O Brasil chega ao Dia do Trabalho com um cenário que, à primeira vista, parece positivo. O mercado de trabalho segue resiliente, com geração de vagas e taxa de desemprego em níveis historicamente mais baixos. Em fevereiro, o país criou 255.321 empregos formais, segundo dados do Caged, resultado de mais de 2,3 milhões de admissões no período.
Ao mesmo tempo, a taxa de desocupação ficou em 5,8% no trimestre encerrado em fevereiro de 2026, abaixo dos 6,8% registrados no mesmo período do ano anterior. O número de desempregados também recuou, passando de 7,3 milhões para 6,2 milhões em um ano.
Apesar desse avanço, uma análise mais detalhada aponta um quadro menos favorável, especialmente quando o foco se desloca da quantidade para a qualidade das vagas.
Mercado de trabalho no Brasil em melhora estrutural?
Segundo o economista e professor Carlos Honorato, o movimento observado no mercado de trabalho brasileiro não representa uma melhora estrutural.
“O que está acontecendo aqui não é simplesmente melhora do emprego. É uma melhora quantitativa com fragilidade qualitativa”, afirma.
De acordo com ele, o país tem ampliado a ocupação, mas com forte concentração em postos de menor produtividade, menor renda e maior instabilidade.
“O Brasil está gerando ocupação, mas parte relevante dessa ocupação ainda nasce em setores de baixa produtividade, com informalidade elevada, renda limitada e pouca capacidade de produzir ganho estrutural”, diz.
Esse padrão ajuda a explicar por que o aumento do emprego não tem se traduzido em avanço consistente da renda. A informalidade segue como um fator central nesse processo.
“No quarto trimestre de 2025, a informalidade ainda estava em 37,6%. Ou seja: há mais gente trabalhando, mas nem sempre em empregos capazes de sustentar renda, consumo e produtividade no longo prazo”, destaca Honorato.
Emprego cresce, mas renda não acompanha
Na prática, o mercado de trabalho brasileiro tem mostrado capacidade de absorção rápida de mão de obra, principalmente em setores de menor complexidade. Esse movimento melhora indicadores de curto prazo, mas limita ganhos estruturais.
“O mercado de trabalho brasileiro responde rápido pela via da ocupação precária, mas responde devagar pela via da produtividade”, explica o economista.
A consequência direta é um descompasso entre emprego e renda. Mesmo com mais pessoas ocupadas, o poder de compra das famílias segue pressionado, em um ambiente de inflação ainda presente em itens essenciais e predominância de vagas de menor qualificação.
Informalidade distorce leitura do mercado
Para Honorato, a informalidade compromete a leitura mais otimista dos dados de emprego.
“A informalidade reduz a proteção, limita contribuição previdenciária, fragiliza crédito, reduz previsibilidade de renda e dificulta ganhos permanentes de produtividade. O número melhora; a estrutura nem tanto”, afirma.
Esse cenário também reforça uma característica estrutural da economia brasileira: a dificuldade de transformar crescimento de emprego em desenvolvimento econômico consistente.
Impacto na inflação e na política econômica
O avanço do emprego, mesmo com baixa qualidade, também tem implicações relevantes para a política monetária.
“Esse quadro pode aumentar o risco de inflação persistente, mas não por excesso clássico de renda. O problema está em serviços pressionados, baixa produtividade e gargalos de oferta”, diz.
Segundo ele, quando a economia emprega mais sem ganhos equivalentes de produtividade, o custo tende a aparecer nos preços.
Do lado das empresas, o cenário também impõe desafios. O aumento do custo da mão de obra, sem contrapartida em produtividade, pressiona margens e limita decisões de investimento.
Além disso, a dificuldade em encontrar profissionais qualificados evidencia gargalos estruturais que afetam a eficiência da economia.
O que falta para o crescimento sustentável
Para transformar a geração de empregos em crescimento econômico consistente, o desafio passa por uma mudança de foco.
“É preciso sair da lógica de ‘mais postos’ para ‘melhores postos’: investimento, qualificação, produtividade, tecnologia e um ambiente de negócios menos hostil”, afirma Honorato.
Sem esses avanços, o país tende a permanecer em um ciclo de baixa qualidade do emprego.
“O Brasil corre o risco de ficar preso nesse modelo. No fim, não é sobre ter mais gente trabalhando. É sobre o tipo de economia que esse trabalho está construindo”, conclui.
O retrato do mercado de trabalho brasileiro em 2026 revela uma dinâmica clara: o país avança na geração de empregos, mas ainda encontra dificuldades para transformar essa ocupação em renda sustentável e crescimento econômico de longo prazo.
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