Investigação aponta mudança no comando do Irã em meio à guerra com EUA e Israel


Mojtabá Khamenei
Reprodução/TV Globo
O conflito com os Estados Unidos e com Israel levou a uma mudança na estrutura de poder no Irã.
A liderança parecia inabalável. Se em 1979 uma revolução fez do Irã um regime teocrático em que o líder supremo dava a palavra final em assuntos religiosos, políticos e militares, em 2026 a guerra colocou em xeque essa estrutura de poder absoluto.
Donald Trump disse várias vezes nas últimas semanas que a liderança do Irã está fragmentada.
Uma investigação do jornal New York Times revelou que o assassinato do aiatolá Ali Khamenei no primeiro dia da guerra e a escolha do filho dele como sucessor inauguraram uma nova realidade.
Oficialmente, Mojtabá Khamenei está no topo do sistema. Mas, em vez de dar ordens, seu papel na prática é aprovar as decisões já tomadas por generais da Guarda Revolucionária.
As deliberações, antes centralizadas no líder supremo, agora se tornaram coletivas — ao menos por enquanto. Feitas por um grupo de militares linha-dura e com menos influência do clero.
Um dos motivos da nova estrutura de poder é a saúde fragilizada de Mojtabá Khamenei. Ele está escondido desde o início da guerra.
Fontes disseram ao jornal que se comunica por cartas, para não ser rastreado e morto pelas forças israelenses e americanas.
Tem queimaduras que atrapalham até a fala e ferimentos graves numa perna e em uma das mãos. Mas não é só isso.
Mojtabá tem vínculos antigos com os generais. Lutou ao lado deles na guerra contra o Iraque, aos 17 anos. Deve a eles a escolha de seu nome. E, por isso, tem sido fiel.
Por esse motivo, a mudança não seria vista como um golpe de Estado, mas como um novo modelo de comando com o aval do líder supremo.
Foram os generais que determinaram os principais movimentos do Irã nesta guerra, segundo a investigação.
Incluindo o fechamento do Estreito de Ormuz e ataques aos países do Golfo. Mas a principal decisão ainda está em aberto: o acordo que pode acabar com o conflito.
Kian Tajbakhsh é iraniano e mora nos Estados Unidos. Professor de relações internacionais na Universidade de Nova York, ele explica que é natural que, em tempos de guerra, militares acumulem poder.
“O antigo líder supremo, antes da guerra, bloqueava a ala mais radical de generais, mas provavelmente tomaria as mesmas decisões se ainda estivesse vivo.”
Já o analista político do Instituto Quincy, Adam Weinstein, afirma que é importante acompanhar os próximos passos.
Para ele, Mojtabá não tem a mesma autoridade religiosa que o pai.
“Isso vai levar a um enfraquecimento do regime teocrático com uma militarização do Estado e ainda vai ser um Estado opressor. Talvez até mais do que antes”, avalia.
Weinstein destaca que a Guarda Revolucionária é mais pragmática e pode se preocupar menos com regras religiosas. Mas podem oprimir com violência qualquer tipo de dissidência política.
Adam Weinstein aponta que os militares devem ceder menos às exigências americanas.
“Será um país mais linha-dura. Será um regime mais paranoico, o que, potencialmente, pode torná-lo mais imprevisível.”
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