Separados por 2,5 km, moradores da Muzema e Rio das Pedras sofrem com regras impostas por milicianos e traficantes; veja imagens


RJ2 lança série sobre avanço da criminalidade na Zona Sudoeste do Rio
O crime organizado avança nos territórios do estado do Rio de Janeiro, e comunidades e bairros inteiros vivem acuados por traficantes e milicianos que decidem qual lei vale em cada região. A partir desta semana, o RJ2 exibe uma série especial de reportagens sobre como esse domínio afeta a vida das pessoas, a economia e o futuro da cidade.
No primeiro episódio, imagens inéditas mostram como traficantes e milicianos atuam entre duas comunidades separadas por apenas 2,5 quilômetros: Rio das Pedras e Muzema, na Zona Oeste.
“Quem é de Rio das Pedras não pode ir em Muzema, quem é de Muzema não pode ir em Rio das Pedras”, relata um morador.
As duas áreas próximas estão divididas pelo crime. De um lado, milicianos; do outro, traficantes. Em Jacarepaguá, criminosos armados ditam regras e decidem quem vive e quem morre. O RJ2 flagrou criminosos dos dois lados dessa guerra, entre eles homens fazendo selfies com armas e ostentando fuzis perto de crianças. A reportagem flagrou tanto traficantes quanto milicianos.
Moradores relatam episódios de extrema violência. Um deles conta o caso de um trabalhador confundido com informante:
“Chegou a ir lá no Figueira [Condimínio Parque das Figueiras] buscar umas roupas pra ir pro trabalho, que a pessoa era garçom de quiosque na Barra, e quando chegou lá foi recebido à bala. Disseram que era olheiro de milícia. E não era. O menino era trabalhador.”
Segundo o relato, o homem foi torturado: “Levaram lá pra área que eles julgam a pessoa. Ficaram lá umas quatro horas com o menino. Queimaram sacola plástica nele. Botaram cigarro nele. Fizeram ele engolir uma bala… munição.”
Imagens mostram milicianos armados com fuzis, alguns tirando selfies com armas. Eles usam preto, calças e fuzis. Em outro momento, criminosos aparecem em um ponto de vigilância enquanto uma viatura da PM patrulha a região.
Em uma das cenas, um homem armado atua como uma espécie de autoridade local: após ouvir uma mulher, ele a acompanha até outra rua e repreende uma terceira pessoa.
Milicianos de Rio das PEdras à esquerda e traficandes da Muzema à direita
Reprodução/RJ2
Controle do cotidiano e restrição de circulação
Em um condomínio perto da Muzema, o controle territorial é visível. Para circular, motoristas precisam seguir regras impostas por criminosos, como manter o pisca-alerta ligado, o vidro aberto e a luz interna acesa.
“O carro pra entrar dentro do Figueira hoje… eles te param. Não aceitam tu. Querem saber pra onde tá indo”, conta um morador. “As placas de carro são todas identificadas na portaria.”
Abordagens são frequentes: “Do nada, eles param a pessoa, pegam o telefone, averiguam agenda toda. Se tu disser que é Rio das Pedras, tu tá morto.”
Além disso, há cobrança de taxas para tudo: “Pra morar lá, tem que pagar todo mês o boleto que tu mora lá.”
“Se você vai botar uma música lá, tu tem que pagar. O morador paga, o comerciante paga… todos pagam”, acrescenta.
Segundo as investigações, quem dita as regras na Muzema é um traficante conhecido como “Zeus”, identificado pela polícia como Luiz Carlos Bandeira Rodrigues.
Ele migrou para o Rio e assumiu um posto de chefe do crime, subindo na hierarquia da facção ao cumprir pena por tráfico nos presídios federais de Campo Grande (MS) e Porto Velho (RO). Lpa, conheceu Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar.
Disputa de facções e expansão territorial
Muzema e Rio das Pedras estão separados por menos de 2,5km
Reprodução/RJ2
Nos últimos anos, o Comando Vermelho avançou por diversas regiões de Jacarepaguá até chegar à Muzema. Já em Rio das Pedras, o domínio é da milícia, em parceria com traficantes do Terceiro Comando Puro.
Moradores denunciam a atuação livre dos criminosos: “A solução pra esses problemas, acredito que só Deus. Porque o estado é omisso. Eles desfilam abertamente armados na frente das viaturas.”
“É fuzil, é pistola, é cinturão de granada. E isso acontece constantemente.”
Em Rio das Pedras, o comando é atribuído a Taillon de Alcântara Barbosa, preso desde 2023. Segundo relatos, a milícia atua com violência e extorsão: “São bandidos. Porque eles matam por qualquer motivo. Expulsam por qualquer motivo. Tomam o patrimônio da pessoa.”
“Se paga uma taxa, direito de ir e vir. O comércio é obrigado a ter valores superiores pra pagar a milícia. É coisa assustadora.”
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