
Trabalhadores resgatados de situação análoga à escravidão querem voltar a alojamento no MA
Trabalhadores resgatados em situação análoga à escravidão na sede da igreja Shekinah House Church informaram que querem voltar ao alojamento onde viviam antes da operação realizada por Auditores-Fiscais do Trabalho, vinculados à Secretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego (SIT/MTE).
📲 Clique aqui e se inscreva no canal do g1 Maranhão no WhatsApp
O resgate aconteceu na quinta-feira (7), em Paço do Lumiar (MA). A igreja tinha como pastor David Gonçalves Silva, preso por suspeita de abusos sexuais e punições físicas contra fiéis.
Após serem resgatados, mais de 40 trabalhadores foram levados para um alojamento montado pela Secretaria de Direitos Humanos do Maranhão. Um grupo reclama das condições e afirma que pretendem voltar para suas casas.
“Nós fomos expulsos da nossa casa. Nos retiraram dali como cachorros e de primeira mão, nos colocaram no Castelinho, um lugar totalmente desprezado, as janelas quebradas, os quartos sem colchão. Eu tenho uma filha que inclusive não está indo para a escola, porque a escola era próxima à Sheikinah [a igreja] e nós estamos proibidos de voltar e minha filha não pode voltar a frequentar a escola”, disse uma das trabalhadoras.
Trabalhadores resgatados de situação análoga à escravidão em igreja ligada à pastor preso querem voltar a alojamento no MA
Reprodução/Redes Sociais
Em entrevista à TV Mirante, um outro trabalhador resgatado, que não foi identificado, pediu que a situação fosse revista e cobrou pelos seus direitos.
“Me tiraram da minha casa. Eu tinha meu quarto, meu ar condicionado, meu guarda-roupa, eu tinha tudo lá. E me expulsaram da minha casa por falarem que não tínhamos condições de estar lá e eu quero meus direitos”, disse o homem.
Trabalhadores não se reconhecem em situação análoga à escravidão, diz secretário
De acordo com o secretário adjunto de Direitos Humanos do Maranhão, Eudes Bezerra, os trabalhadores foram orientados sobre os direitos e as alternativas de acolhimento oferecidas pelo Estado.
“Desde o início, informamos a essas pessoas que elas são livres para ir, ficar ou permanecer. Nós ofertamos, enquanto Estado, um acolhimento digno. Algumas optaram por voltar para a casa de familiares, outras disseram que iriam até a rua do local. Reforcei que a rua está fechada e que a entrada não é permitida, mas infelizmente não temos como obrigá-las”, afirmou.
Segundo o secretário, o Ministério Público do Trabalho (MPT) fará a triagem para garantir o acesso ao seguro-desemprego por três meses. Ele diz, ainda, que muitos não se reconhecem na condição de pessoas resgatadas em situação análoga à escravidão.
“Eles não se reconhecem nessa condição de pessoas resgatadas de trabalho análogo à escravidão e optaram por buscar outro caminho que nós ofertamos”, completou Eudes Bezerra.
Entenda o caso
A sede da igreja Shekinah House Church já havia sido alvo de uma operação do Ministério Público do Trabalho e da Polícia Federal em 27 de abril, por suspeitas de trabalho análogo à escravidão.
Na ocasião, segundo o Ministério Público, as buscas realizadas no local não identificaram elementos que configurassem esse tipo de crime.
Nos últimos dias, mais de 10 pessoas procuraram a polícia para denunciá‑lo. O pastor é investigado por estelionato, estupro de vulnerável, posse sexual mediante fraude e associação criminosa.
De acordo com a PF, a igreja estaria funcionando paralelamente como espaço de prestação de serviços terapêuticos, sem regularização legal, licenciamento administrativo ou comprovação de habilitação técnica dos responsáveis, além de indícios de irregularidades quanto às condições de permanência, segurança e atendimento das pessoas ali residentes.
Ainda segundo o MPT, foram recolhidos depoimentos e documentos que serão analisados e anexados ao processo. Entretanto, caso haja no curso da investigação alguma situação que se enquadre a trabalho análogo à escravidão, intervenções devem ser feitas posteriormente.
Na sexta‑feira (24), um novo vídeo incorporado ao inquérito policial mostra um adolescente em estado de exaustão após ser submetido a punições (veja acima). Segundo a polícia, ele passou horas em pé, sem dormir, e foi obrigado a escrever durante toda a noite a frase: “Eu preciso aprender a respeitar meu líder”.
O pastor foi preso no dia 17 de abril. Natural do Ceará, ele é suspeito de aplicar castigos físicos e punições psicológicas a jovens que descumpriam regras impostas por ele. Entre as vítimas, há pessoas do Pará e do Ceará.
Pastor do MA é preso; entre castigos aplicados, em um deles os fiéis eram obrigados a escrever que respeitariam ‘o meu líder’
Arte/g1
Vítimas relatam que procuraram a igreja em busca de apoio
Operação ‘Falso Profeta’
Divulgação/Polícia Civil do Maranhão
De acordo com a polícia, o sistema de punições ajudou o pastor a manter controle sobre cerca de 100 a 150 fiéis por anos.
Entre as vítimas estão pessoas em situação de extrema vulnerabilidade, que relatam ter procurado a igreja em busca de ajuda, como um jovem que chegou ao local aos 13 anos, quando vivia em situação de rua.
As agressões eram frequentes e tinham nomes específicos. Um dos castigos aplicados era chamado de “readas”, que consistia em chicotadas com um reio, um tipo de chicote geralmente usado em cavalos. Em um dos casos relatados à polícia, quatro vítimas sofreram entre 15 e 25 chicotadas cada.
O g1 teve acesso a um dos áudios atribuídos ao pastor que indicam também a privação de comida como forma de punição. Em uma das gravações, ele afirma: “Até resolver a situação da bomba, estão sem comer”.
Ainda de acordo com a denúncia, o pastor se referia aos fiéis como “piões”. O local onde eles dormiam era chamado de “baia”. A investigação aponta que as agressões físicas e psicológicas também eram usadas como forma de pressão para a prática de abusos sexuais.
Homens eram os principais alvos dos abusos sexuais, diz polícia
Os investigadores da Polícia Civil afirmam que, embora a comunidade fosse formada por homens e mulheres, os homens eram os principais alvos dos abusos sexuais.
“Ele dizia que, por fora, podia ser homem, mas que, em quatro paredes, tinha que ser mulher para poder nos ludibriar. Isso aconteceu por vários anos e hoje sou um cara que vive atormentado, com muitas lembranças. Tenho vergonha, mas tô lutando todos os dias para mudar esse centro na minha mente”, relatou uma das vítimas.
A polícia apreendeu folhas de papel com a frase “Eu preciso aprender a respeitar o meu líder” escrita mais de 100 vezes
Reprodução
De acordo com a polícia, os fiéis viviam sob controle constante dentro da igreja e não tinham contato com o público externo. O comportamento era rigidamente determinado pelo pastor, com separação entre homens e mulheres e monitoramento contínuo por câmeras, inclusive durante o banho.
“Já apanhei, já fiquei sem refeição, já fiquei trancada no quarto sem poder falar com ninguém. Ele também pedia para as pessoas lá do local me tratarem como louca”, afirmou uma das vítimas do líder religioso.
