Porto Alegre: entenda riscos da superbactéria detectada no Guaíba

Orla do Guaíba é um dos cartões postais da capital gaúchaFoto: Gustavo Garbino/PMPA

A superbactéria Acinetobacter baumannii foi detectada em pontos do lago Guaíba, em Porto Alegre, por pesquisadores do projeto ClimaRes WaSH, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/UFRGS).

O microrganismo recentemente esteve relacionado ao fechamento da UTI neonatal do Hospital Fêmina, após casos de infecção hospitalar e a morte de um bebê prematuro.

O resultado chama atenção, pois a bactéria pode causar quadros graves de pneumonia e infecção em ambiente hospitalar. Em abril deste ano, um surto de Acinetobacter baumannii motivou fechamento temporário da UTI neonatal do Hospital Fêmina, com objetivo de descontaminação. O surto foi contido e o atendimento reestabelecido, apesar de uma vítima.

Segundo Marcelo Daher, médico consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), a bactéria representa risco especialmente a pacientes vulneráveis, como em hospitais.

Sobre a situação, a Prefeitura de Porto Alegre afirma que a detecção não apresenta risco para o fornecimento de água, nem altera relatórios positivos sobre balneabilidade.

De acordo com a Vigilância Ambiental em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), bactérias do grupo Acinetobacter são comumente encontradas no meio ambiente e costumam preocupar apenas ambientes hospitalares, devido à capacidade de resistência a antibióticos.

Quanto ao fornecimento de água, o Departamento Municipal de Água e Esgotos (DMAE) esclarece que, pela detecção ter sido constatada em coleta de água bruta, ou seja, antes de processos de tratamento, a presença da bactéria não afeta a qualidade do abastecimento à população.

O DMAE também afirma que não há evidências de que bactérias do grupo Acinetobacter consigam resistir às etapas de tratamento da água, como decantação, clarificação, filtração e cloração, e que mantém processos contínuos de controle de qualidade da água.

Em relação à balneabilidade do Guaíba, o órgão afirma que não é possível associar a existência da superbactéria no local aos critérios usados para avaliar condições de banho, os quais se baseiam em parâmetros internacionais e definições da legislação ambiental.

A Prefeitura afirma que mantém diálogo não só com os pesquisadores do IPH, como também com demais profissionais das áreas de saneamento, genética, biologia molecular e microbiologia.

O que é a Acinetobacter baumannii e quais os riscos?

A Acinetobacter baumannii é uma bactéria que pode causar infecções graves, principalmente em pacientes hospitalizados e imunossuprimidos. O microrganismo ganhou atenção mundial pela capacidade de desenvolver resistência a antibióticos, motivo que justifica ser chamada de “superbactéria”.

A Organização Mundial da Saúde a incluiu em lista de “prioridade crítica”, baseada em critérios como impacto na saúde, desenvolvimento e resistência, opções de tratamento e afins.

Segundo Marcelo Daher, médico consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, a Acinetobacter baumannii é uma bactéria comum em ambientes hospitalares, especialmente em unidades de terapia intensiva, e representa maior risco pacientes internados por longos períodos ou com condições clínicas delicadas.

Ainda, apesar de ser multirresistente, ainda existem classes de antibióticos disponíveis como opção de tratamento.

O risco de infecção com este tipo de bactéria por meio de banho nas águas do Guaíba é mínimo, esclarece Afonso Luís Barth, doutor em Microbiologia Clínica e coordenador do Laboratório de Pesquisa em Resistência Bacteriana (Labresis) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre em nota da Prefeitura.

Leia a nota do DMAE na íntegra:

“O Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) mantém diálogo permanente com pesquisadores e instituições científicas para garantir segurança à população e qualificar o convívio com o Lago Guaíba. Conforme especialistas consultados pelo Dmae, não é possível estabelecer relação entre esse microrganismo e os parâmetros definidos em lei para avaliação das condições de balneabilidade.

A balneabilidade é regulada pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA), por meio da Resolução nº 274/2000. Ela estabelece que, em 80% das análises, de um conjunto das cinco últimas amostras, a água deve apresentar um número de Escherichia coli não superior a 800 NMP/100 mL. Na última amostragem, este valor não pode ultrapassar 2.000 NMP/100 mL. Já o valor do pH deve manter-se na faixa de 6,0 a 9,0.

A Vigilância Ambiental em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre (SMS) considera, com base em estudos do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, que o grupo de bactérias Acinetobacter é comumente encontrado no meio ambiente. Infecções só são consideradas preocupantes em ambientes de saúde, em razão da capacidade de adaptação dos microrganismos e resistência aos antibióticos.

Conforme a Vigilância Ambiental em Saúde do Município, não existem evidências de que este grupo de bactérias sejam resistentes ou superem o conjunto de barreiras sanitárias de tratamento de água como a decantação, clarificação, filtração e cloração. Os relatórios de qualidade da água são públicos, conforme a Portaria nº 888/2021, do Ministério da Saúde, e estão disponíveis no site do Dmae.

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