
Com 12 metros de altura, a estátua conhecida como Bernardão, em Fronteira, no Triângulo Mineiro, segue despertando curiosidade entre moradores e turistas mais de 80 anos após sua inauguração. Quase completamente nu, o monumento teria originalmente um órgão sexual com quase um metro.
Com 12 metros de altura, a estátua conhecida como Bernardão, em Fronteira, no Triângulo Mineiro, segue despertando curiosidade entre moradores e turistas mais de 80 anos após sua inauguração. Quase completamente nu, o monumento teria originalmente um órgão sexual. pic.twitter.com/WcMoR4S9hr
— iG (@iG) May 20, 2026
O monumento, inaugurado em meio ao processo de fundação da cidade nos anos 1940, se tornou o principal cartão-postal do município localizado às margens do Rio Grande, na divisa entre Minas Gerais e São Paulo.
Segundo o Plano Municipal de Turismo de Fronteira, turistas de várias regiões do Brasil visitam a cidade para conhecer a escultura e tirar fotos do monumento.

Como a história começou
Documentos históricos do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e do Plano Municipal de Turismo apontam que Fronteira foi concebida como uma cidade planejada e turística ainda nos anos 1940, idealizada pelo jornalista, empresário e intelectual paulistano Maurício Goulart após a construção da ponte Mendonça Lima sobre o Rio Grande, em 1942.
A proposta era criar uma espécie de “cidade modelo” no interior do Brasil Central. A cidade foi planejada com avenidas largas, arborizadas e infraestrutura urbana organizada para atrair turistas interessados nas belezas naturais da região e nas cachoeiras do Rio Grande.
Após a criação da Companhia Construtora da Cidade de Fronteira, em 18 de julho de 1943, o município passou a receber investimentos urbanos considerados modernos para a época. Logo após sua inauguração, Fronteira já contava com serviços dos Correios, telefonia e aeroporto. Documentos históricos também apontam que cassinos funcionaram na região durante o período em que os jogos eram legalizados no Brasil.

Foi nesse período que surgiu a ideia de construir um monumento que simbolizasse a fundação da cidade. Em 1945, Maurício Goulart reuniu em sua residência, no bairro Pacaembu, em São Paulo, uma comissão formada por políticos, intelectuais e artistas para escolher o projeto que serviria como marco comemorativo de Fronteira. Entre os participantes estavam nomes como Milton Campos, José Maria Alckmin, Di Cavalcanti, Tancredo Neves, Póla Resende e o publicitário Júlio Cosi.
O projeto vencedor foi do escultor paulistano Júlio Guerra, discípulo de Victor Brecheret, autor do Monumento às Bandeiras, em São Paulo. A obra recebeu originalmente o nome de “Expresso”, porque a maquete teria sido produzida às pressas, em apenas um dia, após amigos convencerem o artista a participar do concurso.
Segundo os registros históricos, “Expresso” representava “o homem em sua essência” e, por isso, foi concebido nu, segurando um marco que simbolizava a fundação da cidade. Na base da estátua está inscrita a frase: “Aqui, onde era selva e só selva nasceu Fronteira, pela vontade de alguns homens e por amor ao Brasil.”

Medo do escândalo no interior
A ideia original de Júlio Guerra era retratar o corpo humano sem roupas e com todos os detalhes anatômicos. O escultor permaneceu cerca de 40 dias em Fronteira executando a obra, construída em concreto armado, técnica considerada moderna para a época.
Segundo nota técnica do Ministério Público de Minas Gerais, houve uma discussão durante a execução da obra sobre o tamanho proporcional do órgão sexual da estátua. De acordo com os relatos históricos reunidos pelo órgão, Júlio Guerra teria explicado que, mantendo a proporção do corpo, o órgão teria entre 80 centímetros e 1 metro de comprimento.
A partir disso, surgiu a solução que marcou a obra até hoje: um obelisco segurado pela figura para cobrir a região íntima.

Apesar da popularização da história, a Secretaria Municipal de Cultura afirma que não existe nenhum documento oficial comprovando uma censura formal da obra. Ainda assim, a versão mais difundida na cidade é a de que Maurício Goulart temia a reação da população diante de uma estátua monumental com nudez explícita, segundo explicou Guilherme Oliveira Pinesso, assessor municipal de cultura da cidade ao iG.
Lendas e versões populares
A ausência de registros oficiais abriu espaço para diferentes histórias e interpretações sobre o Bernardão. Algumas versões afirmam que a estátua representa o trabalhador rural e os cortadores de cana que ajudaram no desenvolvimento da cidade. Outras apontam que a obra simboliza o “homem desbravador” do interior mineiro.
Há ainda interpretações mais simbólicas, ligadas à ideia de honestidade, força e simplicidade do homem do campo. Para a Secretaria de Cultura, não existe uma interpretação definitiva para o monumento.
Além das versões históricas, também circulam lendas populares sobre a escultura. Uma das histórias mais conhecidas na região diz que o monumento teria sido inspirado em um homem conhecido por aventuras amorosas e comportamento considerado escandaloso para a época. Não há, porém, qualquer confirmação oficial sobre essa história, tratada como folclore local.

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Cidadão honorário e símbolo turístico
O apelido Bernardão também ajudou a transformar a relação dos moradores com o monumento. Segundo a tradição oral da cidade, o nome surgiu pela semelhança da estátua com Bernardino, um antigo guarda-noturno conhecido pelos moradores.
Documentos históricos do município descrevem Bernardino como um homem de baixa estatura e tórax largo, características que teriam inspirado a associação popular com o monumento.
Para a Secretaria de Cultura, o apelido fez com que a obra deixasse de ser vista apenas como “a estátua do homem nu”.
Hoje, a nudez da escultura é tratada com naturalidade pelos moradores e virou parte da identidade cultural de Fronteira.
O Bernardão já é tombado como patrimônio histórico municipal e é considerado o principal cartão-postal de Fronteira.
Segundo o Plano Municipal de Turismo, a cidade recebe até 60 mil visitantes em períodos de feriado, muitos atraídos pela fama da escultura.
Em 18 de julho de 1984, a imagem do Bernardão chegou a ser estampada em um bilhete da Loteria Federal em homenagem à cidade de Fronteira.

A história da possível censura também acabou se tornando uma curiosidade turística contada por moradores, comerciantes e guias locais. A Secretaria de Cultura contou que no futuro pretende estruturar roteiros guiados e materiais explicativos sobre a obra.
