Líder Supremo diz que urânio enriquecido ficará no Irã

Mojtaba Khamenei, filho do falecido líder supremo do Irã, Ali KhameneiReprodução/redes sociais

O Irã decidiu que não vai retirar do país seu estoque de urânio enriquecido, hoje no centro das negociações para encerrar a guerra envolvendo Estados Unidos e Israel. A ordem partiu do líder supremo iraniano, aiatolá Mojtaba Khamenei, segundo duas fontes de alto escalão ouvidas pela Reuters.

O recado atinge diretamente uma exigência feita por Washington nas conversas de paz. Os americanos querem que o material enriquecido, considerado próximo do nível necessário para uso militar, seja enviado para fora do território iraniano. Israel pressiona pela mesma condição.

Em Teerã, a avaliação é outra.

Integrantes do governo iraniano passaram a defender que abrir mão desse estoque agora deixaria o país exposto demais caso os ataques recomecem. Há uma percepção crescente dentro da cúpula iraniana de que a trégua atual pode ser apenas temporária.

Trump volta a ameaçar novos ataques

O cessar-fogo firmado depois dos bombardeios de fevereiro não eliminou a ameaça de novos confrontos. Reduziu a intensidade da guerra, mas não a tensão.

Donald Trump voltou a falar em ataques nos últimos dias. Disse que os Estados Unidos podem agir novamente se o Irã não aceitar um acordo considerado satisfatório pela Casa Branca. Ao mesmo tempo, afirmou que ainda espera uma resposta definitiva de Teerã.

Do lado iraniano, o discurso endureceu.

O negociador Mohammad Baqer Qalibaf afirmou nesta quarta-feira que há sinais claros de preparação militar americana. Segundo ele, Washington faz movimentos “explícitos e ocultos” enquanto mantém as negociações abertas.

Estoque nuclear virou peça central da disputa

O impasse se concentra num ponto específico: o destino do urânio enriquecido a 60%.

Hoje, esse material representa a principal ferramenta de pressão do Irã na mesa de negociação. Também virou o principal temor de Israel.

A estimativa da Agência Internacional de Energia Atômica é que o Irã tivesse cerca de 440 quilos de urânio enriquecido nesse nível antes dos ataques lançados por EUA e Israel em junho de 2025. Para uso militar, o enriquecimento costuma avançar até perto de 90%.

Não existe clareza sobre quanto desse estoque permaneceu intacto após os bombardeios.

Parte do material estaria armazenada em estruturas subterrâneas do complexo nuclear de Isfahan. Outra parcela seguiria em Natanz, principal centro iraniano de enriquecimento de urânio.

O diretor-geral da agência, Rafael Grossi, afirmou meses atrás que inspetores ainda tentavam calcular os danos causados às instalações nucleares iranianas.

Israel sustenta há anos que o programa nuclear iraniano busca capacidade militar. O governo iraniano nega. Afirma que o enriquecimento atende programas civis, pesquisas médicas e um reator instalado em Teerã.

Negociação trava em exigência dos EUA

Antes da guerra, diplomatas iranianos chegaram a discutir a possibilidade de enviar parte do estoque ao exterior.

A hipótese perdeu força depois das ameaças feitas por Trump durante o conflito.

Agora, autoridades iranianas passaram a trabalhar com outra alternativa: reduzir parte do estoque sob fiscalização internacional, mas sem retirar o material do território nacional.

É justamente aí que as negociações travam.

Benjamin Netanyahu já afirmou que não considera o conflito encerrado enquanto o urânio enriquecido permanecer sob controle iraniano. Israel também exige limites permanentes ao programa de mísseis balísticos de Teerã e o fim do apoio iraniano a grupos armados aliados na região.

Enquanto isso, a guerra continua rondando a diplomacia.

Os Estados Unidos mantêm restrições econômicas contra o Irã. Teerã segue controlando o Estreito de Ormuz, rota estratégica para o mercado global de petróleo, que subiu mais de 4% desde o anúncio iraquiano. Cada ameaça feita de um lado produz reação imediata do outro.

E o acordo, por enquanto, continua distante.

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