ANTES e DEPOIS: imagem da Nasa mostra geleira na Antártida que recuou 25 km em tempo recorde


A geleira Hektoria em fevereiro de 2024, durante expedição na região de Larsen B. O que restou dela agora são blocos de gelo espalhados pela baía.
Naomi Ochwat
A Nasa, a agência espacial norte-americana, divulgou nesta segunda-feira (04) um par de imagens de satélite que registra o avanço do mar sobre a área antes ocupada pela geleira Hektoria, que perdeu 25 quilômetros de extensão entre 2022 e 2023, num episódio considerado o recuo mais rápido já documentado na Antártida para formações do tipo.
Em um registro de outubro de 2022, a geleira ainda ocupa uma área contínua, conectada a uma faixa de gelo na frente.
Já em março de 2024, o cenário é outro: a borda recua, o gelo se fragmenta e o mar aberto passa a ocupar o espaço onde antes havia uma massa sólida (veja ABAIXO).
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Imagens de 2022 (esq.) e 2024 (dir.) mostram recuo rápido da geleira, que perdeu 16 km ao longo do ano e mais 8 km em dois meses.
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Esse recuo não aconteceu de forma gradual. Ao longo de 2022, a geleira já havia perdido cerca de 16 quilômetros de uma porção de gelo flutuante.
Depois, no fim daquele ano, veio a fase mais intensa: um recuo de aproximadamente 8 quilômetros em apenas dois meses.
O resultado aparece nas imagens mais recentes, com uma frente irregular e marcada por grandes icebergs recém-desprendidos.
O processo é natural, mas a velocidade observada neste caso foge do padrão.
“Geleiras não costumam recuar tão rápido”, afirmou o pesquisador Adrian Luckman, um dos autores do estudo.
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Os cientistas apontam que a explicação não está apenas no aquecimento, mas também na forma como a geleira está apoiada no solo.
Em áreas mais planas, o gelo pode perder contato com a base rochosa e ser levantado pela água do mar, o que reduz a estabilidade e acelera a quebra.
Esse mecanismo ajuda a entender por que a mudança ocorreu em etapas rápidas, com grandes porções de gelo se desprendendo em sequência.
“O que vemos na Hektoria é um exemplo pequeno, mas que mostra o que pode acontecer em outras áreas da Antártida”, disse a glaciologista Naomi Ochwat.
🧊 ENTENDA: parte da explicação está na base da geleira. Em algumas áreas, o gelo repousa sobre uma superfície mais plana de rocha — uma espécie de “piso instável”.
Quando o gelo afina, ele perde contato com o solo e começa a boiar parcialmente sobre a água do mar. Isso reduz o atrito que mantém a geleira no lugar e enfraquece sua estrutura.
A partir desse momento, o bloco de gelo passa a se mover com mais facilidade, fragmentando-se em grandes pedaços e liberando icebergs em série.
E foi justamente esse mecanismo, e não um aumento súbito de temperatura, que desencadeou o recuo acelerado da Hektoria.
O resultado foi um colapso súbito, como se toda a base da geleira tivesse cedido de uma vez.
Naomi Ochwat, pesquisadora do Instituto Cooperativo para Pesquisas em Ciências Ambientais (CIRES, na sigla em inglês), explica que, por causa disso, a Hektoria passou por uma sequência de eventos que culminaram no maior recuo já documentado em uma geleira continental.
Quando sobrevoamos a Hektoria em 2024, não consegui acreditar na vastidão da área que tinha colapsado”, disse Ochwat. “Ver aquilo de perto foi estarrecedor”.
Além do colapso visível por satélite, os cientistas registraram uma série de “terremotos glaciais”, pequenas ondas sísmicas geradas pelo desprendimento de blocos de gelo.
Esses tremores confirmaram que o gelo ainda estava preso ao leito rochoso durante o evento, o que significa que a perda contribuiu diretamente para o aumento do nível do mar.
Segundo Ted Scambos, coautor do estudo e pesquisador sênior do CIRES, o episódio muda a percepção sobre a vulnerabilidade da Antártida:
“O recuo da Hektoria é um choque. Esse tipo de colapso em velocidade relâmpago muda o que acreditávamos ser possível. Se as mesmas condições se repetirem em geleiras maiores, isso pode acelerar dramaticamente a elevação do nível do mar”, afirmou
Os dados indicam que a geleira perdeu cerca de 84 km² de gelo entre novembro de 2022 e março de 2023, com uma taxa de afinamento que chegou a 80 metros por ano — a mais alta já registrada no planeta para um corpo de gelo desse tipo
Estudos anteriores já haviam identificado regiões semelhantes de “planícies de gelo” sob outras geleiras antárticas, como Thwaites e Pine Island, duas das mais críticas para o equilíbrio global.
Por isso, os autores alertam que o mapeamento detalhado do relevo sob o gelo é essencial para prever novos eventos de desintegração súbita.
“A Hektoria é pequena, tem o tamanho aproximado da cidade da Filadélfia, mas um evento assim em geleiras maiores seria catastrófico”, alertou Ochwat.
Timelapse mostra geleira da Antártida recuando em ritmo recorde
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