
Imagem de trânsito em Paris
Benoit Tessier/Reuters
No ano passado, berlinenses perderam 60 horas de suas vidas presos em congestionamentos – algo que Oliver Collmann espera mudar. O engenheiro passou anos trabalhando com software para carros autônomos até perceber que preferia usar suas habilidades para coisas “que fossem mais do interesse geral da humanidade”.
Após largar gradualmente seu emprego, ele decidiu se juntar a um grupo que faz campanha por um referendo ambicioso: reduzir a quantidade de automóveis que circulam no centro da capital alemã. “Berlim é uma das poucas capitais europeias que ainda são bastante centradas no carro em sua política de transporte”, disse Collmann, que é copresidente do movimento Berlim Sem Carros, que busca promover um referendo para reduzir a circulação de veículos na cidade.
“Os carros ocupam cerca de 75% a 80% do espaço disponível dentro da cidade.” Berlim é cercada por uma linha ferroviária circular de 37 quilômetros, e os ativistas querem que todas as ruas dentro desse anel sejam reclassificadas como “de tráfego reduzido”.
VEJA TAMBÉM:
Vídeos em alta no g1
O modelo significaria que veículos motorizados só seriam permitidos dentro dessa zona em casos específicos – como para o transporte de pessoas com mobilidade reduzida, por serviços de emergência ou para grandes entregas comerciais. Cada morador de Berlim teria permissão para dirigir seu carro particular no centro da cidade até 12 vezes por ano.
Collmann afirma que a proposta de lei não é contra os carros, mas “contra o uso excessivo dos carros e a presença de veículos de grande porte no espaço urbano”.
Ele e outros ativistas acreditam que as mudanças resultariam em um ar mais limpo e menos ruído, além de criar mais espaço para árvores, que ajudariam a reduzir o calor e contribuiriam para uma melhor saúde pública. As árvores reduzem as temperaturas da superfície e do ar ao fornecer sombra e resfriamento, absorvendo água por meio de suas raízes e liberando-a pelas folhas na forma de vapor.
Mas, para Oliver Lah, professor adjunto de planejamento espacial no Instituto de Tecnologia de Blekinge, na Suécia, a proibição não é a resposta. “Fornecer algo que as pessoas realmente queiram é o que de fato ajuda”, disse, acrescentando que gostaria de ver os berlinenses “encontrarem um consenso sobre o que é realmente sensato e útil para os negócios na cidade e para quem vive no centro”.
Em Oslo, a prioridade é dos pedestres
Em 2017, a capital norueguesa implementou seu programa de redução do tráfego, dando prioridade aos pedestres no centro da cidade, ao mesmo tempo em que desencorajava o uso de carros particulares.
Um sistema automatizado de pedágio urbano monitora os veículos que entram na cidade, que precisam pagar para circular na região. O valor do pedágio para um carro elétrico é mais barato do que o aplicado a modelos movidos por combustíveis fósseis.
Em 2020, uma avaliação realizada pelas autoridades municipais mostrou que o tráfego havia diminuído 28% dentro da área do programa.
Além de reduzir o tráfego, o programa também teve como objetivo criar mais espaço para a natureza e para as pessoas. Em 2022, por exemplo, partes do centro de Oslo foram transformadas em “ruas habitáveis” ao serem temporariamente fechadas para carros particulares.
Por que o combustível que eu queimo todo dia no meu carro contribui para mais ondas de calor?
Durante esse período, as ruas foram redesenhadas com bancos, áreas de estar, canteiros e outros elementos naturais, como troncos de madeira. As áreas foram preenchidas com vegetação, incluindo flores, arbustos, ervas e plantas de prado, para criar um espaço mais relaxante e convidativo para pessoas de todas as idades.
O centro de Oslo está mais movimentado do que há uma década, com um aumento de 38% na circulação de pedestres aos sábados e melhores condições para ciclistas. O número de pedestres e ciclistas na capital norueguesa aumentou de 36% em 2014 para 46% em 2023, segundo estatísticas da cidade.
Isso não significa, porém, que as ruas sejam completamente livres de carros. De todos os novos automóveis registrados em Oslo até agora neste ano, 98,1% são de emissão zero.
Paris populariza as cidades de 15 minutos
A capital francesa ganhou destaque como uma “cidade de 15 minutos”. Na prática, isso significa que as áreas urbanas são projetadas de forma que a maioria das necessidades e serviços diários possa ser alcançada em até 15 minutos a pé ou de bicicleta.
O conceito foi idealizado pelo pesquisador urbano franco-colombiano Carlos Moreno, mas chamou a atenção de Anne Hidalgo, ex-prefeita de Paris.
“Você já parou para se perguntar: por que uma rua barulhenta e poluída precisa ser barulhenta e poluída? Só porque é? Por que não pode ser uma rua tranquila, arborizada, onde as pessoas possam realmente se encontrar, caminhar até a padaria e as crianças possam ir a pé para a escola?”, perguntou Moreno em uma palestra TED em 2020.
Como parte do conceito de cidade de 15 minutos, Paris reduziu os carros no centro da cidade sem impor proibições. Em vez disso, no fim de 2024, a capital francesa introduziu zonas de tráfego limitado em grandes áreas do centro.
A regra permite a circulação motorizada que começa ou termina dentro das zonas, mas os motoristas não podem usar essas áreas apenas para atravessar para outro destino. Essa medida reduziu o tráfego em cerca de 6% dentro da zona restrita e em torno de 8% na área central ao redor durante os dois últimos meses de 2024.
A cidade não introduziu multas para quem descumprisse a regra, dando tempo suficiente para que os motoristas se adaptassem à transição. Agora, Moreno está ajudando outros países, como a Holanda, a implementar o mesmo conceito em diferentes cidades.
Um estudo de 2026 mostra que modelos de cidades pensadas para pedestres, como Paris, apresentam menores emissões de transporte per capita.
Mas de volta a Berlim: os ativistas têm até 8 de maio para coletar 240 mil assinaturas para a iniciativa por um centro sem carros. Se o número for atingido, os moradores da capital alemã poderão votar ainda este ano em um referendo que moldará o coração da cidade.
