Polícia investiga contrato de R$ 108 milhões de wi-fi da Prefeitura de SP com ONG ligada a filme sobre Bolsonaro


Os pontos de wi-fi gratuitos instalados pela Instituto Conhecer Brasil na periferia de São Paulo.
Reprodução/PMSP
A Polícia Civil de São Paulo abriu um inquérito para investigar a ONG Instituto Conhecer Brasil por supostas irregularidades em um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para a instalação de 5 mil pontos de wi-fi gratuito na periferia, pelo prazo de 12 meses.
A proprietária da ONG, Karina Ferreira da Gama, também comanda a produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme “Dark Horse” (“Azarão”, em português), sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. As duas empresas funcionam no mesmo endereço, na Avenida Paulista, região central da capital. (Entenda mais abaixo.)
O produtor-executivo e roteirista do filme é o deputado federal Mário Frias, que destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao instituto.
A investigação contra a ONG foi aberta a pedido do Ministério Público de São Paulo, após denúncia apresentada por um diretório do Partido dos Trabalhadores de Sapucaia do Sul, no interior do estado.
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Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), o caso é investigado pela 2ª Delegacia da Divisão de Investigações sobre Crimes contra a Administração do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC).
“A investigação apura os crimes de frustração do caráter competitivo de procedimento licitatório, fraude na execução de contrato administrativo e emprego irregular de verbas ou rendas públicas envolvendo a Prefeitura de São Paulo. Diligências estão sendo adotadas para o total esclarecimento dos fatos”, informou a pasta, em nota.
O g1 também procurou a ONG Instituto Conhecer Brasil e a empresária Karina Gama para comentarem o inquérito do MP, mas não recebeu retorno até a última atualização dessa reportagem.
Procurada, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia informou que a contratação foi realizada por meio de chamamento público transparente e sem contestações. Sobre o inquérito, a pasta diz que respondeu, dentro do prazo, a todos os questionamentos do inquérito mencionado, ainda em janeiro deste ano: “Até o momento, não houve novas solicitações do Ministério Público à Pasta.” (Leia mais abaixo.)
Ministério Público
Nessa semana, o promotor Ricardo de Barros Leonel, da Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social, instarou um inquérito após denúncia do vereador Nabil Bonduki (PT). A investigação corre sob sigilo no órgão.

Segundo o vereador petista, há indícios de irregularidades no chamamento público e na execução do contrato pela empresa de Karina Gama.
Endereço das duas empresas que pertencem à empresária Karina Gama.
Reprodução/TV Globo
O vereador argumenta que o chamamento público teria tido apenas uma participante, o próprio Instituto Conhecer Brasil, e questiona a ausência de concorrência, levantando suspeitas sobre possível direcionamento do processo licitatório. Ele também aponta indícios de um suposto superfaturamento de mais de R$ 27 milhões no valor do contrato.
Em seu site oficial, a ONG se descreve como entidade de “organização e execução de projetos de educação, cultura, turismo, pesquisa e tecnologia”, possuindo expertise no planejamento, coordenação e execução de eventos de grande repercussão nacionais e internacionais”.
A descrição não faz nenhuma menção à experiência na instalação de equipamentos de telecomunicações ou redes de internet e wi-fi público.
A denúncia também foi feita pelo site The Intercept Brasil, que também revelou os áudios do senador Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar o filme.
Descrição do site do Instituto Conhecer Brasil, contratado pela gestão Ricardo Nunes (MDB) para instalar wi-fi na periferia de São Paulo.
Reprodução/Instituto Conhecer Brasil
O prazo final de entrega dos 5 mil pontos instalados em favelas e periferias da cidade de São Paulo era junho de 2025, mas até a presente data, a própria prefeitura admitiu que o contrato não havia sido finalizado, instalando apenas 3.200 pontos.
Segundo a apuração do g1, ao menos três aditivos contratuais já foram assinados entre a ONG e a secretaria, mudando as datas de entrega total do serviço.
De acordo com o promotor Ricardo de Barros Leonel, apesar dea secretaria já ter prestado informações iniciais sobre o contrato ao MP-SP e já haver uma investigação do contrato no Tribunal de Contas do Município (TCM), “mostra-se necessário o aprofundamento da apuração, a fim de verificar a eventual ocorrência de atos de improbidade administrativa, enriquecimento ilícito e danos ao erário”.
Cronograma inicial de instalação das redes de wi-fi em São Paulo, segundo o contrato firmado entre a ONG e a Prefeitura de São Paulo.
Reprodução/PMSP
O que dizem as partes
A Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia diz que a empresa vai instalar os outros 1.800 pontos até o final de 2026.
“Como já informado ao Intercept no ano passado, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) também informa à TV Globo que a contratação do Instituto Conhecer Brasil para a instalação de 5 mil pontos do WiFi Livre na cidade foi realizada por meio de chamamento público transparente e sem contestações. Todo o processo é público e pode ser consultado”, disse a pasta.
“A organização social cumpriu todas as exigências previstas no edital, e a prestação do serviço está em andamento com 3.200 pontos de Wi-Fi implementados e 1.800 pontos previstos para 2026”, declarou a gestão Nunes.
O vereador Nabil Bonduki (PT) e o prefeito Ricardo Nunes (MDB).
Montagem/g1/Juliana Hipólito/Rede Câmara e Fernando Frazão/Agência Brasil
Filme sobre Jair Bolsonaro
O Instituto Conhecer Brasil (ICB) tem como única sócia a empresária Karina Ferreira Gama, que também é sócia única da empresa Go Up Entertainment LTDA, produtora do filme. As duas empresas funcionam no mesmo endereço, na Avenida Paulista, 807, sala 2315.
O IBC também recebeu R$ 2 milhões de emendas parlamentares do deputado federal Mário Frias, que é produtor executivo e roteirista do mesmo filme.
A destinação desse dinheiro é alvo de investigação no Supremo Tribunal Federal (STF), que deu mais um mês para que o parlamentar justifique o dinheiro enviado ao instituto da empresa parceira.
Nesta sexta-feira (15), o ministro Flávio Dino determinou a abertura de uma apuração preliminar para investigar supostas irregularidades na destinação dessas emendas parlamentares a um grupo de entidades ligadas a uma produtora cinematográfica do filme sobre Jair Bolsonaro.
A empresária Karina Ferreira Gama, dona da Go Up Entertainment LTDA e do Instituto Conhecer Brasil, que recebeu dinheiro do deputado Mário Frias (PL).
Reprodução/Redes Sociais
A medida foi tomada após pedidos apresentados pelos deputados Tabata Amaral (PSB-SP) e Pastor Henrique (PSOL-RJ) dentro de uma ação que contesta a destinação de emendas.
Os pedidos de apuração citam a existência de um “ecossistema” de pessoas jurídicas interconectadas que compartilham endereço, gestão e infraestrutura, sob o comando de Karina Ferreira da Gama.
Entre as entidades citadas, estão:
Instituto Conhecer Brasil (ICB)
Academia Nacional de Cultura (ANC)
Go Up Entertainment
Conhecer Brasil Assessoria
Detalhe do cartaz de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro com o ator Jim Caviezel.
Divulgação via BBC
As notas da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT):
“A Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) informa que respondeu, dentro do prazo, a todos os questionamentos do inquérito mencionado, ainda em janeiro deste ano. Até o momento, não houve novas solicitações do Ministério Público à Pasta”.
“A Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) informa que o procedimento instaurado pelo MP foi encerrado em janeiro de 2026 e não apontou problemas ou irregularidades na parceria com o Instituto Conhecer Brasil. Todos os questionamentos foram devidamente respondidos dentro do prazo. Vale destacar que ofícios requisitando informações são atos comuns e se prestam exatamente para a fiscalização das parcerias públicas”.

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