
Há alguns dias fiz um vídeo sobre a Érika Hilton no Roda Viva que acabou virando munição.
Nos comentários, você perceberá que várias pessoas usaram como confirmação do que já queriam acreditar.
“É, ela é burra mesmo.”
Não era esse o ponto.
Érika Hilton é extremamente inteligente. Alguém com a história dela, chegando onde chegou, não é acidente. O vídeo criticava a soberba, não a capacidade. A contradição, não a pessoa.
Ela deu uma nova entrevista pro Podpah e eu fui assistir esperando mais erros de português. Ela até errou. Poderia até virar uma parte dois pra engajar de novo e ganhar mais visualizações.
Mas outra coisa me chamou atenção dessa vez. Ela disse:
Faz sentido. Quem viu a miséria tem razão de ter pressa.
Mas ela não é mais a menina pobre que precisava sobreviver. Hoje ela é deputada federal. Ela atravessou.
A gente se apega nos personagens que salvaram a gente. O problema é quando a situação muda e o personagem congela. A impaciência que faz sentido na miséria, no parlamento vira agressividade. E agressividade não converte ninguém.
A esquerda prega Paulo Freire
Uma máxima dele diz:
Ela nasceu pobre. Hoje é deputada. Será que ela trocou o papel sem perceber?
Freire não é só um símbolo pra carregar no discurso. Ele fala sobre o perigo de quem foi oprimido repetir a estrutura que o oprimia.
A direita que chama ela de burra está errada e está alimentando um ciclo de ódio. Mas ela também pode estar alimentando o mesmo ciclo pelo outro lado.
Os dois lados juram que estão certos. Os dois lados estão presos.
Érika Hilton tem uma história que poderia ser ferramenta de transformação, de inspiração. Não de vingança. Quebrar esse ciclo não é fraqueza. É exatamente o que Freire chamava de libertação.
