
Enquanto cientistas buscam sinais de vida fora da Terra, uma preocupação acompanha as missões espaciais: evitar que organismos terrestres contaminem outros planetas. Afinal, seria um enorme problema descobrir uma suposta forma de vida alienígena e perceber depois que ela veio “de carona” da própria Terra.
Por esse motivo, a NASA e outras agências espaciais adotam rígidos protocolos de proteção planetária, que incluem esterilização de equipamentos e procedimentos para impedir a contaminação de corpos celestes. O foco principal dessas medidas costuma ser a eliminação de bactérias terrestres. Porém, um novo estudo aponta que alguns microrganismos podem estar escapando da limpeza.
O fungo Aspergillus calidoustus
Pesquisadores identificaram um fungo chamado Aspergillus calidoustus capaz de sobreviver a condições semelhantes às enfrentadas em viagens espaciais e até mesmo na superfície de Marte. O estudo foi publicado em 20 de abril na revista científica Applied and Environmental Microbiology.

Segundo os cientistas, o fungo foi encontrado em salas limpas da NASA, ambientes altamente controlados onde são montados equipamentos espaciais, como sondas, pousadores e robôs exploratórios. Esses locais são projetados justamente para evitar qualquer tipo de contaminação biológica.
A investigação reuniu amostras coletadas no Centro Espacial Kennedy, na Flórida, e no Laboratório de Propulsão a Jato, na Califórnia. Ao todo, os pesquisadores identificaram 27 cepas de fungos em instalações utilizadas durante a missão Mars 2020, responsável por levar o rover Perseverance ao planeta vermelho.
Os testes mostraram que os esporos reprodutivos do Aspergillus calidoustus apresentaram resistência impressionante. Quase metade deles sobreviveu durante seis meses sob intensa radiação, em condições semelhantes às de uma viagem espacial. Além disso, o fungo resistiu a duas horas de calor seco a cerca de 125 °C, método frequentemente utilizado na esterilização de componentes espaciais.

Os pesquisadores também criaram cenários inspirados em Marte, incluindo baixa pressão atmosférica, temperaturas congelantes, solo marciano simulado e alta incidência de radiação solar. Mesmo nessas condições extremas, o fungo demonstrou grande capacidade de sobrevivência.
De acordo com os cientistas, apenas a combinação simultânea de frio severo e radiação intensa foi capaz de eliminar completamente os esporos.
Para especialistas, a descoberta reforça a necessidade de atualizar os protocolos de proteção planetária. Atul M. Chander, microbiologista da Universidade do Mississippi e um dos autores do estudo, afirmou ao jornal The New York Times que a exploração espacial precisa ser feita de forma responsável.
Apesar da preocupação, os pesquisadores ressaltam que não há evidências de que fungos terrestres tenham chegado a Marte. Ainda assim, os resultados ajudam a compreender melhor a resistência de microrganismos e podem contribuir para aprimorar futuras missões espaciais.
