Ironia trágica na BR-116: ditadura mata JK na sua própria herança

Juscelino Kubitschek.Reprodução/Wikimedia Commons

Um relatório da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), vinculada ao Governo Federal, concluiu que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi assassinado. Sendo assim, ele não teria morrido em um acidente de carro.

De acordo com o documento, JK foi vítima de um atentado político na Rodovia Presidente Dutra (BR-116). Na época, em 1976, o ex-presidente era um dos líderes do grupo de oposição à ditadura.

A Via Dutra, inclusive, foi um dos grandes marcos do governo JK. O ex-presidente foi responsável pela modernização e melhorias na rodovia, incluindo a pavimentação da principal ligação entre Rio de Janeiro e São Paulo.

O político morreu, após o carro em que ele estava bater de frente com uma carreta. O veículo teria invadido a pista no sentido oposto depois de ser atingido na lateral traseira por um ônibus.

Correção na certidão de óbito

O relatório da CEMDP foi elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, relatora do caso da morte de JK. Agora ele segue para análise da Comissão Nacional da Verdade.

O documento ainda será votado, mas segundo a apuração da Folha de São Paulo, ele deve ser aprovado pelos conselheiros da comissão.

Caso aprovado, a causa da morte na certidão de óbito de JK pode ser corrigida.

A relatora usou como referência outros trabalhos que investigaram a morte do ex-presidente, incluindo um inquérito civil conduzido pelo Ministério Público Federal (MPF).

O relatório aponta que não houve colisão com o ônibus e que o motorista teria perdido o controle do carro por outra ação externa, como envenenamento ou sabotagem.

Entenda: os fatos que reabrem suspeita sobre acidente que matou JK

Relação com a Via Dutra (BR-116)

Uma das principais rodovias do país, a Via Dutra conecta a capital paulista à capital carioca. Inaugurada em janeiro de 1951, durante a gestão do então presidente Eurico Gaspar Dutra, ela substituiu a antiga estrada Rio-São Paulo.

Apesar de ter sido criada em outro mandato, foi durante a gestão de JK que a rodovia passou a ser mais valorizada.

Com o Plano de Metas e grande ênfase no transporte rodoviário, JK foi responsável por grandes investimentos na rodovia.

O ex-presidente focou na modernização e melhorias na Via Dutra para suportar o aumento do tráfego industrial.

Foi durante a gestão JK que a rodovia foi pavimentada. A readequação foi feita para suportar o fluxo de caminhões e veículos que usavam o trecho.

A Dutra foi fundamental para a política de desenvolvimento do ex-presidente. Ele visava integrar o Rio de Janeiro e São Paulo ao novo eixo industrial, além da nova capital, Brasília.

Via Dutra Reprodução/Pinterest

A ironia

Foi justamente em um dos grandes marcos do seu governo que Juscelino Kubitschek morreu.

O acidente de JK foi na altura do quilômetro 165 da Dutra, no município de Resende, no interior do Rio de Janeiro, especificamente no trecho de Engenheiro Passos.

O local ficou popularmente conhecido como a “Curva do JK”.

O ex-presidente viajava de São Paulo em direção ao Rio de Janeiro. Ele estava em um Chevrolet Opala preto, apelidado de “Platão”, que era conduzido pelo motorista particular e amigo Geraldo Ribeiro.

O motorista trabalhava com JK há cerca de 30 anos.

Opala de Juscelino KubitschekReprodução – memoria.ebc.com.br

O acidente

No dia 22 de agosto de 1976, o Opala em que a dupla estava saiu da pista, atravessou o canteiro central, invadiu a via oposta e trafegou por 50 metros na contramão, antes de bater de frente com uma carreta.

A investigação conduzida por autoridades da ditadura sustentou que o veículo havia tocado em um ônibus da Viação Cometa durante uma ultrapassagem, o que teria provocado o descontrole.

Desde então, o motivo da perda de controle do veículo alimenta diferentes perspectivas sobre o caso.

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