Vivendo em um universo paralelo

‘Aqui jaz Mojtaba Khamenei’, o aiatolá de papelReprodução

Assiste-se muito, mas, no fundo, sabe-se pouco sobre o que realmente acontece na atual guerra entre a coalizão formada por Estados Unidos e Israel e o Irã. As imagens são contundentes, ainda que já tenhamos nos acostumado a acompanhar conflitos em tempo real.

São vistos pilotos no momento em que liberam bombas sobre seus alvos. Testemunham-se explosões de todas as cores e intensidades, em desertos e cidades. Observam-se famílias procurando seus parentes entre sacos pretos espalhados pelo chão. Ouvem-se líderes em entrevistas e declarações. Há um excesso de informação — e, ainda assim, não entendemos praticamente nada do que realmente está acontecendo.

Quase todos se acostumaram a banhos de fake news. Muitos perderam a sensibilidade, não apenas diante de cenas que, até pouco tempo atrás, roubariam o sono, mas também diante de situações absurdas que se desenrolam sob os olhares de todos. Quem tenta acompanhar com atenção precisa de esforço para conseguir compreender, classificar, processar. É um exercício desgastante.

Talvez por isso a maioria das pessoas simplesmente transite pelas notícias sem tentar compreendê-las. Poucos, de fato, as assimilam. Em vez disso, encaixam-nas em prateleiras mentais já abarrotadas de conclusões anteriores. As novas informações entram à força, desalinhadas. A maior parte sobra do lado de fora.

Aiatolá de papelão

Nesse cenário de confusão, o próprio Irã parece, por vezes, um retrato de dissonâncias históricas. Como outras civilizações antigas — a exemplo da Grécia e do Egito —, foi, em um passado remoto, o centro do mundo. Hoje, é outra coisa.

Ciro, o Grande, fundador do Império Persa, do qual se originou o Irã, governou o maior império de seu tempo. Seu reinado ficou marcado pela tolerância religiosa e cultural. Foi ele, por exemplo, quem libertou os judeus de seu primeiro exílio, na Babilônia. É difícil imaginar que ele tenha orgulho do comando atual do país.

Desde o ataque israelense à cúpula iraniana em 28 de fevereiro — que resultou na morte do aiatolá Ali Khamenei e de dezenas de líderes do regime —, o atual líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, desapareceu. Em um comício recente, sua presença foi substituída por um boneco de papelão.

Nas semanas seguintes, declarações passaram a ser divulgadas em seu nome, sem qualquer confirmação de sua existência. Está ferido? Em coma? Morto? Ou vivo e escondido? Há versões para todos os gostos — inclusive a de que estaria refugiado na Rússia. A comunicação com ele, dizem, ocorre por mensageiros motorizados, para evitar rastreamento eletrônico. Em um país do tamanho do Irã, é necessária muita criatividade para imaginar como isso se dá.

Soma-se a isso o fato de terem circulado rumores sobre suas escolhas sexuais, criando um contraste ainda mais agudo com a rigidez do regime que enforca homossexuais em praça pública e que talvez esteja, nesse momento, seja governado por um.

Com Mojtaba fora de cena, a liderança de cerca de 90 milhões de iranianos parece hoje repousar sobre uma estrutura oca — ou nas mãos da Guarda Revolucionária, braço militar do regime islâmico classificado como organização terrorista por diversos países, a exemplo de Estados Unidos, Israel e Austrália.

Ainda assim, há governantes pelo mundo que defendem que a República Iraniana deveria ser simplesmente “deixada em paz”.

A absurda situação no Estreito de Ormuz

Poucos episódios recentes geraram tantas sátiras quanto o Estreito de Ormuz. A sucessão de declarações contraditórias, ameaças e recuos compôs um enredo que, não fosse trágico, seria cômico. O quadro protagonizado por Jimmy Fallon, apresentador americano do programa The Tonight Show, está entre eles.

A velocidade e a variedade das mensagens emitidas por ambos os lados lembram uma peça de Brecht — ainda que suas consequências sejam tudo menos engraçadas. Enquanto isso, os mercados financeiros mundiais reagem negativamente à incerteza e à imprevisibilidade.

Seja qual for o desfecho desse conflito, é difícil não notar o contraste. De um lado, a herança de uma civilização que evocava horizontes vastos, riqueza e sofisticação cultural. De outro, um país aprisionado em seus próprios paradoxos que merecia algo mais do que um cotidiano absurdo e um porvir desolador.

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