Crédito, dívida e inflação: estímulo do governo levanta dúvidas sobre eficácia

O governo brasileiro tem adotado medidas para estimular a economia por meio da ampliação de crédito e programas de renegociação de dívidas. No entanto, os efeitos dessas iniciativas sobre inflação, consumo e percepção da população seguem no centro do debate entre economistas e analistas de mercado.

No programa Painel BM&C, especialistas avaliaram se esse tipo de política tem capacidade de gerar alívio sustentável para as famílias ou se, na prática, transfere riscos e custos para o futuro, especialmente em um cenário de juros elevados e renda pressionada.

“Para isso que a gente vai fazer uma discussão aqui contrária a bancos, mas a gente percebe que a garantia do empréstimo tá indo pros bancos, né? No sentido de que o devedor ele só vai mudar a mão de quem tá o dinheiro.”, afirma Carlos Honorato.

Renegociação de dívidas e impacto no sistema financeiro

Uma das principais críticas levantadas está relacionada ao desenho dos programas de renegociação, que podem beneficiar o sistema financeiro ao recuperar créditos já considerados perdidos. Isso ocorre quando dívidas que estavam fora do balanço dos bancos voltam a gerar algum tipo de retorno.

Além disso, o uso de garantias como o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) levanta questionamentos sobre a alocação de recursos e o impacto sobre o patrimônio das famílias, especialmente em um contexto de vulnerabilidade financeira.

“Então, para mim, quem sai ganhando nessa história é o banco, né? Porque o banco, o dinheiro que ele não tinha, isso vai entrar como lucro no seu balanço.”, destaca Miguel Daoud.

Incentivos recorrentes e comportamento financeiro

Outro ponto destacado pelos analistas é o risco de criação de dependência de programas governamentais. A recorrência de iniciativas de renegociação pode gerar incentivos distorcidos, estimulando o endividamento na expectativa de novos alívios no futuro.

Esse comportamento tende a ser reforçado em um ambiente de baixa educação financeira, no qual a solução de curto prazo não altera a dinâmica estrutural do endividamento das famílias.

“Cria sim uma dependência de estímulos de auxílio do governo, embora haja um alívio imediato. No curto prazo, tem esse alívio, as pessoas elas ficam um pouco mais tranquilas.”, avalia Felipe Nascimento.

Juros elevados e limitações da economia real

O cenário de juros elevados aparece como um dos principais entraves para a eficácia dessas políticas. A combinação entre crédito caro e inflação persistente reduz a capacidade de consumo e amplia o risco de inadimplência.

Para os analistas, a economia real enfrenta limitações que não são resolvidas apenas com expansão de crédito, exigindo uma abordagem mais ampla que envolva renda, produtividade e estabilidade macroeconômica.

“Enquanto o Brasil não tiver um programa que ele consiga colocar e estabilizar a taxa de juros num patamar em que a rentabilidade operacional ela esteja maior do que a taxa de juros.”, argumenta Carlos Honorato.

Percepção econômica e impacto político

A percepção da população sobre a economia também foi apontada como fator central. Mesmo com indicadores macroeconômicos positivos, como crescimento do PIB ou mercado de trabalho aquecido, o sentimento das famílias pode não acompanhar esses dados.

Esse desalinhamento entre indicadores e percepção impacta diretamente o ambiente político, especialmente em períodos eleitorais, quando programas econômicos passam a ter também um componente estratégico.

“Então, o que que vai acontecer? Eles vão continuar se endividando e vão continuar dizendo: ‘Pô, mas como é que eu vou viver?’”, observa Miguel Daoud.

Fiscal, confiança e reação do mercado

A discussão também avançou sobre os impactos fiscais das medidas de estímulo. O uso de receitas extraordinárias e mecanismos indiretos para sustentar políticas públicas pode afetar a confiança do mercado e pressionar variáveis como a curva de juros.

A ausência de um ajuste fiscal estrutural consistente tende a limitar o espaço para políticas monetárias mais flexíveis, mantendo o ambiente de incerteza elevado para investidores e agentes econômicos.

“A curva de juros não está mostrando isso. Então significa que não tá funcionando”, pontua Miguel Daoud.

Perspectivas e necessidade de coordenação

Para os especialistas, a solução para o problema do endividamento e da baixa eficiência das políticas de estímulo passa por uma combinação de medidas estruturais, incluindo educação financeira, redução consistente dos juros e maior coordenação entre política fiscal e monetária.

Sem avanços nesse sentido, o risco é de repetição de ciclos de expansão de crédito seguidos por aumento da inadimplência, sem mudanças relevantes na qualidade da renda ou na estabilidade econômica de longo prazo.

 

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