
Vereadora Luciana Neves será velada dia 4 na Câmara Municipal
A ex-vereadora Luciana Novaes, que teve morte cerebral decretada esta semana, deixou um legado de 200 leis propostas na Câmara do Rio – muitas das quais foram aprovadas. Para chegar a essa marca, ela construiu uma história de superação e resiliência: em 2003, então estudante de enfermagem, foi atingida por uma bala perdida na coluna cervical, deixando-a tetraplégica.
Luciana Novaes, antes de ser baleada
Reprodução/RJ2
Luciana entrou em protocolo para confirmação de morte cerebral na última segunda-feira (29). A família informou que a morte cerebral foi confirmada e que tentará fazer a doação de órgãos (veja mais adiante na reportagem o comunicado da família).
Baleada em universidade, Luciana Novaes passou por longos períodos de internação
Reprodução/TV Globo
Luciana Gonçalves Novaes estava na lanchonete da Universidade Estácio de Sá, no Rio Comprido, Zona Norte do Rio, em 5 de maio de 2003, quando foi baleada. O tiro atingiu sua mandíbula esquerda, destruiu parte da terceira vértebra cervical e se alojou na coluna medular.
As investigações na época levantaram como uma das hipóteses para o caso a de que traficantes do Morro do Turano, que fica colado na faculdade, dispararam em direção ao campus em represália ao fato da universidade ter aberto mesmo após uma determinação de luto pelo desaparecimento de duas pessoas e a morte de uma terceira supostamente em uma operação policial. Também foi investigada a hipótese do tiro ter partido do próprio campus.
No hospital, segundo a própria Luciana contou anos depois, os médicos estimaram que sua chance de sobreviver era de 1%. Ela ficou 1 ano e 10 meses internada. Após a alta, ela só voltou a sair de casa em seu aniversário de 22 anos, em 2005. Na ocasião, foi a um culto religioso e viu o mar novamente.
A Estácio de Sá foi condenada pelo Tribunal de Justiça do Rio a pagar uma indenização de 600 mil reais para a estudante.
Vereadora Luciana Novaes é a primeira vereadora tetraplégica eleita no Rio de Janeiro
Henrique Coelho/G1
Luciana se formou em Serviço Social e se pós-graduou em Gestão Governamental. Ela se elegeu vereadora pelo PT por 3 mandatos, o primeiro em 2016, tornando-se a primeira pessoa tetraplégica a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal carioca. Também se candidatou a deputada federal, ficando com a segunda suplência em 2022. Em 2023, ela retornou à Câmara Municipal como suplente.
As pautas de Luciana Novaes eram fortemente orientadas pela sua vivência pessoal como mulher com deficiência e vítima de violência urbana. Ela foi presidente da Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência na Câmara e autora da Lei 8.781/2025, que institui a Política Municipal de Rotas Acessíveis do Rio, pela locomoção a pessoas com deficiência, mobilidade reduzida e idosos.
Também foi autora de projetos que garantiram vagas prioritárias em escolas próximas para alunos com deficiência e processos avaliativos que respeitam as necessidades de estudantes com deficiência intelectual.
Luciana defendia ainda os direitos dos idosos, inclusão de pessoas em situação de rua, transparência e combate à corrupção e superação da pobreza e desigualdade.
A ex-vereadora estava internada desde dezembro, após complicações de saúde que começaram com uma fratura no ombro direito sofrida em 15 de outubro de 2025, seguida de pneumonia e infecção urinária.
Segundo sua assessoria, ela sofreu uma “intercorrência súbita e grave, compatível, segundo informações médicas, com rompimento de aneurisma cerebral”, com “piora crítica de seu quadro neurológico”.
Na sequência, entrou no protocolo de morte cerebral, um conjunto de exames que confirmam a parada total e irreversível das funções do cérebro, condição em que o paciente é considerado morto por lei.
Luciana em foto de 2026
Reprodução/Instagram
Este ano, a ex-vereadora continuava ativa nas redes sociais. Em março, na semana que a médica Andréa Marins Dias foi baleada, ela escreveu:
“Hoje estou refletindo a vida em silêncio e com o coração pesado. São tantas notícias tristes.Tantas vidas interrompidas. O mundo em guerra, Rússia e Ucrânia, Estados Unidos e Irã. E aqui no Brasil a dor também não para. Mulheres continuam morrendo nas mãos dos homens. Todos os dias uma notícia de feminicídio. E até quem deveria proteger também tira vidas. Essa semana a médica Andréa Marins Dias teve sua vida interrompida em uma ação da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, em Cascadura.
Eu não consigo ver isso só como notícia. Porque eu também fui vítima da violência. Um tiro mudou a minha vida. E talvez por isso hoje eu esteja assim, mais sensível, mais triste, refletindo sobre tudo. A gente vai se acostumando, e isso assusta. Porque não é normal. Nunca foi. Cada vida importa. Cada história importa. E hoje eu só queria que o mundo fosse um pouco menos violento”.
Repercussão
Família:
“Com o coração profundamente entristecido, comunicamos que nossa querida Vereadora Luciana Novaes concluiu hoje sua jornada terrena, após a confirmação médica de morte encefálica.
Luciana foi muito mais do que uma mulher pública. Foi luz onde muitos viam escuridão. Foi esperança onde tantos já não conseguiam mais acreditar. Foi coragem quando a vida exigiu bravura. Foi abraço nas causas esquecidas, voz para quem tantas vezes não era ouvido e representação verdadeira para pessoas que por muito tempo se sentiram invisíveis.
Ela mostrou, com a própria vida, que limites não definem destinos. Transformou dor em missão, obstáculos em ponte e sofrimento em amor ao próximo.
Sua caminhada foi marcada por dignidade, fé, generosidade e uma força rara — dessas que levantam quem estava caído e devolvem sonhos a quem já tinha desistido.
Luciana não falou apenas sobre inclusão. Ela encarnou essa luta. Abriu portas, rompeu barreiras e fez nascer esperança no coração de incontáveis famílias.
Até em sua despedida escolheu semear vida: seus órgãos serão doados, gesto que traduz com perfeição quem ela sempre foi — amor que se reparte, cuidado que permanece, bondade que continua.
Hoje o céu recebe de volta um anjo. E a terra chora a partida de uma mulher extraordinária.
Nós ficamos com a saudade, com a gratidão e com o privilégio inesquecível de termos caminhado ao lado de uma grande alma.
Luciana fará falta ao Rio de Janeiro. Fará falta à política feita com verdade. Fará falta, sobretudo, à luta por inclusão, acessibilidade e respeito, causas que ela abraçou com a própria vida.
Luciana não parte pequena. Parte imensa.
E permanecerá viva em cada luta justa, em cada gesto de amor e em cada coração que ela tocou.
Convidamos familiares, amigos, admiradores e toda a população para sua despedida, no velório que será realizado na segunda-feira, dia 04, às 10 horas, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, no Saguão José do Patrocínio, localizado no Palácio Pedro Ernesto, Praça Floriano, Cinelândia”.
A Câmara Municipal divulgou uma nota lamentando a morte da ex-vereadora:
“O presidente da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, Carlo Caiado (PSD), manifesta profundo pesar pelo falecimento da parlamentar, uma mulher que transformou a própria dor em propósito e fez da sua trajetória um exemplo permanente de luta, coragem e amor ao próximo”, diz o texto.
“Luciana foi mais do que uma parlamentar atuante. Foi símbolo de perseverança e superação. Mesmo diante de uma das maiores adversidades que alguém pode enfrentar, encontrou forças para reconstruir sua vida e se dedicar ao serviço público com dignidade, sensibilidade e compromisso com quem mais precisa”, prosseguiu.
“Ao longo de sua atuação, deixou um legado consistente de quase 200 leis, sempre voltadas para a inclusão, a defesa das pessoas com deficiência, dos idosos e da população em situação de vulnerabilidade. Sua voz firme e sua escuta generosa fizeram diferença na vida de milhares de cariocas, olhando não apenas para a cidade, mas para cada indivíduo que precisava ser visto, acolhido e respeitado.”
“Sua história, marcada por fé, resiliência e propósito, seguirá inspirando gerações. Luciana mostrou, na prática, que limites não definem destinos quando há vontade de transformar o mundo ao redor”, emendou.
O prefeito Eduardo Cavaliere (PSD) decretou luto oficial de três dias em uma edição extra do Diário Oficial à noite.
