Eleições 2026: polarização e desconfiança já dominam as redes

Os brasileiros têm encontro marcado com as urnas no dia 4 de outubroNELSON JR/TSE

As eleições presidenciais de 2026 ainda estão longe das urnas, mas já ocupam intensamente as redes sociais brasileiras. E, ao que tudo indica, o ambiente digital deve novamente assumir papel central na construção — e na radicalização — do debate público no país.

Levantamento da And, All em parceria com a Polis Consulting mostra que o ciclo eleitoral começou marcado por polarização, desconfiança e disputa de narrativas. Entre janeiro e fevereiro deste ano, cerca de 20 mil conversas públicas foram monitoradas em plataformas como Instagram, X e TikTok, a partir de 245 perfis políticos analisados.

Mais do que antecipar tendências eleitorais, o estudo revela um comportamento que virou padrão na comunicação contemporânea: as redes deixaram de ser apenas espaços de debate e passaram a funcionar como arenas permanentes de validação emocional, conflito ideológico e influência algorítmica.

27,5% do buzz eleitoral gira em torno de desconfiança

O dado mais simbólico da pesquisa não está apenas no volume das conversas, mas no teor delas. Segundo o levantamento, 27,5% do buzz eleitoral gira em torno da desconfiança política. Em seguida aparecem o ceticismo dos eleitores (24,6%) e a disputa personalizada entre Lula e Bolsonaro (21,4%).

Na prática, isso significa que o debate público digital continua menos conectado a propostas e projetos de governo — e mais ligado a percepções de ameaça, julgamentos morais instantâneos e disputas sobre credibilidade.

A eleição começa, mais uma vez, no campo simbólico.

O algoritmo premia o conflito

Não é exatamente novidade que redes sociais favorecem conteúdos polarizados. O modelo de negócios das plataformas privilegia engajamento — e poucas coisas engajam tanto quanto indignação, medo e confronto.

O estudo aponta que o X segue como principal epicentro político digital, impulsionado por perfis anônimos, contas militantes e ferramentas de inteligência artificial que reinterpretam notícias e pesquisas em tempo real.

Entre os perfis de maior alcance identificados no levantamento está o Grok, IA criada por Elon Musk para responder usuários dentro da plataforma. O fenômeno reforça uma nova camada de mediação informacional: parte significativa das pessoas passa a consumir política por meio de respostas automatizadas, muitas vezes sem clareza sobre origem, contexto ou verificação das informações.

O problema não está apenas na tecnologia em si, mas na velocidade com que narrativas enviesadas ganham aparência de legitimidade.

Marcas em zona de risco

Se nas eleições anteriores muitas empresas tentaram ocupar espaços de posicionamento institucional, o ambiente de 2026 exige uma dose ainda maior de cautela estratégica.

Em um cenário no qual qualquer declaração pode ser recortada, reinterpretada ou transformada em munição política, marcas passam a operar sob vigilância constante. Paulo Andreoli, CEO da And, All, resume bem esse desafio: comunicar com consistência e governança será fundamental para preservar reputação e confiança.

O ponto central não é necessariamente “se posicionar” ou “ficar neutro”, mas entender o ambiente emocional em que a comunicação circula. Hoje, uma campanha publicitária, um post institucional ou uma ação de influência pode rapidamente ser capturada pela lógica binária das redes.

E isso muda completamente a dinâmica da comunicação corporativa.

A política como entretenimento permanente

Outro aspecto revelado pela pesquisa é o grau de personalização do debate eleitoral. Grande parte das conversas se concentra em figuras políticas específicas, enquanto discussões programáticas seguem periféricas.

A política digital opera cada vez mais próxima da lógica do entretenimento: personagens fortes, rivalidades, torcida organizada, recortes virais e narrativas simplificadas.

O risco disso é transformar eleições em uma disputa contínua de percepção — na qual emoção vale mais do que informação e alcance importa mais do que profundidade.

Em 2026, a campanha presidencial não será travada apenas nos palanques ou no horário eleitoral. Ela já acontece — minuto a minuto — dentro dos algoritmos.

 

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