
Lula aposta em encontro com Trump para se blindar de interferência eleitoral dos EUA
Em comum, ambos veem a popularidade despencar e correm riscos a menos de seis meses das eleições: na véspera do primeiro encontro em Washington, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump enfrentam o desgaste de derrotas domésticas e tentarão evitar um fracasso diplomático numa relação já marcada pela instabilidade.
Chegou a hora de testar se a tal química descrita por Trump num breve encontro durante a Assembleia Geral da ONU, em setembro passado, surtirá efeitos produtivos em momento tão delicado para os dois presidentes.
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No campo geopolítico, eles divergem mais do que concordam e se encontram em polos opostos. Há temas espinhosos no horizonte de negociações e propensos a novos atritos diplomáticos.
Lula reforça sua imagem na cena internacional, deixando claro o desagrado com a agenda promovida pelo homólogo americano, cada dia mais distante de aliados históricos.
O presidente brasileiro condenou a intervenção dos EUA na Venezuela, que depôs o então ditador Nicolás Maduro; a guerra contra o Irã, qualificando-a de ilegal; as ameaças de ingerência em Cuba e operações de Israel em Gaza e no Líbano. Descartou também a participação do Brasil no Conselho de Paz promovido pelo governo americano.
A visita acontece em um momento em que já se falava, nos bastidores, de um eventual afastamento entre Lula e Trump após o que ambos classificaram como uma “boa química”
Reuters
Na Espanha, Lula subiu o tom crítico e elogiou o premiê Pedro Sánchez, notório desafeto de Trump, por ter fechado o espaço aéreo a aviões dos EUA para participar de operações de guerra contra o Irã.
“Trump não tem o direito de acordar de manhã e ameaçar um país”, declarou ao jornal “El País”, prometendo, mais tarde, levar jabuticabas e maracujá para acalmar o republicano.
Desafios e repreensões públicas costumam irritar o presidente americano, que não se importa em filtrar o revide. Ele parece apreciar cenas de humilhação alheia, como as que submeteu os presidentes da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e da África do Sul, Cyril Ramaphosa, em visitas à Casa Branca.
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Cair em uma armadilha de Trump significaria um novo revés para Lula, que semana passada se enfraqueceu com a rejeição de Jorge Messias a uma vaga no Supremo Tribunal Federal e a derrubada de seu veto à Lei de Dosimetria.
Por outro lado, ele estará diante de um anfitrião impaciente com os resultados da campanha militar no Irã e em seu momento mais impopular, rejeitado por 64% dos americanos, com risco de perder em novembro o controle do Congresso.
Os dois presidentes nutrem o costume de abandonar o roteiro diplomático para dar vez ao improviso e obter ganhos políticos. É justamente esta outra característica em comum que torna imprevisível o encontro desta quinta-feira (6).
