No BM&C Talks, apresentado por Carlo Cauti, o professor Adriano Gianturco, do Ibmec de Belo Horizonte, analisou crenças recorrentes sobre o país a partir de seu livro Mentiram para nós sobre o Brasil. A conversa tratou de temas como liberdade econômica, papel do Estado, cultura, corrupção, violência, fragmentação partidária e protecionismo, sempre com foco na diferença entre percepção popular e evidências comparativas.
Segundo Gianturco, a motivação para o livro surgiu da repetição de frases amplamente difundidas no debate público brasileiro, muitas vezes sem amparo empírico. Para ele, parte dessas ideias se mantém porque o país ainda conhece pouco a própria realidade institucional, econômica e social.
“A ideia surgiu do fato que eu sempre ouvi muitas vezes as mesmas frases, todo mundo repetindo não só os mesmos conceitos, mas inclusive as mesmas palavras”, afirma Gianturco.
Liberdade econômica e presença do Estado
Um dos pontos centrais da entrevista foi a percepção de que o Brasil seria um país capitalista no sentido de livre mercado. Gianturco pondera que, embora exista diferença conceitual entre capitalismo e liberdade econômica, os rankings internacionais colocam o Brasil em posições baixas quando o tema é abertura, competição e menor interferência estatal.
O entrevistado também relaciona essa leitura ao número de empresas estatais e à presença do Estado na economia. Na avaliação dele, o debate público brasileiro muitas vezes discute privatização sem enfrentar uma questão anterior: se o país deveria manter uma estrutura estatal tão ampla em comparação com outras economias.
“Em todos esses rankings, o Brasil está sempre nas últimas posições. Varia um pouco de instituto para instituto, mas o recado é o mesmo. Na verdade, o Brasil é um dos países menos livres economicamente”, explica o professor.
Instituições, cultura e incentivos
Gianturco também contestou a ideia de que os principais problemas brasileiros sejam explicados pela cultura. Para ele, a literatura econômica e de ciência política aponta que instituições moldam incentivos, comportamentos e, no longo prazo, padrões culturais.
Ao citar exemplos como Alemanha e Coreia, o entrevistado argumenta que países com origem cultural semelhante podem apresentar trajetórias distintas quando submetidos a instituições diferentes. Essa leitura reforça a tese de que regras, incentivos e desenho institucional são elementos centrais para explicar desempenho econômico e social.
“As causas, na verdade, são mais institucionais”, resume Gianturco.
Planejamento e desenvolvimento econômico
Outro tema abordado foi o chamado mito do planejamento. Gianturco afirma que o Brasil tende a responder a problemas estruturais com planos nacionais e soluções centralizadas, como se planejamento fosse sinônimo de ordem e eficiência.
Na visão do entrevistado, experiências de crescimento econômico costumam estar mais associadas a processos descentralizados, inovação privada e coordenação espontânea de agentes econômicos. Ele cita a Revolução Industrial como exemplo de transformação impulsionada de baixo para cima, e não por uma autoridade central.
“Os países ricos ficaram ricos dessa forma, foi um movimento. Veja, por exemplo, a revolução industrial, foi um fenômeno de baixo para cima, bottom up”, observa o convidado.
Corrupção, favelas e leitura proporcional dos dados
Ao tratar de corrupção e favelas, Gianturco defendeu que muitos indicadores brasileiros precisam ser analisados em termos proporcionais, e não apenas absolutos. Como o Brasil é um país populoso e territorialmente grande, números totais tendem a colocá-lo entre os maiores em diferentes rankings, sem necessariamente refletir sua posição relativa.
Essa distinção, segundo ele, também vale para temas econômicos. O Brasil aparece entre as maiores economias do mundo em PIB nominal, mas cai no ranking quando a análise considera PIB per capita. Para o público de mercado, essa diferença é relevante porque muda a leitura sobre renda, produtividade e potencial de crescimento.
“Como o Brasil é um dos maiores países do mundo, todo mundo sabe, o que acontece, se você olhar número números absolutos, o Brasil sempre será ou maior país de X ou pior país de Y”, destaca Gianturco.
Violência e fragmentação partidária
Na segunda parte do programa, o entrevistado afirmou que a violência é um dos problemas concretos do Brasil. Ele citou homicídios, latrocínio, maioridade penal e ausência de prisão perpétua como pontos que diferenciam o país no debate sobre segurança pública e incentivos jurídicos.
Gianturco também analisou a fragmentação partidária e o presidencialismo de coalizão. Para ele, o funcionamento do sistema eleitoral brasileiro ajuda a explicar a necessidade permanente de negociação entre Executivo e Congresso, o uso de emendas como instrumento político e a dificuldade de construção de maiorias estáveis.
“Se você pegasse o sistema eleitoral brasileiro e implantasse amanhã nos Estados Unidos, você obteria o mesmo resultado idêntico”, sustenta o professor.
Protecionismo e custo para o consumidor
No campo econômico, o protecionismo foi tratado como uma das características estruturais menos compreendidas pelo brasileiro. Gianturco afirmou que o país está entre as economias mais fechadas, o que reduz a concorrência, encarece produtos importados e limita o acesso da população a bens de maior qualidade e menor preço.
Para investidores e empresas, essa análise tem impacto direto sobre produtividade, inflação de bens, competitividade industrial e concentração de mercado. A consequência prática, segundo o entrevistado, aparece no cotidiano do consumidor, que percebe preços mais altos, mas nem sempre associa esse custo às barreiras comerciais.
“O Brasil é um dos países mais protecionistas, isso é conhecido entre os técnicos da CDE, do Banco Mundial, entre os economistas”, pontua Gianturco.
A entrevista encerra com uma leitura sobre a necessidade de separar mitos, percepções e problemas efetivos. Para Gianturco, diagnósticos equivocados dificultam a formulação de políticas públicas e alimentam soluções que não atacam os incentivos responsáveis pelos principais entraves do país.
Para empresários, investidores e formuladores de estratégia, a discussão reforça que compreender o Brasil exige comparar dados, analisar instituições e observar os efeitos econômicos de escolhas regulatórias, políticas e comerciais. Essa leitura é determinante para avaliar risco, ambiente de negócios, produtividade e perspectivas de crescimento.
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