
Quem ainda tem dúvidas de que os Estados Unidos pretendem interferir de toda forma nas eleições de outubro no Brasil é porque não acompanha o noticiário ou não sabe ler os sinais. Eles estão mais do que evidentes desde que Donald Trump escolheu Darren Beattie, um supremacista, como enviado de seu governo por aqui. Beattie, entre outras barbaridades, já se referiu ao Brasil como um “regime autoritário” e, segundo o jornalista Jamil Chade, é responsável por orquestrar as sanções contra Alexandre de Moraes e o tarifaço contra o país. É como dormir com o inimigo.
Trump não olha com atenção para cá porque tem interesse em ganhar entrada gratuita para os jogos do Flamengo no Maracanã. Quer desossar a legislação e o que existe de soberania nacional para entrar e levar daqui o que bem quiser. E o que mais quer hoje são os chamados minerais de terras raras, um grupo de 17 elementos químicos considerados imprescindíveis para a indústria. O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, segundo o Ministério de Minas e Energia.
Por isso não é qualquer coisa o memorando de entendimento assinado no início do ano pelo então governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), com os Estados Unidos, para exploração desses recursos em Goiás. Como bem lembrou o novo ministro do Ministério do Desenvolvimento, Márcio Elias Rosa, o acordo não tem validade porque esse tipo de negociação compete à União, e não aos estados.
“Não queremos que isso seja objeto de exportação, mas de industrialização”, disse o ministro em entrevista ao programa “Bom Dia, Ministro”, deixando claro qual é o projeto em disputa na eleição de outubro. Um é o fortalecimento da indústria nacional. Outro quer manter o Brasil como exportador de produtos primários sem valor agregado.
Embora tenha descartado a criação de uma empresa estatal para exploração desses minerais, Elias Rosa defende que é preciso haver regras para definir quem pode ou não explorar os recursos. E os minerais, até onde se sabe, têm todo.
Ou seja: se o atual presidente for reeleito em outubro, não haverá carta-branca para Trump.
Tanto Caiado quanto o chefe da Casa Branca sabem que o memorando que dá plenos poderes aos grupos estrangeiros nas minas goianas não sobrevive a um questionamento no STF. O que tem ali é uma promessa de campanha feita para quem vai de fato mandar no Brasil caso gente como Caiado vença a eleição.
Algo como “me ajudem a me eleger, amanhã tudo isso pode ser seu”. Quem diz não é o governador, mas o pré-candidato a presidente – este sim com poderes sobre terras da União.
O problema, para Caiado, é que ele tem concorrência. Até o fim da campanha, ele e Flávio Bolsonaro (PL) vão disputar palmo a palmo quem está mais disposto a entregar tudo o que tem no país para vencer a eleição. Trump, que já coça as mãos, não levaria só os minérios de terras-raras. Levaria o centro-oeste inteiro.
