O encontro entre Donald Trump e Xi Jinping em Beijing transcende o protocolo habitual de uma reunião entre duas grandes potências. Em muitos aspectos, trata-se de um daqueles raros momentos históricos em que a geopolítica deixa de ser apenas disputa de interesses e passa a refletir uma transformação psicológica da percepção global de poder, legitimidade e autoridade.
Impérios raramente entram em declínio pela simples ausência de riqueza, tecnologia ou capacidade militar. A história demonstra que grandes potências começam a enfraquecer quando deixam de representar estabilidade previsível e passam a gerar ansiedade sistêmica. O verdadeiro poder internacional jamais foi sustentado exclusivamente por armas ou por mercados, mas sim pela capacidade de convencer o restante do mundo de que determinada liderança representa uma forma superior de organização internacional.
O mundo aceitava a centralidade norte-americana não apenas pelo peso de Wall Street, do dólar ou do Pentágono, mas também porque havia a percepção de que Washington defendia a previsibilidade institucional, a racionalidade estratégica e o respeito às regras internacionais. É precisamente essa percepção que hoje se encontra em erosão gradual.
O primeiro elemento desse desgaste reside no crescente distanciamento entre o discurso moral de Washington e a prática concreta de sua política externa. A potência que ajudou a construir parte substancial da arquitetura jurídica internacional do pós-guerra passou gradualmente a relativizar regras antes defendidas como universais.
Grande parte do Sul Global observa a seletividade na aplicação do direito internacional, o apoio a ações militares sem legitimidade jurídica clara e a flexibilização de princípios humanitários conforme conveniências estratégicas momentâneas. A percepção de dois pesos e duas medidas tornou-se inevitável.
O caso palestino talvez represente o símbolo mais visível dessa transformação psicológica global. Para bilhões de pessoas na África, na Ásia, no Oriente Médio e na América Latina, tornou-se cada vez mais difícil reconciliar o discurso norte-americano sobre direitos humanos com o sofrimento civil em Gaza e com a aparente incapacidade do sistema internacional de impor limites proporcionais ao conflito. Isso não significa ignorar outras tragédias contemporâneas, como a guerra na Ucrânia. Contudo, existe uma diferença fundamental entre potências movidas por interesses estratégicos explícitos e uma potência que, durante décadas, apresentou-se como referência moral universal da ordem liberal internacional.
O segundo elemento do desgaste americano encontra-se na armadilha estratégica do Oriente Médio. Durante anos, documentos oficiais dos Estados Unidos afirmaram que Washington deveria reduzir sua presença militar na região e concentrar-se na competição tecnológica e geopolítica no Indo-Pacífico. Contudo, os Estados Unidos encontram-se novamente envolvidos numa região da qual desejavam sair.
Na tentativa de impedir que o Irã desenvolvesse capacidade nuclear militar, Washington acabou expondo ao mundo uma vulnerabilidade talvez ainda mais poderosa: a fragilidade estrutural da economia internacional diante do Estreito de Ormuz. A crise revelou que a simples possibilidade de instabilidade naquele gargalo energético produz impacto imediato sobre a energia, a inflação, os fertilizantes, as cadeias logísticas e a estabilidade financeira global.
O terceiro elemento do declínio norte-americano reside no custo civilizacional da manutenção de sua hegemonia. Durante décadas, os Estados Unidos conseguiram financiar simultaneamente a expansão militar global, déficits públicos crescentes e uma sociedade dependente de crédito, porque o mundo aceitava sustentar o dólar como centro absoluto do sistema financeiro internacional.
Entretanto, guerras prolongadas e estrategicamente inconclusivas passaram gradualmente a provocar desgaste moral, polarização doméstica e endividamento estrutural crescente. Impérios raramente percebem o instante exato em que deixam de liderar pelo exemplo e passam a depender excessivamente da coerção.
Nada disso significa que os Estados Unidos deixarão de ser uma potência extraordinária. Continuarão centrais na inovação, nas finanças e na capacidade militar global. Contudo, a hegemonia jamais foi apenas uma capacidade material. Hegemonia é legitimidade psicológica. É previsibilidade. É confiança.
É precisamente neste contexto que o encontro entre Trump e Xi Jinping adquire dimensão histórica. O mundo observa dois estados psicológicos distintos da ordem internacional. De um lado, uma potência marcada por ansiedade estratégica, polarização interna e desgaste moral. Do outro, uma China que procura apresentar-se como símbolo de continuidade histórica, estabilidade estratégica e paciência civilizacional.
A história raramente anuncia a passagem de uma era para outra. Ela normalmente o faz em silêncio, até que o mundo percebe que algo fundamental mudou. Porque o verdadeiro declínio de uma nação começa quando o medo permanece… mas o respeito desaparece.
*Coluna escrita por Marcus Vinícius de Freitas, professor visitante na China Foreign Affairs University, e Senior Fellow no Policy Center for the New South. Tem vasta experiência em relações internacionais e é colunista da BM&C News.
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