A catedral que nasceu de 98 tubos de papelão para substituir um templo de pedra destruído por um terremoto na Nova Zelândia

Você já imaginou uma catedral feita de papelão que resiste a terremotos melhor do que um templo de pedra? Em Christchurch, na Nova Zelândia, ela existe. Erguida sobre os escombros do tremor de 2011, a catedral provisória de Shigeru Ban se tornou o maior símbolo de renascimento da cidade.

O que o terremoto de 2011 destruiu em Christchurch?

O terremoto de 22 de fevereiro de 2011 atingiu Christchurch às 12h51, matando 185 pessoas e destruindo inúmeros edifícios. Entre eles estava a ChristChurch Cathedral, cujas obras começaram em 1864 e foram concluídas em 1904, projetada pelo arquiteto George Gilbert Scott filho com inspiração no estilo gótico inglês. A catedral havia sido um dos marcos mais famosos da cidade por mais de um século.

Um primeiro terremoto de magnitude 7.1, ocorrido em 4 de setembro de 2010, já havia rachado a estrutura, mas foi o segundo tremor que causou danos irreparáveis. Segundo registros históricos neozelandeses, mais de 3.800 tremores de magnitude 3 ou superior foram registrados na região entre setembro de 2010 e setembro de 2012, deixando a Diocese Anglicana diante de um dilema urgente: a população precisava de um local para cultos e eventos cívicos enquanto a cidade ainda tremia.

Em fevereiro de 2011, um terremoto de magnitude 6.3 destruiu a catedral neogótica de Christchurch, símbolo da cidade neozelandesa por mais de um século

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Quem foi o arquiteto convidado a construir a catedral de papelão?

O reverendo Craig Dixon, gerente de marketing e desenvolvimento da catedral, leu um artigo sobre o arquiteto japonês Shigeru Ban, que havia projetado uma igreja de papelão após o terremoto de Kobe, em 1995. Dixon convidou Ban para ir a Christchurch discutir a construção de uma catedral temporária que também pudesse sediar concertos e eventos cívicos.

Ban projetou o edifício pro bono, em colaboração com a firma local Warren and Mahoney, levando apenas seis semanas para criar o design inicial. A decisão da Diocese de demolir a catedral original gerou controvérsia, com o Great Christchurch Building Trust questionando a legalidade da operação no Tribunal Superior da Nova Zelândia, atrasando o cronograma original.

Como uma catedral de papelão consegue resistir a terremotos?

A catedral adota o estilo A-frame, elevando-se 24 metros acima do altar, com 98 tubos de papelão de 60 centímetros de diâmetro, até 120 quilogramas cada e até 20 metros de comprimento. Os tubos são revestidos com poliuretano impermeável e retardante de fogo, tratamentos que Ban desenvolve desde 1986.

O canal Paul Arai, com 3,34 mil inscritos, analisa em profundidade o design estrutural antissísmico da catedral, o uso simbólico dos materiais recicláveis, a atmosfera interior e as controvérsias em torno do projeto:

A estrutura combina elementos distintos que trabalham juntos para garantir estabilidade sísmica. Os principais componentes são:

  • 12 pórticos principais de 21 metros formados por tubos de papelão reforçados com vigas de madeira laminada
  • 8 contêineres marítimos de 6 metros, quatro de cada lado, posicionados na base para compensar pressão lateral
  • Dois quadros de tubos de aço nas extremidades para rigidificar a estrutura principal
  • Laje de concreto flutuante de 900 mm com aproximadamente 40 quilômetros de aço embutido, projetada para solos propensos à liquefação
  • Telhado de policarbonato semitransparente que protege a estrutura e permite passagem de luz natural

Testes confirmaram que os tubos reforçados apresentam resistência à compressão comparável à da madeira laminada, mantendo uma fração do peso de elementos equivalentes em aço. A catedral foi construída atendendo a 130% dos padrões sísmicos vigentes na Nova Zelândia.

Quanto custou construir a catedral de papelão e quando ela abriu?

A construção começou em 24 de julho de 2012. Um problema durante a obra, papelão exposto que molhou antes do fechamento completo do edifício, exigiu remoção e substituição do material, atrasando a abertura. A catedral abriu ao público em 6 de agosto de 2013, tornando-se o primeiro edifício significativo inaugurado como parte da reconstrução de Christchurch.

A tabela abaixo resume os principais dados do projeto:

Dado Informação
Arquiteto Shigeru Ban (pro bono)
Custo final NZ$ 5,9 milhões
Capacidade 700 pessoas
Altura 24 metros
Padrão sísmico 130% do código vigente na Nova Zelândia
Vida útil projetada 50 anos

Uma igreja de papelão que se tornou permanente por ser amada

Fotografias do projeto publicadas pela ArchDaily mostram como os espaços de 5 centímetros entre os tubos filtram a luz para o interior da catedral, criando uma atmosfera singular que nenhum edifício convencional entregaria. Em outubro de 2012, a Lonely Planet nomeou Christchurch entre as “top 10 cidades para viajar em 2013”, citando a construção como uma das razões que tornavam a cidade um lugar empolgante.

Ban resume a filosofia do projeto com uma frase que acabou descrevendo exatamente o que aconteceu: “Se um edifício é amado, então ele se torna permanente.” Projetada como estrutura temporária, a catedral de papelão de Christchurch deixou de ser provisória há muito tempo.

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