
Uma reportagem publicada em 2024 pela ONG sediada em Genebra Euro-Med Human Rights Monitor voltou ao centro do debate internacional após ser citada em um artigo de opinião do jornalista Nicholas Kristof no The New York Times. O tema é extremamente sensível: acusações de abusos sexuais cometidos por forças israelenses contra prisioneiros palestinos durante a guerra em Gaza.
A controvérsia, porém, rapidamente deixou de ser apenas sobre os fatos alegados e passou a envolver uma discussão mais ampla sobre padrões jornalísticos, propaganda de guerra, credibilidade de fontes e o impacto que denúncias sem comprovação robusta podem ter tanto sobre vítimas reais quanto sobre a confiança pública na imprensa.
Segundo o relatório da Euro-Med — uma ONG obscura com histórico comprovado de promover alegações infundadas contra Israel e negação de atividades comprovadamente ativas do Hamas no hospital Al-Shifa, em Gaza —, militares israelenses teriam utilizado cães policiais “treinados para estuprar” prisioneiros palestinos. O documento citava testemunhos atribuídos a prisioneiros palestinos, descrevendo cães equipados com câmeras e usados de forma “sistemática” para tortura em centros de detenção israelenses.
Na época de sua publicação, o relatório recebeu pouca atenção da grande imprensa internacional. Críticos apontam que isso ocorreu porque a Euro-Med já havia sido alvo de questionamentos anteriores envolvendo acusações consideradas infundadas contra Israel, incluindo alegações de extração de órgãos de palestinos, execuções em massa em hospitais e negação da presença operacional do Hamas no hospital Al-Shifa, em Gaza. Israel e diversos analistas também afirmam que integrantes da liderança da organização mantêm vínculos ideológicos ou proximidade com narrativas pró-Hamas.
A polêmica ganhou nova dimensão quando Nicholas Kristof mencionou as alegações em uma coluna de opinião, afirmando que “prisioneiros palestinos” e “monitores de direitos humanos” relataram que cães israelenses teriam sido treinados para abusar sexualmente dos prisioneiros. O texto não apresentava provas diretas da acusação.
Após críticas nas redes sociais, Kristof respondeu citando artigos médicos sobre lesões retais relacionadas a ataques envolvendo cães. Críticos, porém, argumentaram que os estudos mencionados tratavam de casos de bestialidade iniciada por humanos, não de ataques sistemáticos conduzidos por animais treinados militarmente, levantando muitas dúvidas sobre a plausibilidade anatômica e científica das alegações.
O debate se intensificou também em torno das fontes utilizadas pelo colunista. Dois entrevistados identificados no artigo foram o jornalista palestino Sami al-Sai e o ativista Issa Amro, frequentemente chamado por apoiadores de “o Gandhi palestino”.
Al-Sai relatou a Kristof um suposto estupro sofrido em prisão israelense após sua detenção em 2024. Entretanto, críticos observaram diferenças entre esse relato e versões anteriores fornecidas por ele a outras organizações.
Já Issa Amro teria inicialmente relatado ao The Washington Post que havia sido “ameaçado” de violência sexual durante uma prisão ocorrida em 7 de outubro de 2023. Meses depois, em entrevista a Kristof, a descrição teria evoluído para alegações de agressão sexual efetiva.
Para críticos da reportagem, essas inconsistências ilustram um problema mais amplo: a erosão dos padrões de verificação jornalística quando o tema envolve Israel. Eles argumentam que relatos anônimos, alegações sem comprovação independente e fontes ativistas estariam sendo apresentados ao público como fatos praticamente estabelecidos.
Nesse contexto, analistas afirmam que transformar denúncias ainda não verificadas em narrativas categóricas pode acabar prejudicando a busca por responsabilização real. Segundo eles, quando acusações extremas são amplificadas sem evidências sólidas, parte do público passa a desacreditar inclusive denúncias legítimas.
Críticos observam que o Hamas foi acusado múltiplas vezes de violência sexual sistemática durante os ataques de 7 de outubro de 2023 contra Israel. Um relatório divulgado pela Israeli Civil Commission on October 7 Crimes detalhou casos de estupro, mutilação e violência sexual cometidos pelos terroristas do Hamas durante o massacre em um documento de 300 páginas que levou dois anos para ser compilado e apresenta fartas provas em um modelo baseado no cruzamento de depoimentos, imagens, vídeos, dados geolocalizados e outros registros, formando um arquivo com mais de 10 mil fotos e vídeos, mais de 1.800 horas de análise visual e mais de 430 testemunhos de sobreviventes, reféns libertados, familiares e especialistas.
O relatório identifica padrões recorrentes em diferentes locais, como estupros e estupros coletivos, mutilações, nudez forçada, violência sexual diante de familiares, abuso pós-morte, humilhação pública e filmagem das agressões. Também sustenta que homens e meninos foram vítimas, e que a violência continuou durante o sequestro, o transporte para Gaza e o período de cativeiro. Para os autores, essa repetição indica organização e continuidade, e não casos isolados.
Os relatos reunidos descrevem cenas de extrema brutalidade no festival Nova, nas rotas de fuga e em kibutzim atacados, com vítimas encontradas nuas, amarradas, mutiladas ou com sinais de violência sexual. O material também aponta que a exposição dessas agressões em vídeos e redes sociais teria sido usada como instrumento adicional de humilhação, intimidação e guerra psicológica contra vítimas, famílias e comunidades.
Não por acaso as acusações contra Israel foram lançadas justo na divulgação deste relatório.
Outro elemento central da discussão é o papel da propaganda e da guerra informacional. Diversos comentaristas apontam que o conflito Israel-Hamas produziu um ambiente em que ativistas, influenciadores e até pessoas apresentadas como jornalistas frequentemente reproduzem relatos não verificados em redes sociais, que depois acabam circulando em veículos tradicionais.
Fato é que o Hamas controlava (e em certa medida ainda controla) tudo que poderia ser publicado ou não pelos veículos de imprensa na Faixa de Gaza. Por outro lado, Israel é um dos países com o maior contingente de correspondentes internacionais do mundo, escrutinado diuturnamente com absoluta liberdade de imprensa e opinião.
O pesquisador Salo Aizenberg, ligado à organização HonestReporting, publicou análises alegando que dezenas de pessoas apresentadas internacionalmente como “jornalistas” em Gaza possuíam vínculos documentados com grupos armados como o Hamas e a Jihad Islâmica Palestina. Casos semelhantes envolvendo funcionários de organizações humanitárias e agências internacionais também vieram à tona durante a guerra.
Críticos afirmam que isso evidencia um problema estrutural: a dificuldade de distinguir, em zonas de conflito, entre civis, ativistas políticos, membros de grupos armados e comunicadores independentes. Para eles, isso exige padrões ainda mais rigorosos de verificação por parte da imprensa internacional, algo muitas vezes deixado de lado quando se trata das acusações contra Israel.
A discussão acabou extrapolando o caso específico de Kristof e passou a refletir um debate maior sobre o estado do jornalismo contemporâneo. Para muitos observadores, o problema não está em investigar possíveis crimes israelenses — algo considerado legítimo e necessário —, mas em abandonar critérios consistentes de ceticismo, comprovação e proporcionalidade.
Segundo essa visão, quando a cobertura deixa de buscar evidências sólidas e passa a funcionar principalmente como ativismo narrativo, o resultado pode ser contraproducente: enfraquecimento da confiança pública, polarização extrema e prejuízo justamente para vítimas reais de abusos, que passam a enfrentar ainda mais desconfiança.
Ao final, a controvérsia revela não apenas as tensões do conflito entre Israel e Hamas, mas também um dilema central da era digital: como distinguir investigação legítima, propaganda, militância e desinformação em guerras cada vez mais travadas também no campo das narrativas.
*Ariel Krok – assessor da Presidência da Federação Israelita do Estado de São Paulo, é membro da Mesa Diretora do JDCorps (braço diplomático do Congresso Judaico Mundial) e delegado do Congresso Judaico Latino-Americano.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do iG
