
Pesquisa Datafolha divulgada nesta semana aponta que 6 em cada 10 brasileiros consideram a renda familiar insuficiente para pagar despesas. Quase metade dos entrevistados (45%) buscou ou está em busca de alguma fonte alternativa de renda nos últimos meses.
Na escala 6 por 1 o u 5 por 2, muita gente está encerrando o turno e iniciando o outro, muitas vezes nos dias de folga, em bicos como de entrega ou condução por aplicativo.
A percepção de aperto financeiro é mais intensa entre os brasileiros com renda de até dois salários mínimos. Nesse grupo, 7 em cada 10 afirmam que o dinheiro que entra em casa não é suficiente para cobrir os custos do dia a dia (quase 70% da população).
O aperto tem conexões com o nível de endividamento das famílias, que atingiu 49,9% em fevereiro e renovou o recorde histórico da série do Banco Central.
Esses números explicam o mau humor dos brasileiros a poucos meses das eleições. O presidente Lula (PT) apostou alto que, a essa altura do campeonato, crescimento econômico, inflação sob controle e mercado aquecido, com pleno emprego, seriam as cartadas suficientes para deixar qualquer adversário falando sozinhos com suas teorias da conspiração e pautas morais.
O problema é que, agora, é com esse público enfurecido que a oposição começa a falar e lançar promessas – muitas vezes vazias, mas que funcionam na hora do desespero.
Puder: as pessoas estão trabalhando muito e ganhando pouco. Os boletos, nessas horas, são um termômetro da saúde mental.
Preocupada, a equipe econômica do governo Lula estuda lançar o programa Desenrola 2.0. A ideia, de acordo com uma apuração da Folha de S.Paulo, é liberar o uso do dinheiro do FGTS para que o trabalhador renegocie dívidas inadimplentes caso o valor do fundo cubra o total do débito. (Amortizações não serão permitidas).
O Planalto busca também um acordo com os bancos por um desconto de até 80% nas dívidas. E, caso o acordo não for honrado pela pessoa, o governo paga no lugar dela com recursos do Fundo de Garantias de Operação – um vespeiro que certamente levará a oposição a questionar o uso desse instrumento como arma eleitoral.
Para o governo, é um cheque em branco. A pessoa beneficiada não quer saber se a medida vem às vésperas ou não de uma eleição. Quer pagar as contas. E, como o voto é secreto, não está no contrato que terá de votar neste ou naquele candidato caso escape das dívidas.
Lula, que já criticou as bets e a sanha consumista de parte da população, sabe que no fundo o que define uma eleição é o (bom ou mau) humor de quem vota. E tenta desarmar a bomba. Não tem muito para onde correr.
