
O mundo era outro quando Lula e Donald Trump se encontraram na 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático, na Malásia, em outubro do ano passado.
Nicolás Maduro ainda comandava a Venezuela, o Irã era uma república islâmica chefiada pelo aiatolá Ali Khamenei desde 1989 e o estreito de Ormuz era conhecido apenas como uma via marítima de escoamento de petróleo.
A remoção forçada de ambos os líderes (um, sequestrado, outro, assassinado) bagunçou o tabuleiro global, a popularidade do chefe da Casa Branca e azedou a química entre ele e o presidente brasileiro – uma das vozes mais assertivas contra as empreitadas bélicas do republicano.
Trump deve saber o que Lula andou falando dele toda vez que concedeu uma entrevista, foi às redes ou subiu num palco para inaugurar alguma obra ou programa de governo. Não dá para dizer que falou pelas costas.
O presidente brasileiro classificou como “mentirosa” a justificativa, usada por Trump, de que a guerra ao Irã era necessária para frear a escalada nuclear do país persa e chamou a ofensiva de “loucura” que ameaça à paz mundial.
Ele também atribuiu a responsabilidade pela alta dos combustíveis ao cenário internacional, culpando Trump pela situação, que ele chamou de “maluquice”.
Ninguém imagina que Trump vai mandar parar qualquer guerra, militar ou retórica, porque o visitante ficou chateado. Por isso a guerra não deve estar no menu da conversa entre os dois nesta quinta-feira (7), em Washington.
Em vez disso, segundo a colunista do UOL Daniela Lima, Lula vai aos Estados Unidos com outras pautas. Uma delas é a tentativa de zerar a lista de sanções comerciais a produtos brasileiros. Outra é apresentar seus planos para as transações envolvendo terras raras.
Lula quer falar também sobre regulamentação de plataformas digitais e pedir parceria com os anfitriões para a vigilância sobre o tráfico de armas para o Brasil e o combate à sonegação fiscal de quem cometeu crime por aqui e se mandou para Miami. “So” isso.
Resta saber qual será a pauta do republicano, que em seu terceiro mandato, jogando em “casa”, já aplicou duas pegadinhas contra desafetos que ousaram peitar seus interesses: os presidentes da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e da África do Sul, Cyril Ramaphosa. Zelensky foi acusado, diante das câmeras, de “brincar de terceira guerra mundial” em meio ao conflito com a Rússia. E Ramaphosa foi responsabilizado por promover um “genocídio branco” que nunca existiu.
Lula está escaldado para qualquer versão de Trump.
Sabe que uma coisa era o ambiente geopolítico quando o Itamaraty entrou em campo para desarmar a bomba do tarifaço, fabricada em parceria com a família Bolsonaro, e prometeu acesso estratégico ao comércio brasileiro, um dos poucos com quem os EUA mantêm superávit desde que o mundo é mundo.
Outro é o ambiente de agora, em que Lula não pode correr o risco de se curvar ou sair como sócio de quem patrocina o caos pelo mundo. Será um encontro com apertos de mãos frias e suadas até o fim.
