual consolidado geral, o placar é de 53,3% para o desafiante e 36,4% para o atual governador. 

A disputa em questão está longe de ser algo trivial ou restrito ao nordeste. O Ceará é um estado-chave na política nordestina, uma espécie de caixa de ressonância da região, junto com Pernambuco e Bahia, e dita uma espécie de ritmo que reverbera pelo país.

Aliás, na Bahia, um cenário que poderia ser tranquilo para o PT, alterou-se. ACM Neto (União Brasil) está à frente de Jerônimo Rodrigues (PT). Em Pernambuco, o PT não tem um candidato competitivo e deve apoiar João Campos (PSB) que está à frente da atual governadora, Raquel Lyra (PSD), nas pesquisas 

Voltando à disputa cearense, há uma maré montante que, neste momento, é totalmente favorável à Ciro. Contudo, pondere-se dois aspectos importantes: a. Lula tem a chave do cofre federal e pode ajudar Elmano não com a liberação de verbas para campanha, mas turbinando os seus feitos e; b. Ciro tem um temperamento sujeito a chuvas e trovoadas. Se for provocado, pode reagir de modo desproporcional. 

Há mais pontos ainda. A esquerda precisa trabalhar em múltiplas frentes porque precisa fazer não somente governadores, mas uma bancada expressiva no Congresso, especialmente no Senado, visto como “bolsonarista” pelos petistas e esquerda em geral. Contudo, não há no horizonte nenhum indicativo de mudança no legislativo que deve seguir mais à direita. 

Uma possível explicação para o crescimento de Ciro Gomes – além de ser um nome bem conhecido pelos cearenses – é sua pauta para a segurança pública, prometendo enfrentar as facções criminosas que, segundo ele, “dominam o estado”. Difícil duvidar desse domínio. A situação ali é de fato crítica.

O Ceará lidera o ranking nacional de homicídios em 2025, com a maior taxa de mortes violentas do Brasil, atingindo 32,6 por 100 mil habitantes, mais que o dobro da média nacional de 16. A notícia boa é que Fortaleza registrou uma redução significativa de 72,3% nos homicídios em fevereiro de 2026, com 18 casos comparado a 65 no mesmo período de 2025. 

Mais do que um jargão de campanha, Ciro parece ter encontrado o “calcanhar de Aquiles” do governo petista atual no Ceará. Aliás, a segurança pública segue sendo um ponto fraco para os governos de esquerda em geral, especialmente por questões ideológicas, algo que pode inclusive prejudicar o próprio presidente Lula na busca de seu quarto mandato.

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