Queijo vira garantia bancária e sustenta tradição italiana

Queijo vira garantia bancária e sustenta tradição italianaMagnific

No coração da região de Emília-Romanha, no norte da Itália, enormes armazéns escondem um dos ativos mais valiosos do país. Prateleiras gigantes armazenam centenas de milhares de rodas de Parmigiano Reggiano que envelhecem lentamente e se tornam mais valiosas a cada mês. As informações são da CNN Business.

Para quem vê de fora, o espaço lembra uma “catedral do queijo”. Para produtores italianos, porém, trata-se de um verdadeiro sistema de sobrevivência econômica.

Parmigiano Reggiano

O Parmigiano Reggiano é um dos alimentos mais rigorosamente regulamentados do mundo. Ele só pode ser produzido em uma área específica, com apenas três ingredientes, leite, sal e coalho e precisa maturar por no mínimo 12 meses antes da venda. Muitas peças envelhecem por 24, 36 ou até 40 meses.

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Esse longo período cria um desafio financeiro. Enquanto agricultores precisam receber pagamentos mensalmente, os custos com funcionários, alimentação do gado e energia se acumulam diariamente. A receita, porém, só chega após mais de um ano. É nesse intervalo que entra o Credem Bank, que há mais de um século aceita o queijo como garantia para empréstimos.

Credem BankCredem Bank

Segundo Giancarlo Ravanetti, responsável pelo setor no banco, cerca de 4 milhões de peças são produzidas por ano e 500 mil ficam sob custódia da instituição. Ao todo, os armazéns movimentam aproximadamente 2,3 milhões de unidades anualmente, somando um valor estimado em 325 milhões de euros (R$ 1.9 bilhão).

Cada peça que chega ao local passa por um sistema rigoroso: é escaneada, registrada digitalmente e monitorada ao longo do tempo. Temperatura, umidade e ventilação são cuidadosamente controladas, enquanto funcionários verificam diariamente possíveis defeitos.

Após 12 meses, o Consórcio Parmigiano Reggiano realiza um teste tradicional: bate levemente em cada peça com um martelo para identificar falhas internas. Apenas as que apresentam som uniforme recebem o selo oficial de qualidade.

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Esse sistema sustenta uma cadeia produtiva formada por cerca de 300 produtores e mais de 2 mil fazendeiros. No total, o setor envolve aproximadamente 50 mil pessoas e movimenta mais de 4 bilhões de euros.

Apesar da tradição, os desafios aumentaram. Custos de produção dispararam com inflação, energia e logística mais caras. Ao mesmo tempo, o consumo interno caiu: em 2025, as vendas na Itália recuaram 10%, pressionadas pelos preços mais altos.

Por outro lado, o mercado externo ganhou força. Pela primeira vez, as exportações ultrapassaram metade das vendas totais, atingindo 50,5%. Países como Estados Unidos, Reino Unido e Canadá ampliaram a demanda, embora tarifas e incertezas econômicas tornem alguns mercados instáveis.

Considerado naturalmente sem lactose, rico em proteínas e livre de aditivos, o Parmigiano Reggiano também ganhou espaço como “superalimento”. Ainda assim, especialistas alertam: se os preços continuarem subindo, consumidores podem migrar para opções mais baratas, como o Grana Padano.

Hoje, produtores conseguem antecipar entre 60% e 80% do valor das peças ao usá-las como garantia financeira. Novas tecnologias, como blockchain, já permitem ampliar esse modelo, inclusive fora dos armazéns tradicionais.

Enquanto isso, nos corredores silenciosos dos depósitos, milhares de rodas seguem amadurecendo lentamente, símbolo de uma tradição centenária sustentada por paciência, técnica e um sistema financeiro tão incomum quanto engenhoso.

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