Pacote de bondades do governo deve manter os juros lá em cima

Estima-se que o pacote de bondades preparado pelo governo para o período eleitoral possa injetar mais de R$ 100 bilhões na economia brasileira. Parece óbvio que essa entrada maciça de recursos na economia vai ter um impacto no consumo e na inflação. Mas as autoridades não pensam assim.

“Todo esse processo está sendo bem pensado para garantir um mix equilibrado entre política monetária e fiscal. Não se trata de estímulo ao consumo. Trata-se do aumento do patrimônio das famílias. Do aumento de produtividade”, disse Bruno Moretti, ministro do Planejamento, à Folha de S. Paulo.

Difícil de entender como R$ 100 bilhões podem entrar na economia e afetar apenas o patrimônio das pessoas e não o consumo, como diz Moretti. É por isso que as previsões de inflação para 2026 começaram a subir. No Boletim Focus, publicado na segunda-feira, a estimativa dos analistas de mercado para o IPCA deste ano subiu de 4,80% para 4,86%.

Diante disso, com um cenário internacional que não ajuda nada, a chance de uma queda lenta de juros – ou mesmo de uma manutenção do patamar atual – aumenta fortemente. Hoje, o Comitê de Política Monetária do Banco Central vai decidir o caminho a seguir. Mas, diante da montanha de recursos que serão colocados na economia, espera-se que os juros, na melhor das hipóteses, caiam apenas 0,25%. O presidente do BC, Gabriel Galípolo, dificilmente comprará o discurso cheio de malabarismos do ministro do Planejamento.

Criar mecanismos para agitar artificialmente a economia não é uma invenção desta administração. Em 2022, o governo Jair Bolsonaro, por exemplo, também fez manobras para turbinar o consumo e jogou o pagamento de despesas estatais para os exercícios seguintes. Isso, no entanto, não foi suficiente para que Bolsonaro ganhasse as eleições. A mesma sina será vivida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva? Saberemos em breve.

Uma parte do pacote de bondades, aquela que renegocia as dívidas de milhões de brasileiros, surge para combater os efeitos de um problema (os juros altos) e não sua causa (o descontrole de gastos públicos). O jornal “O Globo” discutiu essa questão em seu editorial: “A poucos meses da eleição, o governo fala num novo programa para renegociar dívidas. Não passa de medida eleitoreira. Se estivesse disposto a resolver o problema de modo duradouro, enfrentaria o desequilíbrio fiscal. Em nome do crescimento econômico acelerado, mas de curta duração, a torneira do gasto e do crédito fácil sempre jorrou, ajudando a aquecer a demanda e pressionando a inflação para cima. Não adianta olhar para o BC em busca de bode expiatório. Com um governo gastão, a autoridade monetária não tem alternativa senão aumentar o custo do dinheiro para controlar a inflação. Sem resgatar a credibilidade fiscal, todo o resto será paliativo”.

Se Lula continuar a patinar nas pesquisas, o desespero deve se instalar no governo e outras ideias heterodoxas podem entrar em campo. Portanto, é melhor apertar os cintos de segurança: os próximos meses prometem um teste completo e severo para os nossos nervos.

*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide

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