Atenção: mantenha os detergente longe do alcance dos adultos

Homem bebe detergente Ypê em meio a polêmicasReprodução/redes sociais

Se você perguntasse para o Matheus de 10 anos de idade o que ele esperava do mundo em 2026 a resposta certamente passaria por invenções como carros (ou skates) voadores, paz mundial, fim da fome, da dependência dos combustíveis fósseis e triunfo da ciência sobre a ignorância humana.

Corta a cena e o Matheus de 44 acaba de clicar numa reportagem sobre os perigos de se beber detergente. Os contaminados e os não contaminados. 

Ok, jornalismo é serviço público, e em caso de surto sanitário de burrice é preciso entrar em campo e regressar algumas casas. E explicar que uma dieta à base de um composto de petróleo não faz bem para o corpo humano nem à causa — especificamente, a bronca contra a Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Por isso desde cedo somos instruídos a deixar produtos de limpeza longe do alcance das crianças. Agora é preciso deixar longe do alcance também de marmanjos que escutam Jovem Pan.

Nem todos desenvolveram musculatura cognitiva para entender que, se uma empresa privada não cumprir protocolos mínimos de segurança na operação de suas fábricas ela pode ser punida. E quem regula isso é o Estado, e não os os próprios donos, parceiros ou concorrentes.

Cabe ao Estado, que em tese não ganha nem perde nada com a queda nas vendas, determinar quem pode ou não disputar esse jogo. Não vale trapacear. E, até onde se sabe, deixar equipamentos com sinais de corrosão ou falhas no estado de conservação e não avisar o público é um tipo de trapaça.

O sonho da extrema-direita é levar ao paroxismo a lenda do ideário neoliberal segundo o qual, se tirar o Estado do jogo, os negócios deslancham. Não haveria, assim, mediação (nem lei nem norma) entre patrões e empregados, vigilância sobre padrões sanitários (que encarecem os custos de operação mas, ao que parece, salvam vidas) nem semáforos ou câmeras para impedir a sobreposição de vontades entre um pedestre que deseja atravessar a rua vivo e um motorista que quer acelerar.

Como rebanho ao ouvir o berrante de quem não quer normas nem leis nem tribunais, seguidores da seita agora usam os próprios corpos para provarem um ponto: o de que a retirada de um produto no mercado sob o argumento de que está contaminado de bactérias é, no fim, uma medida persecutória contra quem votou no adversário do atual presidente – como se os donos da Ypê fossem os únicos.

Faz tanto sentido quanto botar fé no que dizem deputados eleitos através da urna eletrônica sobre fraudes da urna eletrônica contra um só candidato. Não tem nexo. Mas eles não querem nexo. Querem mobilização permanente, e é para isso que servem campanhas criminosas de supostas autoridades para colocar em xeque uma decisão técnica sobre os produtos Ypê. Decisão, aliás, que envolveu autoridades federais, estaduais (sim, sob o comando de Tarcísio de Freitas) e municipais.

É complicado ter que explicar isso de novo. E de novo. E de novo.

Mas é também dever do ofício. Na dúvida, vale o lembrete: não bebam detergente. A dose que for. Nem da marca X, nem Y. Caso contrário, os cinco minutos de fama não será no noticiário de política, mas no obituário da editoria de seleção natural.

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