Vítimas de Epstein depõem sob juramento em audiência na Flórida

Vítima de Jeffrey Epstein depõe sob juramento em audiência do Congresso em Palm Beach, Flórida, e denuncia acordo judicial de 2008 e exposição de dados pessoais.Reprodução

Hoje (12 de maio) em West Palm Beach, Flórida, 2026, sobreviventes dos abusos de Jeffrey Epstein testemunharam publicamente sob juramento durante uma audiência do Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos. O encontro foi realizado na Prefeitura da cidade e classificado como uma “field hearing”(audiência local), por ocorrer no próprio condado de Palm Beach, onde o caso veio à tona no início dos anos 2000.

Foi nessa região que, em 2008, promotores firmaram um controverso acordo judicial que permitiu a Epstein se declarar culpado de acusações menores e cumprir cerca de 13 meses de prisão, em um regime com trabalho externo e amplas permissões de saída.

A sessão, com quase três horas de duração, foi conduzida por democratas do Comitê de Supervisão da Câmara e focou em dois pontos centrais: o controverso acordo judicial de 2008, que permitiu a Epstein cumprir pena extremamente reduzida, e as falhas estruturais que possibilitaram a continuidade dos abusos por anos.

Segundo relatórios recentes do próprio Congresso e investigações jornalísticas de 2026, esse acordo — negociado pelo então procurador federal Alex Acosta, foi amplamente descrito como um dos mais permissivos já firmados pelo sistema federal americano, permitindo que Epstein cumprisse menos de 13 meses de prisão, com direito a saídas diárias para trabalho.

Em relatórios atualizados de abril e maio de 2026, o Comitê de Supervisão apontou que o Departamento de Justiça reconheceu ter revisado mais de 6 milhões de páginas de documentos, das quais cerca de 3,5 milhões foram tornadas públicas sob a chamada “Epstein Files Transparency Act”. Ainda assim, investigações apontam que milhares de registros seguem parcialmente ocultos por fortes redactions, especialmente envolvendo nomes de associados influentes.

A deputada democrata Lois Frankel, cujo distrito inclui Palm Beach, destacou o peso histórico do local ao abrir a sessão:

“[Foi] aqui mesmo, no condado de Palm Beach, há mais de 20 anos, que os sobreviventes dos crimes horríveis de Jeffrey Epstein foram inicialmente privados de justiça, com resultados devastadores.”

Ela também mencionou como a leniência da justiça a favor de Epstein causos danos irreparáveis.  

“Se os promotores da Flórida tivessem feito seu trabalho, muito provavelmente centenas de jovens mulheres teriam sido poupadas de um dano inimaginável.”

Durante a audiência, vítimas também relataram os impactos duradouros da forma como o caso foi conduzido e da recente divulgação parcial dos arquivos Epstein.

Uma das sobreviventes, identificada como “Roza”, descreveu o trauma causado pela exposição de seu nome em documentos públicos:

“Um dia acordei e meu nome foi mencionado mais de 500 vezes. Enquanto os ricos e poderosos permanecem ocultos, meu nome foi exposto ao mundo. Agora jornalistas do mundo inteiro entram em contato comigo; eu não consigo viver sem olhar por cima do ombro. Só consigo imaginar o impacto de longo prazo que esse erro terá na minha vida.”

Roza também afirmou que foi abusada em 2009, quando Epstein já havia sido condenado:

“Ele estava em prisão domiciliar e ainda assim continuava me abusando”.

Outra vítima, Jena-Lisa Jones descreveu como maridos descobriram os abusos de suas esposas pela mídia, e como filhos souberam dos traumas de suas mães por estranhos. “Assumam a responsabilidade”, exigiu.

O advogado Spencer Kuvin, que representou uma das primeiras vítimas no caso em Palm Beach, criticou duramente o acordo judicial de 2008:

“A conduta foi organizada, repetida e devastadora, mas, em vez de uma acusação proporcional à escala do dano, o que se seguiu foi um acordo secreto, como sabemos, que minimizou os abusos e insultou as crianças que haviam sido abusadas.”

Epstein foi posteriormente preso novamente em 2019, em um novo processo federal envolvendo tráfico sexual de menores, e meses depois foi encontrado morto em sua cela, em circunstâncias que seguem sendo alvo de controvérsia.

O objetivo principal da audiência foi permitir que as vítimas fossem ouvidas em um ambiente oficial e público, mas também houve forte pressão por mudanças legislativas para evitar acordos semelhantes no futuro. Entre as propostas discutidas estão o fortalecimento da lei federal de direitos das vítimas e maior transparência na divulgação dos arquivos do caso.

As vítimas também pediram que a ex-procuradora-geral da Flórida, Pam Bondi, testemunhe publicamente sob juramento sobre a liberação dos documentos.

A sobrevivente Dani Bensky encerrou a sessão com um alerta que ressoou entre parlamentares:

“Se continuarmos nesse caminho, a pergunta não é se isso vai acontecer de novo, mas quem será o próximo Jeffrey Epstein.”

Adicionar aos favoritos o Link permanente.