
Drones e jatos militares dos EUA são observados perto de Cuba
CRÉDITO, SOPA IMAGES/LIGHTROCKET VIA GETTY IMAGES
As Forças Armadas dos Estados Unidos vêm transmitindo abertamente a localização de voos de vigilância militar perto de Cuba em websites de rastreamento de aviões, em meio ao aumento das pressões de Washington sobre a liderança comunista da ilha.
A manutenção dos transponders de voo ligados “é provavelmente deliberada”, segundo o especialista britânico em drones Steve Wright. Para ele, os Estados Unidos estariam tentando enviar “uma mensagem clara de que mantêm os olhos no céu para sustentar a pressão” sobre a ilha.
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Com base nos dados do website de rastreamento de voos Flightrar24, a BBC Verify (o departamento de verificação de dados e imagens das BBC) encontrou pelo menos cinco aviões de vigilância P-8A Poseidon da Marinha americana e três drones de vigilância MQ-4C Triton operando no mar do Caribe, perto de Cuba, desde o dia 11 de maio.
Algumas aeronaves chegaram a voar a até 80 km de distância da ilha.
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Os dados de rastreamento de voos não oferecem um quadro completo da atividade americana nas proximidades de Cuba, já que as aeronaves militares nem sempre transmitem suas posições. Mas elas divulgam sua localização em partes do trajeto.
O deslocamento das aeronaves surge após o aumento significativo das tensões entre os dois países verificado nos últimos meses, desde que Washington impôs um bloqueio aos embarques de petróleo dirigidos à nação caribenha.
O site de notícias Axios também informou que Cuba adquiriu drones capazes de atacar a área continental dos Estados Unidos. O ministro das Relações Exteriores cubano respondeu afirmando que seu país “não ameaça, nem deseja a guerra” e acusou Washington de elaborar um “caso fraudulento” para justificar uma intervenção militar.
Estas acusações foram seguidas pela oferta de um “novo relacionamento” com o povo cubano pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, na quarta-feira (19/5).
Falando em espanhol em pronunciamento dirigido à população da ilha, no aniversário da independência cubana dos Estados Unidos, Rubio culpou os líderes comunistas (não o bloqueio americano dos combustíveis) pelas “dificuldades inimagináveis” enfrentadas pelo país.
Também na quarta-feira, o governo dos Estados Unidos anunciou o indiciamento do ex-presidente de Cuba Raúl Castro e outras cinco pessoas. O caso se refere à derrubada pela Força Aérea cubana de duas aeronaves civis 30 anos atrás.
Especialistas explicaram à BBC Verify que a natureza pública desses voos de vigilância indica que os Estados Unidos buscam executar o bloqueio e pressionar o governo cubano, além de dissuadir os aliados de Cuba, como a Venezuela, de tentar levar combustíveis para a ilha.
A crise dos combustíveis gerou enormes apagões e protestos em Cuba.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também exerceu fortes pressões para que Cuba “faça um acordo”, ameaçando o regime comunista com uma possível intervenção americana, como ocorreu no início do ano na Venezuela, com a captura do então presidente Nicolás Maduro.
O que mostram os dados
A BBC Verify rastreou diversos voos dos jatos de vigilância P-8 Poseidon da Marinha americana.
Um dos voos ocorreu no dia 11 de maio. A aeronave chegou a 80 km de distância do sul de Cuba, segundo os dados do Flightradar24.
O P-8 voltou a operar no dia seguinte, quando foi observado voando para a capital cubana, Havana, no norte do país, para depois retornar à sua base em Jacksonville, no Estado americano da Flórida.
A aeronave chegou a 80 km de distância do sul de Cuba, segundo os dados do Flightradar24.
FlightRadar/Via BBC
No dia 15 de maio, dois drones de vigilância americanos MQ-4C Triton também operaram perto do litoral do sul de Cuba. O rastreamento os mostra em operação ao longo de uma rota similar a um voo anterior do Poseidon.
No dia 15 de maio, dois drones de vigilância americanos MQ-4C Triton também operaram perto do litoral do sul de Cuba.
FlightRadar/Via BBC
O coronel aposentado Mark Cancian, do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, e consultor sênior do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês), explicou à BBC Verify que os voos recorrentes das aeronaves de vigilância “indicam a intenção de identificar a chegada de navios do sul, em primeiro lugar, e, de forma secundária, do norte”.
“Nenhum dos voos sobrevoou terra firme, de forma que não se trata de uma preparação para invasão”, segundo ele.
Cancian destacou duvidar que esses voos sejam “de rotina”, já que o número de P-8s e MQ-4C Tritons à disposição nos Estados Unidos é “limitado”.
A BBC Verify também examinou a atividade de aeronaves militares norte-americanas perto de Cuba entre os dias 1° e 7 de fevereiro, quando houve apenas um voo de P-8 nas proximidades da ilha, sem atividade comparável de MQ-4C Tritons na região.
Mas uma aeronave de reconhecimento RC-135V Rivet Joint, da Força Aérea americana, passou duas vezes perto de Cuba no mesmo período.
Para o especialista em drones Steve Wright, os voos de vigilância com drones “muito provavelmente, fazem parte de uma agenda americana para inibir tentativas da Venezuela de romper o bloqueio do petróleo e enviar combustíveis para Cuba”.
Analistas da empresa de inteligência de defesa Janes ofereceram uma avaliação similar. Eles acrescentaram que houve um “aumento geral das missões de inteligência, vigilância e reconhecimento dos Estados Unidos”, desde o mês de fevereiro.
“O fato de que esses voos são visíveis em ferramentas de rastreamento públicas sugere que eles se destinam a inibir tentativas de rompimento do bloqueio do petróleo e pressionar o governo cubano”, segundo a empresa.
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