
Eu não entendo nada de futebol. Não gosto, não acompanho, sou completamente ignorante no assunto. Dito isso, assisti à convocação da seleção para a Copa e saí com uma sensação estranha: tristeza.
Tinha show do Dilsinho cantando uma versão comportada e sem emoção de “É Uma Partida de Futebol”, do Skank. Tinha apresentação de PowerPoint. Tinha plateia morna. E tinha uma ovação quando o nome de Neymar foi pronunciado, como se o simples fato de ele existir já fosse motivo de alívio.
Fiz muitos eventos corporativos fazendo stand-up. Existe uma diferença clara entre dois tipos.
No primeiro, a empresa comemora junto com os funcionários. Todo mundo já está feliz porque as metas foram batidas, e meu trabalho é só não estragar o clima.
No segundo, a empresa precisa convencer as pessoas de que tudo vai bem quando todo mundo no salão já sabe que não vai. É um grande teatro. E eu tenho a missão quase impossível de animar um público que já sabe o que vai acontecer quando sair dali.
A convocação pareceu o segundo tipo.
Nem a música do Dilsinho animou ninguém. Carlo Ancelotti mal sorria. Transparecia a preocupação de quem sabe que vai ter que mover uma montanha nos próximos meses.
Nas outras Copas, mesmo sem acompanhar futebol, eu sabia quem eram os jogadores. Dessa seleção, conheço o Neymar e o Vinícius Júnior.
E talvez isso diga mais sobre a seleção do que sobre mim.
Percebi que conheço mais o personagem público do Vini Jr. do que o jogador. Conheço a luta contra o racismo. Conheço a celebridade. Conheço até o namoro com Virginia Fonseca. Mas não conheço a conexão emocional que outras gerações da seleção pareciam provocar até em quem não gostava de futebol.
Por isso, a convocação do Neymar me parece menos sobre futebol e mais sobre narrativa.
Talvez ele tenha sido convocado puramente por critérios técnicos. Mas a velocidade com que sua imagem foi ativada comercialmente revela outra coisa: a seleção hoje parece precisar desesperadamente de um rosto.
Minutos após o anúncio, Neymar já aparecia como garoto-propaganda de patrocinadores. E tudo parecia perfeitamente encaixado. Como se a convocação não fosse apenas esportiva, mas também o lançamento de uma temporada.
Sem protagonista, não há história.
E sem história, pessoas como eu nem olham pra seleção.
Existe até uma narrativa sedutora nisso tudo: o herói desacreditado voltando para tentar salvar uma geração inteira. Se der certo, vira documentário pronto. O último capítulo da jornada do herói.
Mas a atmosfera da convocação parecia dizer outra coisa.
Não parecia confiança. Pareceu só esperança forçada.
E acho que esse é o ponto que mais me incomodou.
Não é a seleção perder. O Brasil já perdeu outras vezes. Mas antes existia uma sensação de grandeza natural. O time podia fracassar, mas ninguém precisava montar uma cerimônia quase corporativa para convencer o país de que ainda existia uma seleção brasileira.
Dessa vez, tudo parecia embalado como lançamento de produto.
A apresentação, a música, a tentativa de criar um clima épico e a necessidade de transformar um jogador em símbolo de redenção nacional.
Toda aquela encenação parecia existir para gerar dois segundos de autoestima coletiva. Para movimentar patrocinadores, redes sociais, programas esportivos e textos como este.
E talvez seja exatamente isso que tenha deixado tudo tão melancólico.
Porque, pela primeira vez, a seleção brasileira não me pareceu um time. Pareceu uma marca tentando recuperar relevância.
Espero sinceramente que a minha ignorância no assunto me faça estar errado.
