‘Não existia lei’: O que mudou na vida de trabalhadores domésticos, antes pouco reconhecidos como profissão


Trabalhadores domésticos: a evolução dos direitos e da profissão
Até pouco tempo atrás, o trabalho doméstico era associado, por muitos, à falta de opção profissional. Esse cenário começa a mudar após décadas de mobilização por direitos e valorização da atividade. Um dos marcos dessa transformação ocorreu em 2013, com a aprovação da PEC das Domésticas.
A mudança na legislação ampliou direitos e equiparou a categoria aos demais trabalhadores formais, ao mesmo tempo em que elevou o custo da formalização e alterou a dinâmica das relações de trabalho no setor.
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Há décadas na profissão, Dinora da Silva Nunes acompanhou e ajudou a construir essa mudança. Aos 74 anos, ela soma mais de 40 anos como empregada doméstica, sendo mais de três décadas na mesma casa.
Quando começou, não havia praticamente direitos garantidos. Segundo ela, o preconceito era comum, inclusive com diferenças de salário entre trabalhadoras negras e brancas.
“Quando eu comecei, não existia lei. Só depois da Constituinte que a gente teve o direito, a carteira assinada, a jornada de trabalho, tudo só começou através da nossa organização da categoria”, relata Dinora.
A experiência fez com que Dinora se tornasse uma das fundadoras da Associação das Trabalhadoras Domésticas de Canoas. Aposentada, segue atuando em prol da categoria e destaca a importância da formalização.
“A nossa caminhada foi difícil. Agora, com o surgimento dos MEI, já fica melhor para se organizar”, comenta.
A escolha pelo serviço doméstico
Já Cristiano Ribeiro da Silva representa um perfil cada vez mais comum: o de quem escolheu o serviço doméstico como mudança de carreira. Ex-chefe de açougue por 25 anos, ele viu na faxina profissional uma oportunidade.
Hoje, Cristiano trabalha em dupla com a esposa, atendendo, em média, duas casas por dia, em turnos de quatro horas. Ele afirma que a renda atual é maior do que a que tinha como açougueiro e não pensa em voltar ao regime tradicional da CLT. Tanto ele quanto a esposa são MEI e têm fila de espera de clientes.
Lençóis arrumados, casa perfumada e atenção aos detalhes fazem parte do serviço, que vai além da limpeza, explica Cristiano:
“Sabe quando chega e parece estar em um hotel de luxo? A gente quer deixar essa experiência para os nossos clientes”.
Tássila Mariele de Souza Castro, diarista profissional e mãe de dois filhos, fez curso profissionalizante e diz que isso mudou sua visão sobre o trabalho.
“Trabalhar com faxina não é só ir no cliente e fazer uma limpeza. É entregar confiança, questão de saúde também para os nossos clientes”, comenta Tássila.
Ela começou ainda jovem, aprendendo com a mãe, e decidiu investir na profissão depois de passar por dificuldades pessoais, como a enchente que atingiu sua casa. Ela reforça que não escolheu a profissão por falta de opção: “Remunera bem”, afirma.
Com clientes fixos e outros eventuais, ela se adapta à rotina de cada casa e, em serviços mais pesados, atua em dupla.
Preconceito
Para quem vive a profissão, o pedido é simples: respeito.
“Através da necessidade, brigamos por direito, por jornada de trabalho, por toda essa transformação que hoje aconteceu”, resume Dinora.
Ao falar sobre preconceito, Dinora relata que a discriminação fazia parte da rotina quando começou na profissão. Segundo ela, a desigualdade aparecia, inclusive, na remuneração e no tratamento dentro das casas.
Ela lembra que a situação era vivida por muitas colegas e marcou a trajetória das trabalhadoras domésticas por décadas.
“Havia até uma diferença de salário para funcionária negra da funcionária branca. Era uma discriminação, a patroa tratava melhor a branca do que a negra”, conclui.
Cristiano Ribeiro da Silva, Dinora da Silva Nunes e Tássila Mariele de Souza Castro
Reprodução/ RBS TV
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