Navio perdido do famoso explorador Ernest Shackleton é finalmente encontrado no fundo do mar da Antártida após mais de cem anos de seu naufrágio

Um navio preso no gelo, abandonado pela tripulação e dado como perdido por mais de um século, voltou a aparecer quase intacto nas profundezas da Antártida. O Endurance, embarcação de Ernest Shackleton, foi localizado a 3.008 metros de profundidade no Mar de Weddell.

Como o navio Endurance foi encontrado após 107 anos no Mar de Weddell?

O casco do Endurance foi localizado em 5 de março de 2022, exatamente no dia do 101º aniversário do funeral de Sir Ernest Shackleton. A descoberta foi anunciada oficialmente em 9 de março de 2022 pelo Falklands Maritime Heritage Trust.

Segundo a cobertura da BBC, o naufrágio apareceu em estado notável, com o nome Endurance ainda legível na popa. As imagens revelaram mastros, madeira e detalhes estruturais preservados em uma área onde o gelo torna qualquer operação extremamente difícil.

Mapa em corte mostra o Endurance sob o gelo antártico

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Por que o navio de Shackleton afundou antes de chegar à Antártida?

O Endurance partiu da Ilha Geórgia do Sul em 5 de dezembro de 1914, levando Shackleton e 27 homens rumo a uma meta ambiciosa: cruzar a Antártida de costa a costa durante a Expedição Transantártica Imperial.

Conforme o registro histórico do Endurance na Wikipédia, a embarcação foi construída em 1912, em Sandefjord, na Noruega, e tinha três mastros. Mesmo projetado para operar em regiões polares, o navio não resistiu à pressão prolongada do gelo.

A sequência que transformou o naufrágio em uma das maiores histórias de sobrevivência polar envolveu decisões extremas e deslocamentos quase impossíveis:

  • A tripulação passou cerca de 5 meses no gelo derivante, usando os botes salva-vidas como última chance de deslocamento.
  • Em abril de 1916, os homens chegaram à Ilha Elefante, depois de 497 dias sem pisar em terra firme.
  • Shackleton e outros cinco homens navegaram cerca de 1.300 quilômetros no bote James Caird até a Geórgia do Sul.
  • Após cruzar os Montes Allardyce, o explorador alcançou a estação baleeira de Stromness em busca de resgate.
  • Em 30 de agosto de 1916, todos os 28 integrantes foram resgatados, sem perda de vidas humanas.
Endurance preso no gelo antes de afundar na Antártida

Como a expedição Endurance22 procurou o navio em gelo extremo?

A busca moderna foi conduzida pela expedição Endurance22, organizada e financiada pelo Falklands Maritime Heritage Trust. A operação usou o quebra-gelo sul-africano S.A. Agulhas II, sob liderança geral de John Shears e direção de exploração do arqueólogo naval Mensun Bound.

De acordo com a página de arqueologia marinha da Endurance22, a missão trabalhou com veículos híbridos Saab Sabertooth, capazes de operar de forma autônoma e também com conexão por cabo quando necessário. Eles foram essenciais para mapear o fundo do mar sem tocar no naufrágio.

Os principais dados da operação mostram por que localizar o casco exigiu precisão histórica, tecnologia submarina e uma janela rara de trabalho no gelo antártico:

Elemento da busca Dado verificado Importância para a descoberta
Área definida Cerca de 15 × 8 milhas náuticas Delimitou a região provável a partir das medições históricas
Cobertura realizada Mais de 80% da área Reduziu o risco de passar ao lado do naufrágio sem identificá-lo
Profundidade de operação Até 3.000 metros Permitiu alcançar o casco no fundo do Mar de Weddell
Distância do ponto estimado Cerca de 6,5 quilômetros a sul-sudeste Confirmou a precisão das medições feitas por Frank Worsley

A dimensão visual dessa procura ajuda a entender por que o caso se tornou referência em exploração polar. O canal History Brasil, com 5,26 milhões de inscritos, apresenta a expedição, os desafios do gelo antártico e a tecnologia usada para documentar o casco no fundo do mar:

Por que o navio permaneceu preservado no fundo da Antártida?

A conservação do Endurance surpreendeu porque madeira submersa costuma se degradar rapidamente em mares mais quentes. No Mar de Weddell, porém, a combinação de frio extremo, baixa atividade biológica e pouca sedimentação criou um ambiente de preservação raro.

Segundo o artigo publicado na Antarctic Science pela Cambridge University Press, as condições do assoalho marinho e do gelo no oeste do Mar de Weddell ajudam a explicar o cenário em torno do naufrágio.

A água próxima de −1,8 °C inibe boa parte da decomposição. Além disso, o molusco Teredo navalis, conhecido por destruir madeira submersa em mares temperados e tropicais, não encontra ali condições favoráveis para sobreviver.

O que impede qualquer retirada do naufrágio?

O Endurance é protegido como Monumento Histórico e Sítio Protegido dentro do Sistema do Tratado da Antártida. Isso impede remoção, coleta de amostras, perfuração ou qualquer interferência direta no casco e no campo de destroços.

Por isso, a expedição seguiu uma política de não-contato. Os veículos Saab Sabertooth registraram imagens e dados para gerar um modelo 3D fotogramétrico, mas não carregavam equipamentos de coleta ou manipulação.

O Endurance preserva mais que a história de uma expedição polar

A redescoberta do Endurance une três camadas raras em um mesmo achado: a ambição das expedições polares do início do século XX, a sobrevivência completa da tripulação e a arqueologia submarina de alta precisão em um dos mares mais hostis do planeta.

O casco intacto no fundo da Antártida mostra que o naufrágio não é apenas vestígio de uma tragédia evitada. Ele se tornou uma cápsula histórica preservada pelo frio, pelo isolamento e pela decisão de observar sem tocar.

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