Como os marinheiros da República Romana mantinham seus barcos em condições de navegar longe de casa? Cientistas acabam de responder a essa pergunta analisando os revestimentos do Ilovik–Paržine 1, um barco romano afundado há 2.200 anos na costa da Croácia. As camadas de piche e cera de abelha que protegiam o casco preservaram pólen, revelando os locais exatos onde a embarcação foi construída e reparada.
Como os cientistas analisaram o revestimento do barco romano?
A equipe liderada pela pesquisadora Armelle Charrié, do Laboratório de Espectrometria de Massas da Universidade de Estrasburgo, combinou duas técnicas inovadoras. A primeira foi a análise molecular para identificar os ingredientes dos revestimentos. A segunda envolveu o estudo de grãos de pólen aprisionados nas camadas.
As dez amostras extraídas do casco revelaram uma história muito mais rica do que se imaginava. O método interdisciplinar mostrou que a composição química e o pólen variavam conforme a região onde cada camada foi aplicada.

Quais materiais os romanos usavam para impermeabilizar navios?
A base do revestimento era resina de coníferas aquecida, transformada em piche. Todas as amostras continham marcadores químicos típicos do pinheiro. No entanto, uma das camadas surpreendeu os pesquisadores por conter um ingrediente extra.
Essa camada especial misturava o piche com cera de abelhas, formando uma pasta mais flexível e fácil de aplicar quando aquecida. Os gregos chamavam essa combinação de zopissa, termo que aparece nos escritos de Plínio, o Velho, no século I.
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O que o pólen revelou sobre as rotas do barco romano?
O piche funcionou como uma armadilha natural para o pólen que flutuava no ar durante a aplicação. Os pesquisadores identificaram vegetação típica do Mediterrâneo e da costa do Adriático, como oliveiras, azinheiras, amieiros e pinheiros.
Análises anteriores das pedras de lastro já haviam indicado que a construção ocorreu na antiga Brundisium, atual Brindisi, na Itália. A coincidência de pólen em algumas camadas confirmou que parte da manutenção foi feita nessa mesma região.

Por que a zopissa era uma mistura tão especial?
A adição de cera de abelhas ao piche não era apenas um capricho dos construtores. A cera conferia elasticidade ao revestimento, evitando que ele rachasse com o movimento do casco. Além disso, facilitava a aplicação a quente durante os reparos de emergência.
O estudo publicado na revista Frontiers in Materials destaca que o uso da zopissa demonstra um conhecimento técnico sofisticado. Os marinheiros romanos sabiam exatamente qual material usar em cada situação e região.
Como as camadas de revestimento contam a história dos reparos?
As análises estatísticas identificaram entre quatro e cinco lotes diferentes de material. A popa e a seção central do barco compartilhavam o mesmo tipo de revestimento, sugerindo uma aplicação inicial uniforme. Já a proa apresentava várias camadas distintas.
Essa diferença indica que o barco recebeu reparos sucessivos durante suas viagens pelo Adriático. Cada parada para manutenção deixou uma assinatura química e biológica única, como um diário de bordo escrito em resina e pólen.

O que essa descoberta muda para a arqueologia naval?
Até agora, os revestimentos orgânicos eram considerados secundários em relação às estruturas de madeira. O estudo do Ilovik–Paržine 1 prova que eles guardam informações preciosas sobre as rotas de navegação e as práticas de manutenção do mundo antigo.
A combinação de métodos químicos e biológicos abre um novo campo de investigação para dezenas de naufrágios já catalogados. Cada camada de piche pode conter o mapa de uma viagem que aconteceu há milhares de anos.
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