Justiça torna réu três pessoas no caso de família que desapareceu há 100 dias no RS


Áudio com IA: vítimas desaparecidas no RS foram atraídas por áudio falso
A Justiça do Rio Grande do Sul ornou réu, no início da noite desta segunda-feira (04), três pessoas no caso da família Aguiar, desaparecida há 100 dias. O principal suspeito, o policial militar Cristiano Domingues, responderá por nove crimes.
🔎 Silvana de Aguiar, 48 anos, e os pais dela, Isail Vieira de Aguiar, 69, e Dalmira Germann de Aguiar, 70, não são vistos desde 24 e 25 de janeiro.
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Viraram réus Cristiano Domingues Francisco, o principal suspeito, além da sua atual esposa e seu irmão. Veja abaixo detalhes sobre as denúncias.
As defesas de Cristiano e de Milena Ruppental Domingues, atual esposa dele, afirmam que ainda não teve acesso à integra do material e irão se manifestar no momento oportuno.
Já a defesa de Wagner Domingues Francisco, irmão de Cristiano, afirma que “as acusações até então divulgadas, tanto pela Polícia Civil quanto pelo Ministério Público, consistem em versões unilaterais, não submetidas ao contraditório e à ampla defesa, o que impõe cautela na formação de qualquer juízo conclusivo” e que irá se manifestar durante o processo.
As denúncias
Cristiano e Milena Ruppental Domingues, a atual esposa dele, foram denunciados pelo feminicídio de Silvana de Aguiar, por motivo torpe e por meio de emboscada. O Ministério Público aponta que Milena não teria participado diretamente no ato da morte, mas teria participação intelectual e organizacional do crime. Os dois também serão denunciados pelo homicídio de Isail e pelo feminicídio de Dalmira.
Cristiano e Milena também foram denunciados pelo furto qualificado de bens da casa de Silvana após o desaparecimento dela.
Ao todo, Cristiano responde por dois feminicídios (Silvana e Dalmira), um homicídio qualificado (Isail), ocultação de cadáveres, fraude processual, associação criminosa, falsidade ideológica, furto e abandono de incapaz. O Ministério Público também requereu a perda do cargo público e a incapacidade para o exercício do poder familiar.
O Ministério Público afirma que Milena teria participação importante nos desaparecimentos. Ela também será denunciada por falso testemunho, perante autoridade policial.
Cristiano, Milena e Wagner Domingues Francisco, o irmão de Cristiano, serão denunciados pela ocultação de cadáver das três vítimas e por fraude processual, por alterarem provas e dificultarem a investigação.
Outro fato é a associação criminosa dos três denunciados. Cristiano também deve responder, caso a Justiça aceite a denúncia, por falsidade ideológica, pois utilizou a identidade de outra pessoa para ativar chips de celular.
De acordo com o MP, o filho de Cristiano e Silvana tem recebido acompanhamento do órgão junto à família de Silvana, Dalmira e Isail. Atualmente, a criança está com a avó paterna, mãe de Cristiano, indiciada pela polícia.
O MP recorreu após a negativa da Justiça de prender Milena e Wagner. O pedido está em tramitação no Tribunal de Justiça.
Os outros três indiciados — a mãe de Cristiano, a sogra dele e um amigo dele — não foram denunciados. Eles não teriam participado dos fatos principais, portanto podem ser oferecidos acordos de não persecução penal pelo Ministério Público. Se forem julgados, isso será feito em um processo diferente dos três denunciados.
No total, Cristiano havia sido indiciado pela Polícia Civil por nove crimes:
Feminicídio – Pena: Reclusão, de 20 a 40 anos;
Duplo Homicídio Triplamente Qualificado – Pena: Reclusão, de 12 a 30 anos;
Ocultação de Cadáver – Pena: Reclusão, de 1 a 3 anos, e multa;
Abandono de Incapaz – Pena: Reclusão, de 2 a 5 anos;
Falsidade Ideológica – Pena: Reclusão, de 1 a 5 anos;
Furto Qualificado – Pena: Reclusão, de 2 a 8 anos, e multa;
Fraude Processual – Pena: Detenção, de 6 meses a 4 anos, e multa;
Falso Testemunho – Pena: Reclusão, de 2 a 4 anos, e multa;
Associação Criminosa – Pena: Reclusão, de 1 a 3 anos.
Cristiano Domingues Francisco, suspeito no desaparecimento da família Aguiar
Renan Mattos / Agencia RBS
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O que disseram as defesas à época dos indiciamentos
➡️ Milena Ruppenthal Domingues (mulher de Cristiano), Paulo da Silva (amigo de Cristiano), Maria Rosane Domingues Francisco (mãe de Cristiano) e Ivone Ruppenthal (sogra de Cristiano):
“A defesa de Milena, Paulo, Maria Rosane e Ivone informa que, ao longo do regular trâmite processual, será devidamente demonstrada — com a garantia do contraditório e da ampla defesa — a inocência dos envolvidos, bem como a fragilidade dos indícios apresentados no inquérito policial.
Ressalta-se, ainda, que serão levadas ao conhecimento do Poder Judiciário as irregularidades ocorridas durante a investigação, somadas a eventuais abusos praticados, os quais serão oportunamente apurados pelos meios legais cabíveis.
A defesa reitera sua confiança na Justiça e no devido processo legal, certos de que os fatos serão esclarecidos de forma técnica e fundamentada.
Declaram-se absolutamente inocentes das acusações.”
Relembre o caso
Silvana Germann de Aguiar, Dalmira Germann de Aguiar e Isail Vieira de Aguiar
Imagens cedidas/Polícia Civil
O g1 montou a linha do tempo que detalha os principais acontecimentos da investigação. Confira:
Antes do sumiço
2 de janeiro: Silvana Germann de Aguiar solicita, em um grupo de mensagens, o contato do Conselho Tutelar;
9 de janeiro: Silvana comparece ao Conselho Tutelar para registrar que seu ex-marido, o policial militar Cristiano Domingues Francisco, desrespeitava as restrições alimentares do filho do ex-casal.
O fim de semana dos desaparecimentos
24 de janeiro (sábado): Silvana é vista pela última vez. Uma publicação em seu perfil nas redes sociais dizia que ela havia sofrido um acidente em Gramado, mas que estava bem. Segundo a polícia, o acidente nunca aconteceu e o objetivo da postagem seria despistar o desaparecimento.
Imagens de uma câmera de segurança registraram uma movimentação atípica de veículos na noite de 24 de janeiro:
– 20h34: Um carro vermelho entra na residência de Silvana, e sai oito minutos depois;
– 21h28: O veículo branco de Silvana entra na garagem da casa;
– 23h30: Outro automóvel chega ao local, permanece por 12 minutos e vai embora.
25 de janeiro (domingo):
– Alertados por vizinhos sobre a postagem, os pais de Silvana, Isail e Dalmira Aguiar, saem para procurar a filha. O casal de idosos tenta registrar o desaparecimento na delegacia distrital, mas a unidade estava fechada;
– Segundo a Polícia Civil, após saírem da delegacia, os idosos seguiram para a residência do ex-genro, Cristiano. Em depoimento prestado inicialmente como testemunha, o policial afirmou que o casal teria pedido ajuda para procurar Silvana, já que ele é policial militar. Ele teria dito que estava preparando o almoço e que auxiliaria mais tarde;
– Ainda conforme a investigação, após a visita, os idosos teriam retornado para casa e, horas depois, teriam sido vistos por vizinhos entrando em um carro não identificado, de cor desconhecida. Desde então, não foram mais vistos.
Início das investigações
27 e 28 de janeiro: As ocorrências de desaparecimento são registradas formalmente. O ex-marido, Cristiano Domingues Francisco, comunica o sumiço de Silvana, e uma sobrinha, informa à polícia que os idosos também não foram mais vistos;
28 de janeiro: Cristiano comparece ao Conselho Tutelar para pedir que o filho fique sob sua guarda durante as investigações;
1º de fevereiro: Cristiano envia uma foto de dentro da casa dos sogros para uma conhecida, mostrando o veículo do casal;
3 de fevereiro: A polícia ouve seis pessoas, incluindo o ex-marido e sua atual companheira. Um projétil de arma de fogo é encontrado no pátio da casa dos idosos;
4 de fevereiro: A Polícia Civil confirma que trata o caso como crime, descartando sequestro por falta de pedido de resgate.
Perícias e prisão
5 de fevereiro: A perícia coleta material na casa de Silvana, encontrando vestígios de sangue no banheiro e na área externa.
7 de fevereiro: O celular de Silvana é localizado após denúncia anônima, escondido sob uma pedra em um terreno baldio próximo à casa dos pais;
9 de fevereiro: Reunião de autoridades confirma que o cartucho encontrado na casa dos idosos é de festim (munição não letal);
10 de fevereiro:
– Cristiano Domingues Francisco é preso temporariamente após quebra de sigilo telefônico indicar movimentação suspeita. A reportagem tem acesso a áudios nos quais ele estaria tentando interferir na investigação.
– Familiares e amigos realizam um protesto e caminhada em Cachoeirinha pedindo solução para o caso;
– O filho de Silvana é encaminhado para a casa dos avós paternos.
Em áudio, PM suspeito de matar família no RS pergunta sobre investigação
13 de fevereiro: É divulgado que o suspeito e sua atual companheira se recusaram a fornecer as senhas de seus aparelhos.
20 de fevereiro:
– O policial militar prestou depoimento à polícia. De acordo com a defesa, Cristiano ficou em silêncio;
– Polícia confirma que o mesmo carro entrou duas vezes na residência de Silvana no dia em que ela desapareceu. Contudo, não foi possível identificar a placa. Assim, não se sabe quem é o proprietário.
24 de fevereiro: A perícia do celular Silvana mostrou que o aparelho nunca esteve em Gramado, diferente do que indicava a publicação feita em 24 de janeiro em suas redes sociais.
24 e 25 de fevereiro: O desaparecimento da família Aguiar completa um mês.
Buscas com cães
25 de fevereiro: Silvana é considerada a 20ª vítima de feminicídio no RS em 2026.
26 e 27 de fevereiro: Polícia Civil realiza buscas pelos corpos em áreas de matas e rios próximos a Cachoerinha.
9 de março: Prisão de PM suspeito do desaparecimento é prorrogada por 30 dias.
13 de março: Bombeiros realizam mais trabalhos de busca em áreas rurais da Região Metropolitana de Porto Alegre. Os agentes usam cães farejadores.
24 e 25 de março: O desaparecimento da família Aguiar completa dois meses.
9 de abril: Justiça decreta a prisão preventiva do policial militar Cristiano Domingues Francisco.
Infográfico mostra sequência de fatos sobre o desaparecimento de três membros da família Aguiar no RS
Arte/g1
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