Quem é Raúl Castro, o último grande símbolo da Revolução Cubana que está na mira dos Estados Unidos


Raúl Castro ao lado de Che Guevara em 1964
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Com o indiciamento criminal de Raúl Castro, os Estados Unidos colocam sob sua mira a figura mais importante do regime cubano nas últimas décadas.
O antigo combatente da Revolução, ministro das Forças Armadas por quase meio século, sucessor de seu irmão Fidel e arquiteto das maiores reformas do regime comunista, enfrenta agora, aos 94 anos, um processo judicial no país vizinho com consequências imprevisíveis.
A Justiça dos Estados Unidos atribui a Castro um papel central na derrubada de duas aeronaves da organização de exilados Hermanos al Rescate em 24 de fevereiro de 1996, um episódio que deixou quatro mortos e abriu uma das maiores crises nas relações entre Cuba e Estados Unidos.
Nesta quarta-feira (20/5), o governo dos EUA indiciou o ex-presidente cubano por quatro assassinatos, além de conspiração para matar cidadãos americanos e destruição de aeronaves.
Raúl Castro comandava as Forças Armadas de Cuba quando dois caças da Força Aérea derrubaram as aeronaves da organização Hermanos al Rescate em 1996
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Figura crucial
O caso ganha grande relevância não apenas pelo precedente da captura de Nicolás Maduro na Venezuela em janeiro, mas também pelo papel central do general do Exército Raúl Castro na história contemporânea de Cuba.
Sempre à sombra de seu irmão Fidel, foi uma figura crucial dentro do aparato militar e de inteligência do regime até assumir formalmente o poder em 2008 e governar o país por uma década.
Embora tenha deixado a presidência para Miguel Díaz-Canel em 2018 e, três anos depois, a direção do Partido Comunista, analistas acreditam que ele continua sendo o homem mais poderoso na estrutura de poder cubana.
Além disso, a possibilidade de um processo judicial contra ele chega em um dos momentos mais delicados para a ilha em décadas.
Cuba atravessa uma crise econômica e energética extrema, com apagões e escassez de combustível, agravada por medidas de pressão do governo de Donald Trump nos Estados Unidos.
Por outro lado, autoridades norte-americanas e cubanas, entre elas figuras próximas a Raúl Castro, mantiveram reuniões discretas em Havana para tratar do futuro incerto da ilha.
Aos 94 anos, o dirigente se destaca por ter mantido uma vida familiar tradicional, ao contrário de seu irmão Fidel, conhecido por suas inúmeras e secretas relações amorosas.
Raúl Castro foi casado com Vilma Espín, revolucionária que conheceu na guerrilha que derrubou o regime de Fulgencio Batista, em 1959, e que morreu de câncer em 2007.
O casal teve quatro filhos, entre eles Mariela Castro Espín — deputada da Assembleia Nacional do Poder Popular e diretora do Centro Nacional de Educação Sexual (CENESEX) — e Alejandro Castro Espín, diretor de inteligência e contrainteligência da Segurança do Estado.
Vilma Espín e Raúl Castro em 1998
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Diante do amplo imaginário visual revolucionário de Fidel e Che Guevara, Raúl Castro cultivou uma imagem mais discreta, pragmática e militar, sem concentrar um culto massivo à personalidade.
Apesar disso, é comum ver seu retrato pendurado na parede — quase sempre junto ao de Fidel — em repartições de órgãos públicos cubanos.
Analisamos quem é Raúl Castro e sua relevância crucial na história e no presente de Cuba.
O presidente das reformas e do degelo (2008-2018)
Embora tenha participado desde muito jovem da luta revolucionária ao lado de Fidel e Ernesto “Che” Guevara, e durante décadas tenha desempenhado um papel-chave dentro do aparato militar cubano, Raúl Castro alcançou seu maior protagonismo após assumir o poder entre 2006 e 2008.
Ele herdou a presidência de forma provisória em 2006, depois de seu irmão adoecer gravemente, e dois anos mais tarde foi oficialmente designado presidente de Cuba.
Diferentemente do estilo carismático e ideológico de Fidel Castro, o irmão mais novo projetou uma imagem mais pragmática e menos voltada a discursos grandiloquentes.
Durante seu mandato, impulsionou reformas econômicas que, embora bastante limitadas, foram as mais significativas desde o colapso da União Soviética.
Seu governo ampliou o espaço para pequenos negócios privados, autorizou a compra e venda de imóveis e automóveis, flexibilizou algumas restrições migratórias e promoveu tímidas aberturas ao mercado.
Também reduziu parte do enorme aparato estatal cubano e incentivou novas formas de trabalho por conta própria.
No entanto, as reformas coexistiram com a manutenção do sistema político de partido único instaurado após a revolução de 1959.
Sob o comando de Raúl Castro, organizações internacionais de direitos humanos continuaram denunciando a falta de liberdade de expressão e de direitos civis e políticos, além da repressão a opositores.
O momento mais marcante de sua presidência ocorreu em 2014, quando anunciou, ao lado do então presidente americano Barack Obama, o início do histórico degelo diplomático entre Cuba e Estados Unidos após mais de meio século de hostilidade.
Raúl Castro e Barack Obama, em um dos seus encontros em 2015 na sede da ONU em Nova York
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Aquele histórico entendimento entre os dois presidentes permitiu a reabertura de embaixadas, o aumento de viagens e contatos entre os países e a visita de Obama a Havana em 2016, um fato sem precedentes desde a Revolução de 1959.
Quando Fidel Castro morreu em 2016, Raúl liderou a despedida oficial do líder cubano: anunciou sua morte na televisão, organizou os funerais de Estado e prometeu defender a continuidade do sistema socialista.
Em relação ao degelo, muitas das expectativas de abertura econômica e política acabaram limitadas, e parte do processo começou a ser revertido com a chegada de Donald Trump à Casa Branca em 2017, um ano antes da transferência de poder de Castro para Miguel Díaz-Canel.
Raúl Castro em 1959, pouco depois do sucesso da Revolução que deu origem ao sistema socialista liderado por seu irmão Fidel
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O companheiro de luta de Fidel e Che Guevara
Raúl Castro nasceu em 3 de junho de 1931 em Birán, na região leste de Cuba, no seio de uma família abastada formada pelo imigrante galego Ángel Castro e Lina Ruz.
Assim como seu irmão Fidel, estudou em colégios religiosos em Santiago de Cuba antes de se mudar para Havana para continuar sua formação universitária.
No final dos anos 1940 e início dos anos 1950, vinculou-se a movimentos de protesto contra os governos de Carlos Prío Socarrás e, posteriormente, contra a ditadura de Fulgencio Batista (1952–58).
Diferentemente de Fidel, cuja formação política esteve inicialmente mais ligada ao nacionalismo cubano, Raúl desenvolveu cedo simpatias pelo socialismo soviético.
Ingressou na Juventude do Partido Socialista Popular e participou de encontros juvenis organizados na Europa Oriental, experiências que influenciaram decisivamente sua visão política, segundo historiadores e fontes próximas.
Sua entrada definitiva na luta revolucionária ocorreu em 1953, quando se somou ao movimento armado liderado por Fidel Castro contra Batista.
Raúl Castro (ao centro, agachado) junto ao irmão Fidel e outros guerrilheiros que derrubaram o regime de Batista
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Com apenas 22 anos, Raúl participou do ataque ao quartel Moncada, em Santiago de Cuba, uma operação fracassada que, apesar de terminar com dezenas de mortos e com a prisão dos irmãos Castro, se transformaria depois em um dos principais eventos fundadores da Revolução cubana.
Após ser beneficiado por uma anistia em 1956, Raúl se mudou junto com Fidel para o México, onde participou da preparação da expedição do iate Granma ao lado de outros exilados e do argentino Ernesto “Che” Guevara.
O desembarque do Granma em Cuba marcou o início da guerrilha da Sierra Maestra, que culminaria na queda de Batista e no sucesso da Revolução em 1º de janeiro de 1959.
O general à sombra de Fidel
Raúl Castro se tornou, rapidamente, uma das figuras mais poderosas do novo regime liderado por seu irmão Fidel a partir de 1959.
Nesse mesmo ano, foi nomeado ministro das Forças Armadas Revolucionárias, cargo que ocuparia por quase meio século e a partir do qual consolidou um dos aparatos militares e de inteligência mais sólidos da América Latina.
Especialistas o apontam como o responsável, naquela época, por garantir a estabilidade interna do sistema e por atuar como braço direito de Fidel Castro.
Diferentemente da projeção internacional e da liderança carismática de seu irmão, Raúl manteve um perfil mais discreto, centrado no controle das Forças Armadas e na organização do Estado.
Raúl e Fidel Castro em 1978.
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Nas primeiras décadas do novo sistema, Raúl Castro desempenhou um papel crucial, segundo especialistas, na consolidação da aliança com a União Soviética e na construção do modelo político cubano inspirado nos regimes socialistas do bloco oriental.
Durante anos foi apontado por exilados e organizações de direitos humanos como uma das figuras mais duras, a quem não faltava firmeza ao reprimir ou eliminar aqueles que considerasse inimigos da Revolução.
Com Raúl Castro à frente das Forças Armadas, em 24 de fevereiro de 1996, caças cubanos derrubaram duas aeronaves da organização de exilados Hermanos al Rescate, que sobrevoavam águas próximas a Cuba para auxiliar balseiros que fugiam pelo mar em direção aos Estados Unidos.
O ataque militar às aeronaves causou a morte de quatro pessoas.
Enquanto o governo cubano alegou que elas haviam violado o espaço aéreo da ilha, investigações internacionais concluíram que foram abatidas em espaço aéreo internacional, provocando uma grave crise diplomática entre Cuba e Estados Unidos.
Carlos Costa, que pilotava uma das aeronaves foi um dos quatro ativistas que morreram no ataque
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O indiciamento anunciado por Washington se refere a esse episódio.
Gravações históricas reveladas há anos por meios de comunicação dos Estados Unidos registram a voz de Raúl Castro que aparentemente ordena agir contra as aeronaves, incluindo frases como “derrubem as aeronaves”.
Essas provas podem ser cruciais no processo.
Seu poder após a aposentadoria
Apesar de ter cedido formalmente a presidência a Miguel Díaz-Canel em 2018, o mais novo dos irmãos Castro continuou sendo o primeiro-secretário do Partido Comunista de Cuba, o cargo de maior poder dentro do regime.
Quando, em 2021, também transferiu essa função a Díaz-Canel, as autoridades cubanas apresentaram o gesto como o encerramento simbólico da geração histórica da Revolução que governa o país desde 1959.
Ainda assim, especialistas afirmam que Raúl continuou exercendo grande influência sobre as decisões estratégicas do Estado, especialmente em temas militares, de segurança e nas relações com os Estados Unidos.
Após sua retirada oficial, ele seguiu aparecendo em eventos-chave do regime, como desfiles militares e comemorações revolucionárias, geralmente ao lado de Díaz-Canel e da cúpula do partido único.
Raúl Castro ao lado de Díaz-Canel durante desfile de 1 de maio de 2026
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Em 11 de julho de 2021 ocorreram as maiores manifestações antigovernamentais em mais de seis décadas na ilha, às quais o regime respondeu com milhares de detenções e prisões.
Embora Díaz-Canel tenha liderado publicamente a resposta oficial, as estruturas de segurança e controle político que durante décadas estiveram sob comando de Raúl Castro desempenharam, segundo especialistas, um papel decisivo.
Enquanto isso, Cuba entrava em sua maior crise desde a década de 1990.
O endurecimento das sanções dos Estados Unidos sob Donald Trump, o impacto econômico da pandemia, a queda do turismo e a crise energética agravaram a deterioração econômica e social que a ilha já vinha acumulando havia décadas e provocaram um êxodo massivo — o país chegou a perder até 20% de sua população, segundo estimativas.
Nesse contexto, o entorno familiar de Raúl Castro destacou-se como um dos principais núcleos de influência em Cuba: seu neto e guarda-costas Raúl Guillermo Rodríguez Castro, conhecido como “El Cangrejo”, foi mencionado por meios de comunicação dos Estados Unidos como um dos interlocutores nos recentes e discretos contatos entre Washington e Havana.
A última aparição pública de Castro ocorreu no tradicional desfile de 1º de Maio, quando, vestido com uniforme militar, acompanhou Díaz-Canel e outras figuras do regime cubano.
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