
Amostras de terras raras: Óxido de cério, Bastnasita, óxido de neodímio e carbonato de lantânio
REUTERS/David Becker
Araxá está a milhares de quilômetros dos corredores diplomáticos de Pequim (China), Washington (Estados Unidos) e a cerca de 600 quilômetros da Praça dos Três Poderes em Brasília. Mas o que existe embaixo da terra do município mineiro conecta a cidade diretamente às decisões estratégicas das maiores potências do mundo.
Em meio à corrida global por minerais essenciais à transição energética, à indústria de defesa e à tecnologia de ponta, Araxá concentra uma das maiores riquezas minerais do planeta: cerca de 80% da produção mundial de nióbio e detém a única reserva oficialmente reconhecida de terras raras do Brasil, atualmente no centro da disputa geopolítica entre China e Estados Unidos.
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Não à toa, o tema tem ocupado espaço nas agendas internacionais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tratou diretamente de terras raras e minerais críticos em encontros recentes com os presidentes da China, Xi Jinping, e Donald Trump, dos Estados Unidos, defendendo soberania nacional e agregação de valor à produção brasileira.
ASSISTA no fim da reportagem a série especial do MG1 “ARAXÁ RIQUEZA DA TERRA”
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🧲 Araxá, capital mundial do nióbio
Araxá abriga no subsolo uma das maiores jazidas minerais do mundo. A cidade é responsável por quase todo o nióbio produzido no planeta, metal estratégico utilizado:
🦾 no aço;
🚗 na indústria automotiva;
🏗️ na construção civil
🚀 no setor aeroespacial;
🔋 e, mais recentemente, em baterias de carregamento ultrarrápido.
Segundo dados do Serviço Geológico Americano, o Brasil se destaca como o principal produtor de nióbio do mundo, contribuindo com quase 90% da produção global e detendo 95% das reservas conhecidas, distribuídas nos estados de Minas Gerais, Amazonas, Goiás, Rondônia e Paraíba.
Em 2019, Araxá já tinha a maior reserva de nióbio em operação do planeta e cerca de 80% de todo o nióbio vendido no mundo já era extraído da cidade e controlado pela Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM).
Conforme o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), o nióbio foi o quarto componente da balança de exportação mineral brasileira. Desse total, Araxá respondeu por quase R$ 2 bilhões em exportações do mineral para diversos países.
Segundo especialistas, o diferencial de Araxá não é apenas a existência da reserva, mas o modelo de exploração, que agrega valor ao minério antes da exportação, transformando a cidade em referência para o setor mineral brasileiro.
“Araxá é uma mineração em que ela explora minério de nióbio e ela desenvolve boa parte da cadeia do nióbio. Ela tem a siderurgia, que produz nióbio a 60%, a 70%, a 80%, 95%. Ela agrega valor no seu bem mineral. Ela não vende matéria bruta pra fora. Araxá e Minas Gerais mais uma vez trazendo um bom exemplo para ser aplicado ao setor mineral”, explicou Francisco Valdir Silveira, diretor de geologia e recursos minerais do Serviço Geológico do Brasil (SGB).
Nióbio
Infografia: Juliane Souza/G1
🌱 Terras raras: o novo ativo estratégico que coloca Araxá no radar do mundo
Além do nióbio, Araxá está no centro das discussões sobre terras raras, um grupo de 17 elementos essenciais para a fabricação de motores elétricos, turbinas eólicas, celulares, equipamentos médicos e tecnologia militar.
O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China. Conforme dados do Serviço Geológico do Brasil (SGB), Araxá tem a única reserva oficial de terras raras reconhecida no Brasil, incorporando também depósitos de nióbio de altíssimo valor estratégico. Essa combinação amplia o interesse internacional pela região.
Entre 2020 e 2024, mais de R$ 7 milhões foram investidos em pesquisas sobre terras raras na região mineira do Alto Paranaíba, com Araxá concentrando 93,5% desses recursos, segundo dados da Agência Nacional de Mineração (ANM). Os investimentos reforçam a importância do município como uma província geológica estratégica.
“É um complexo geológico muito importante. Tem a questão do nióbio, tem o fosfato, tem a questão do titânio e o mineral Anatásio. É uma região que tem um potencial enorme e muito importante para o país”, disse João Antônio Vasconcelos, coordenador de economia mineral da ANM.
Projetos como o da mineradora australiana St. George Mining colocam Araxá no mesmo patamar de minas em operação nos Estados Unidos e na Austrália, únicas grandes produtoras fora da China — hoje responsável pela maior parte do refino mundial.
“As terras raras de Araxá se comparam a duas minas que estão em operação de forma bastante contínua no mundo, que é uma mina nos Estados Unidos, na Califórnia, e uma mina na Austrália. Essas são as duas minas fora da China que fabricam [processam] as terras raras e que produzem para o mundo. Araxá se equivale a essas minas e, por isso, tem tudo para ser a nova produtora de terras raras para o mundo”, afirmou Thiago Amaral, diretor de desenvolvimento da St George.
No início de 2026, a St George Mining anunciou novos resultados dos estudos de perfuração em Araxá, que indicam teores de até 28% de terras raras e 6,5% de nióbio. Segundo a companhia, essa combinação cria condições logísticas e operacionais altamente favoráveis, com patamares considerados excepcionais para projetos em desenvolvimento.
Os novos dados de sondagem ampliam ainda mais o protagonismo de Araxá em relação a terras raras e nióbio.
“Confirmamos o potencial do ativo como um dos mais relevantes projetos de terras raras e nióbio em desenvolvimento no mundo”, afirmou o presidente executivo, John Prineas.
Um dos destaques recentes da St George é um furo com 178,7 metros mineralizados, o maior já registrado na área. Outros furos confirmam a continuidade da mineralização em diferentes pontos do projeto, reforçando a consistência geológica.
💼 Uma riqueza que transforma a cidade
A mineração é, hoje, o principal motor econômico de Araxá. O setor responde por cerca de 90% da arrecadação municipal, impulsiona a geração de empregos qualificados e movimenta setores como hotelaria, mercado imobiliário, comércio e serviços.
Somente a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) – royalty da mineração -, paga principalmente pela exploração do nióbio, já garantiu ao município e ao estado valores que colocam Minas Gerais como líder nacional na arrecadação desse tributo, com praticamente tudo vindo de Araxá.
Em 2025, esse montante chegou a mais de R$ 14 milhões, o que fez com que Araxá, sozinha, respondesse por 41% de toda a CFEM recolhida no país.
O setor mineral tem impacto significativo na geração de empregos e atrai investimentos de grande porte para a cidade. A CBMM, por exemplo, emprega mais de 2 mil pessoas diretamente e outras 3 mil de forma indireta em Araxá. Recentemente, a empresa também anunciou investimentos superiores a R$ 400 milhões na ampliação de sua planta industrial, com expectativa de criação de novos postos de trabalho.
A St George, somente nessa fase inicial de sondagem e pesquisa, já gerou cerca de 100 empregos diretos e tem previsão de outros 400 postos de trabalho. Os investimentos da mineradora australiana em Araxá devem chegar a R$ 2 bilhões.
A cadeia mineral também atrai investimentos em educação técnica, pesquisa, inovação e sustentabilidade, criando um ambiente propício para que o município se consolide como polo de tecnologia mineral e metalurgia.
Fosfato, nióbio e terras raras formam um patrimônio mineral que coloca Araxá em posição de destaque no cenário mundial e impulsiona investimentos na cidade, com reflexos diretos no desenvolvimento econômico e social do município.
“Impulsiona não só a renda, mas o desenvolvimento tecnológico. Nós temos a principal mineradora do mundo no segmento de nióbio, instalada aqui, uma das maiores reservas minerais de nióbio do mundo. E agora estão vindo as terras raras, que aqui também tem uma reserva mineral muito significativa. Isso é revertido em saúde, sistema de segurança, educação, muitos empregos. Empregos qualificados, com boa renda”, explicou Ítalo Borges, secretário de Desenvolvimento Econômico de Araxá.
Para cada 1 tonelada de minério extraída em Araxá, é produzido 15 kg de ferronióbio. São necessárias várias etapas para se chegar aos produtos finais, incluindo concentração, refino e metalurgia.
Fabio Tito/G1
🔭 Ativo geopolítico começou a se formar há milhões de anos
Com reservas consolidadas de nióbio, fosfato e terras raras, Araxá deixa de ser apenas um símbolo do turismo histórico mineiro para ocupar uma posição estratégica no debate global sobre segurança energética, transição verde e soberania mineral.
Em um mundo cada vez mais dependente desses elementos, o que está sob o solo araxaense não é apenas riqueza — é poder, influência e futuro.
Tudo começou ainda no século 20, quando ocorreu a primeira descoberta de minerais essenciais em Araxá, logo após a Segunda Guerra Mundial. Mas, a exploração do fosfato só começou no início da década de 70. Já o nióbio veio pouco tempo depois.
“A jazida de Araxá foi formada no antigo vulcanismo. Então, era um vulcão de mais ou menos 100 milhões de anos. Por erosão, foi acumulando nióbio e transformou Araxá numa reserva das mais importantes do mundo de minério. Aqui em Araxá transformaram a nossa reserva numa reserva de classe mundial”, explicou o diretor da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), Alexandre Reple.
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