
A Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro aprovou, na última quarta-feira, um projeto que declara o humorista Fábio Porchat “persona non grata” no estado.
O texto não tem efeito jurídico nenhum. Não impede nada. Não pune ninguém. É, nas palavras do próprio relator, “uma sanção moral”.
Uma sanção moral. Emitida por deputado. No Rio de Janeiro.
Vou deixar isso assentar por um segundo…
…
O motivo do projeto é que Porchat fez piada com Bolsonaro. E com religião.
Piadas com político e religião… Convenhamos, é exatamente o que humoristas fazem desde que o homo sapiens descobriu que dava pra rir do chefe da tribo sem ser comido.
O deputado autor da proposta, Rodrigo Amorim, do PL, argumentou que as sátiras de Porchat “extrapolam os limites da liberdade de expressão”.
Curiosamente, o PL é o partido que transformou liberdade de expressão em identidade política. Tem adesivo. Tem camiseta. Tem discurso de posse. Tem post de Dia das Mães.
Mas liberdade de expressão, ao que parece, tem limite. O limite é quando bate no calo deles.
E olha, isso não é novidade como comportamento. A novidade é quem está fazendo.
A esquerda tem um histórico longo e documentado de tentar silenciar, cancelar e constranger quem critica seus ídolos. A diferença é que a direita passou anos vendendo exatamente a narrativa oposta: que ela, e só ela, defendia o direito de falar o que pensa sem levar notificação judicial ou linchamento virtual.
O Porchat, aliás, foi criticado com razão quando recuou na defesa do humorista Leo Lins, que estava sendo processado por piadas ofensivas. ficou feio demais.
Porchat defendeu, a pressão veio, e ele voltou atrás.
A esquerda comemorou o cancelamento. A direita usou o episódio pra mostrar que ele era contraditório, que pregava coragem e dobrava quando a conta chegava.
Ninguém ficou bem na foto.
Agora é a direita que usa a máquina pública pra emitir reprimenda simbólica contra humorista. Não pra resolver nada. Só pra oficializar que ficou magoada.
E fez isso na mesma semana em que veio a público um áudio de Flávio Bolsonaro negociando R$ 134 milhões com o Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, preso por fraude. Flávio negou. Depois confirmou. Disse que não fez nada de ilegal.
Tudo na mesma semana.
Mas tem uma ironia maior nisso tudo.
O humorista virou uma espécie de filho da separação política brasileira. Quando bate na esquerda, a direita aplaude. Quando bate na direita, a esquerda aplaude. E quando bate nos dois, os dois pedem punição.
Antigamente, político tinha medo de humorista. Hoje, humorista tem que pedir autorização emocional antes da piada.
E aí fica a questão.
Talvez o problema nunca tenha sido ideologia. Talvez seja gente. Pessoas, quando chegam perto do poder, costumam fazer exatamente isso: usar estrutura pública pra massagear emoção privada. O mesmo vale pra esquerda. Os princípios são o discurso de venda. O comportamento é o produto real.
Prestar atenção nos ideais é importante. Mas prestar atenção em quem está por trás deles é mais.
Quatro deputados estaduais do Rio de Janeiro, num estado que tem milícia em bairro, esgoto a céu aberto e índice de homicídio que envergonha estatística, se reuniram pra votar uma declaração simbólica contra um comediante de São Paulo.
Aprovaram. Por quatro votos a dois.
A milícia não acabou. O esgoto continua aberto. O transporte continua ruim.
Mas agora o estado do Rio de Janeiro oficialmente desaprova Fábio Porchat.
O crime organizado carioca deve estar AR-RA-SA-DO.
