
Thallita Xavier, a chef da periferia que desafiou a internet falando de veganismo
“Mais um dia no barraco”. É com essa frase e amarrando um lenço na cabeça que a chef de cozinha Thallita Xavier abre os vídeos que popularizaram sua cozinha nas redes sociais. Entre panelas, piadas e receitas, a influenciadora carioca conquistou mais de 800 mil seguidores ao falar sobre alimentação vegana sem glamourizar a realidade — e sem esconder de onde veio.
Thallita é a terceira entrevistada da série “Influência de Cria”, que está no GloboPop, o novo aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, disponível gratuitamente no seu celular. Lá no app, você pode seguir o palco do “Influência de Cria” para não perder nenhum episódio. Baixe o GloboPop.
Em um país onde mais de 6 milhões de pessoas convivem com insegurança alimentar, segundo o IBGE, Thallita usa o humor para questionar a ideia de que o veganismo é privilégio da elite.
“Isso não é coisa de rico. Por que só o rico pode ter acesso?”
Criada entre Campinho, Madureira, Cascadura e Campo Grande, na Zona Norte do Rio, Thallita cresceu cercada pela cultura suburbana e pela convivência com famílias negras e de baixa renda — experiência que hoje influencia diretamente a linguagem que construiu na internet.
Chef de cozinha, atriz, palhaça profissional e comunicadora desde os tempos dos blogs, ela diz que passou anos planejando o formato dos vídeos que hoje viralizam nas redes.
Thallita Xavier
Arte g1
O boom dela com as redes sociais foi justamente roteirizando, filmando e publicando os vídeos que ela tanto planejou e demorou a fazer ao longo dos anos. Antes disso, ela mostrava seus trabalhos artísticos no Instagram e publicava artigos de opinião e textos em um blog com a prima.
O “Mais um dia no barraco” nasceu como um projeto pensado para criar conexão imediata com o público. “Eu queria um nome que funcionasse quase como um chamamento.”
Nos vídeos gravados em sua casa, em Piedade, também no subúrbio carioca, Thallita mistura culinária, humor e comentários sobre consumo, desigualdade e pertencimento. O deboche virou ferramenta narrativa — e também política.
“Eu comecei a debochar para as pessoas entenderem que eu também sou merecedora das coisas.”
Confira abaixo a entrevista completa:
Como foram sua infância e sua adolescência?
“Eu nasci e cresci no subúrbio do Rio. Nasci em Campinho — existe até uma disputa territorial ali: meu pai diz que é Campinho, minha mãe diz que é Madureira. Mas fui criada entre Campo Grande, Cascadura, Madureira e também passei um tempo morando em Niterói. Hoje estou de volta ao subúrbio do Rio.
Mas, da minha infância, eu tenho muitas memórias de sempre estar em lugares com um fluxo de pessoas pobres e pretas muito grande. Madureira, Cascadura, Campo Grande eram bairros onde a maioria das pessoas era negra e de baixa renda.
Eu estudei em escola particular, mas diferente do imaginário que muita gente tem sobre esse ambiente, quase todos os meus colegas eram negros. Também tive muitos professores negros. Sei que essa não é uma realidade comum para muita gente. Então, ter crescido nesses bairros do subúrbio me deu uma identidade racial e social muito forte.”
Quais eram as suas referências nesse período da vida?
“Eu sempre tive uma queda por coisas artísticas. Tinha um primo na família, infelizmente já falecido, que era bailarino, coreógrafo e depois virou cineasta. Eu sempre fiquei muito encantada com ele: uma pessoa preta e que vivia de arte.
Então, eu confesso que, de todas as pessoas da família com profissões admiráveis — tenho tia enfermeira, advogada, militar, gente da aeronáutica — quem mais me despertava curiosidade era esse primo.
Thallita Xavier
Divulgação
Foi ali que eu entendi que tinha um pezinho na arte, que queria ser atriz. Mais tarde percebi também que queria ser palhaça e trabalhar com circo.
Então, ele foi um dos meus maiores exemplos dentro da família. E, na TV, o que mais me encantava era o entretenimento. Lembro de gostar muito de Rouge, sabe? De acompanhar o reality para saber quem viraria popstar e de achar muito interessante ter duas participantes negras.”
Quando você começou na internet?
“Eu trabalho com internet desde 2008. Tinha um blog com a minha prima — sou blogueira raiz mesmo. Hoje muita gente nem sabe mais o que é um blog.
Sempre tivemos vontade de comunicar as coisas que gostávamos e pensávamos. A gente era muito dedicada.
Mas foi por volta de 2015, quando me tornei vegetariana, que comecei a falar mais sobre meu estilo de vida e sobre como era ser vegetariana tendo pouco dinheiro. A partir daí comecei a criar uma rede de pessoas que gostavam de acompanhar o que eu tinha para dizer. Eu escrevia muitos textos e fazia muitas críticas sociais.
Lembro até que fui parar no ‘Encontro com Fátima Bernardes’ por causa disso. As pessoas realmente gostavam do que eu comunicava.
Até que um dia decidi criar a série de vídeos que faço até hoje. Eles viralizaram e me deram um público muito maior do que eu tinha.”
Seu conteúdo hoje é sobre comida, principalmente. Isso sempre fez parte da sua vida?
“Eu comecei a cozinhar por necessidade. Precisava me manter na faculdade e comecei a fazer marmitas.
As pessoas sempre perguntam se puxei alguém da família ou se eu e minha mãe gostávamos de cozinhar, mas a verdade é que as mulheres da minha família detestam cozinhar. Não tive uma inspiração familiar nisso.
Thallita Xavier
Divulgação
Minha prima comentou outro dia que talvez um tataravô nosso fosse cozinheiro, mas a gente nunca conseguiu confirmar essa história. Então não sei de onde vem esse DNA. O que eu sei é que a necessidade me moldou.
Apesar de estudar em faculdade pública, o acesso era difícil porque eu morava em outro município e não tinha transporte gratuito. Eu precisava me virar. Cheguei a morar em Copacabana, perto da faculdade, em um quartinho de empregada de uma conhecida. Pagava meu aluguel assim e fazia o que dava para sobreviver.
Foi nesse processo que descobri que não cozinhava só por necessidade: eu gostava muito daquilo. E eu sempre gostei de trabalhar.”
Como você formulou esse modelo de perfil na rede social que você tem hoje?
“Passei muitos anos pesquisando o que queria fazer na internet porque, para mim, produzir vídeo era algo muito sério.
Todo conteúdo que eu fazia sempre foi pensado com muito carinho e cuidado, mas eu sentia que o audiovisual exigia ainda mais atenção. Tinha medo de produzir algo de que eu não gostasse do resultado.
Depois de pesquisar muito e entender minhas referências, comecei a criar vídeos mostrando a minha cozinha de casa. Essa sempre foi a ideia.
Também precisei entender que eu não precisava ter uma imagem perfeita ou um celular de última geração para fazer um trabalho sério. Eu podia não ter a câmera ideal, mas não queria fazer qualquer coisa.”
Como foi o retorno do público depois que você começou a postar vídeos?
“Desde o primeiro dia em que postei essa série de vídeos, o movimento foi muito intenso. Ganhei muitos seguidores da noite para o dia, mas seguidores fiéis.
Não eram pessoas que chegavam por causa de um vídeo viral e depois sumiam. Elas interagiam, cobravam vídeos novos e acompanhavam de verdade o meu trabalho.
Até hoje eu recebo muitas mensagens de mães de crianças autistas dizendo que os vídeos ajudam filhos que têm seletividade alimentar. Nunca imaginei que meu conteúdo pudesse ajudar nesse sentido.
Antes disso, eu tinha uma base de cerca de 20 mil seguidores, construída aos poucos. Quando comecei a postar os vídeos, minha intenção era manter aquela comunidade. Eu nem pensava em crescer mais.
Mas a vida me presenteou com essa loucura que foi ganhar seguidores freneticamente. Eu saí de 20 mil para 150 mil seguidores quase da noite para o dia.”
Thallita Xavier
Divulgação
Você tem algum jargão ou algo que sempre fale?
“O principal conteúdo que faço hoje é o quadro ‘Mais um dia no barraco’. Foi um projeto que estudei durante anos antes de tirar do papel.
Pensei muito no nome porque queria criar uma identificação imediata com as pessoas, quase como um chamamento.
Como também escrevo espetáculos de circo, eu já tinha essa preocupação com roteiro e linguagem. Muitos dos jargões surgiram justamente para resolver questões de ritmo e identificação dentro dos vídeos.”
Você leva a sua militância para dentro do seu conteúdo?
“Então, como eu poderia fazer a diferença com isso? Como que eu podia, de certa maneira, fazer as pessoas se identificarem com essa pessoa que não tinha o estereótipo que eles acham que consome material orgânico, mas que é a favor do consumo de orgânicos. Então eu comecei a debochar, eu comecei a usar essa linguagem do deboche para as pessoas entenderem que eu também sou merecedora das coisas.
Existe essa ideia de que comida saudável não é coisa de pobre, que é coisa de rico. Mas por que só o rico pode ter acesso?
Exatamente o preconceito de achar que você não pode comprar aquilo, sendo que se a gente for parar pra pensar, mesmo a gente não tendo muitas condições, às vezes a gente prioriza alguma coisa na nossa vida. Então às vezes a gente mora em favela, mas a gente tem um monte de tênis colecionável de um certo jogador de basquete.
Às vezes a gente tem uma prioridade, às vezes a gente tem realmente um motivo que faz a gente querer gastar. E eu acho que o meu motivo que faz eu querer gastar é a comida que eu amo comer. E isso não é porque eu sou rica, é porque eu me permiti mesmo e daqui a pouco o cartão de crédito vai chorar e tá tudo bem.”
Você vive da criação de conteúdo?
“Hoje eu posso dizer com tranquilidade que o conteúdo não só me sustenta, como ele também financia todos os meus projetos atuais. Então eu tenho um buffet de culinária 100% vegetal. Já tenho o Banana Buffet há mais de dez anos e é graças ao conteúdo que eu faço na internet que eu consigo também gerar alguns investimentos para ele. Então eu consigo ser minha própria investidora.
Então, muitos equipamentos que eu investi para conseguir ter no buffet, muitas das coisas da estrutura do buffet foram financiadas com o dinheiro de publicidade que eu acabo conseguindo por conta do trabalho que eu faço na internet. Então, definitivamente hoje eu tenho uma vida mais confortável, quero que ela seja mais ainda. Eu acho que é o sonho de todo mundo, mas quando eu olho para a Thallita de dez anos atrás, eu vejo o quanto o trabalho que eu faço na internet me ajuda muito a ter orgulho de onde eu consegui chegar, das coisas que eu consegui fazer.”
Como é o seu processo de criação na internet?
“O meu processo de criação às vezes deixa as pessoas um pouco malucas porque eu sinto que a internet, o trabalho que a gente faz na internet é um campo novo que está sendo explorado. Então ele não é exatamente a mesma receita do que se faz, por exemplo, quando você está gravando uma novela, um filme, mas ao mesmo tempo não deixa de ter a seriedade que algumas pessoas acham que a internet não tem, porque as pessoas tendem a achar que os conteúdos da internet sempre são feitos assim, meio de qualquer jeito. E não é assim que a internet funciona.
Então, o meu conteúdo em específico eu gosto de dizer, por exemplo, que a minha cozinha é um set de filmagem mas ela também é minha cozinha, então nada daqui é cenográfico, mas ao mesmo tempo não é, e isso é uma coisa muito difícil de se explicar.
É uma cozinha que eu vou acordar todo dia, olhar e eu não posso enjoar dela. Então eu tenho o grande desafio que é trabalhar e conviver no mesmo lugar. Então cada pedacinho da minha cozinha, ela precisa ser set e ao mesmo tempo convivência.
E eu basicamente gravo coisas que eu vou comer, então é um prato do dia que vira conteúdo mas também é comida.
E como eu gosto também de trabalhar com a comédia, principalmente por ser palhaça profissional também, eu tenho DRT. E eu acho que por conta disso, por conta de trabalhar com isso, eu levo muito a sério a comédia. Eu levo muito a sério cada pedacinho cômico que vai ter nos vídeos.”
Thallita Xavier
Divulgação
Qual era sua estrutura quando você começou a postar os vídeos?
“Quando eu comecei a fazer os vídeos na minha antiga casa, eu queria muito criar essa identidade com o público, porque a verdade é que eu tinha um monte de referência de Pinterest e simplesmente não tinha como executar. Então tinha uma pia incrível que eu não tinha.
Tinha azulejos incríveis que eu não tinha, tinha prateleiras incríveis que eu não tinha e aí eu comecei a usar isso a meu favor. Então, ao invés de achar que não dava para produzir porque eu não tinha o cenário ideal, eu criei essa identidade com as pessoas que foi ‘essa minha casa é parecida com a sua casa e se não é parecida com a sua casa, eu estou mostrando que, pelo menos na minha simplicidade aqui, eu também estou fazendo esse trabalho super legal.”
Você se sente uma inspiração para outras pessoas?
“Eu acho que caiu a ficha para mim no ano passado, quando eu estava num parque de diversão com o meu irmão, desses que tem aqueles brinquedos de quase morte que você sai maluca assim. E aí uma criança saiu de um brinquedo, eu acho que ele devia ter uns oito anos. Ele saiu do brinquedo todo educadinho e falou comigo ‘você é aquela moça do TikTok, não é?’.
Ele falou assim: ‘Eu queria te agradecer muito, porque os seus vídeos me inspiram e o meu sonho é ser cozinheiro’. E eu achei aquilo tão curioso, porque geralmente quando as pessoas param na rua para falar que adoram os vídeos de forma genérica.
E esse menininho falou que o sonho dele era ser cozinheiro, era ser chef de cozinha e o quanto que eu inspirava ele a isso. E aí eu entendi também a minha responsabilidade e essa responsabilidade de que tudo que você faz, as pessoas estão observando e elas têm uma expectativa sobre isso. Então, do quão é importante também a gente ter um comportamento que não decepcione as pessoas.”
Como foi a decisão de sair de uma área mais periférica?
“Eu acho que todo mundo pensa em ter condições melhores de vida. Então eu acho que a partir do momento em que a gente consegue proporcionar isso, a gente corre atrás e eu tinha muitas coisas boas na antiga casa em que eu morava. Mas, eu tinha muitos problemas também estruturais, e tem muitos estudos, inclusive científicos, que comprovam o quanto o mofo, por exemplo, afeta na nossa saúde mental. Mas eu acho que a partir do momento em que a gente consegue minimamente mudar essa realidade, que esse primeiro passo seja dado. Então, uma das minhas maiores preocupações, por exemplo, era ir para uma casa que eu pudesse olhar e não achasse infiltração, por exemplo.
Então, eu também me mudei muito com esse objetivo de ter condições melhores de vida, mas também entendendo a minha realidade, que não dava para ir para o lugar dos sonhos ainda, como uma mansão. Mas, dentro da minha realidade, essa é a minha mansão de hoje.
Então, eu acho que esse é o motivo principal que as pessoas acabam saindo das favelas. E o motivo principal pelo qual algumas pessoas ficam é justamente a comunidade. Quando você tem pessoas que acabam justificando o motivo para você fazer esse esforço de continuar um lugar que não te dá tanta qualidade de vida.
E no meu caso, eu não tinha essas pessoas, muito pelo contrário, tinha vizinhos insuportáveis que jogavam lixo no lugar errado e me deixavam possessa da vida. Então eu saí apenas dando um tchauzinho e vida nova e tudo certo.”
