
Bactéria Fusobacterium é encontrada em 64% das pacientes com endometriose, aponta estudo
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Quase dois terços das mulheres com endometriose analisadas em um estudo apresentaram a bactéria Fusobacterium no revestimento uterino. Os pesquisadores identificaram a presença do microrganismo em 64% das pacientes com a doença, contra menos de 10% das mulheres sem endometriose.
O trabalho, conduzido por pesquisadores da faculdade de medicina de Nagoya, no Japão, e publicado na revista científica “Science Translational Medicine”, também mostrou que o tratamento com antibióticos reduziu lesões da doença em camundongos.
Segundo os autores, a infecção bacteriana parece estimular um ambiente inflamatório no endométrio capaz de favorecer o desenvolvimento da endometriose. O estudo sugere que eliminar a bactéria pode representar uma possível estratégia terapêutica no futuro.
Os pesquisadores analisaram tecidos endometriais de mulheres com e sem endometriose e observaram uma diferença expressiva na presença da bactéria Fusobacterium.
Agora no g1
A infiltração bacteriana foi identificada em:
64,3% dos tecidos endometriais de pacientes com endometriose;
52,4% das lesões endometrióticas ovarianas;
apenas 7,1% das mulheres sem a doença.
De acordo com o estudo, a bactéria Fusobacterium nucleatum altera o microambiente do endométrio e desencadeia uma resposta inflamatória ligada ao crescimento da doença.
A vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Tania Vergara, explicou ao g1 que a Fusobacterium nucleatum é um microrganismo que vive naturalmente na boca, mas pode disseminar-se para outros locais do corpo. Dessa forma, ela pode se tornar um patógeno oportunista e se associar a inúmeras doenças locais e sistêmicas.
Além disso, ela apresenta uma associação particularmente forte com o câncer colorretal, podendo desempenhar papel na carcinogênese.
“É relativamente comum que o Fusovacterium nucleatum atinja o endométrio, mas não é considerado como parte da microbiota endometrial normal. A migração da cavidade oral para o endométrio ocorre por disseminação pela corrente sanguínea, em especial quando há doença periodontal”, explica.
A médica acrescenta que algumas condições favorecem a presença dela no endométrio: endometriose, complicações obstétricas, infecções intrauterinas. E A presença da bactéria mesmo fora da cavidade oral não significa necessariamente infecção ativa. Pode haver colonização assintomática, translocação sem infecção ativa e colonização patológica subclínica (como estar em associação com tumores retais e endometriose, sem provocar sintomas de infecção aguda).
“O uso prolongado de antibióticos representa um risco importante para que esta bactéria se comporte como um patógeno oportunista através de mecanismos que alteram tanto a bactéria quanto o ecossistema microbiano”, explica.
Além disso, o uso inadequado de antibióticos (com doses e duração erradas) altera a microbiota intestinal protetora, induzindo a alterações na bactéria e as cepas menos sensíveis aos antibióticos.
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Proteína ligada à fibrose aumentou nas pacientes
Os pesquisadores também identificaram aumento da proteína TAGLN nos tecidos de mulheres com endometriose.
A TAGLN é associada aos miofibroblastos — células envolvidas em processos de fibrose, cicatrização e inflamação crônica.
A expressão da proteína foi:
menor em mulheres sem endometriose;
intermediária no endométrio de pacientes com a doença;
mais elevada nas lesões ovarianas.
Os testes mostraram que o aumento da TAGLN deixou as células com maior capacidade de proliferação, migração e adesão — características relacionadas à progressão da endometriose.
Quando os pesquisadores reduziram artificialmente os níveis da proteína em laboratório, houve diminuição da proliferação celular e da capacidade de migração.
Inflamação parece ser peça central
O estudo mostrou que a infecção por Fusobacterium ativa a via de sinalização do TGF-β1, molécula associada à inflamação e à fibrose.
Segundo os pesquisadores, essa ativação faz com que fibroblastos “quiescentes” se transformem em miofibroblastos positivos para TAGLN.
Além disso, as células passaram a produzir maiores quantidades de IL-6, uma citocina inflamatória ligada ao crescimento celular.
Os autores também observaram aumento de macrófagos do tipo M2 — células imunológicas produtoras de TGF-β1 — nos tecidos das pacientes com endometriose.
Em laboratório, até bactérias mortas de Fusobacterium nucleatum foram capazes de estimular a produção de TGF-β1.
Antibióticos reduziram lesões em camundongos
Os pesquisadores testaram o efeito da bactéria em um modelo experimental com camundongos.
Os animais infectados com Fusobacterium nucleatum apresentaram:
aumento do número de lesões endometrióticas;
lesões maiores e mais pesadas;
maior infiltração inflamatória;
aumento de células TAGLN-positivas.
Já outras bactérias analisadas no estudo, como Lactobacillus iners e Escherichia coli, não produziram o mesmo efeito.
Os cientistas então administraram os antibióticos metronidazol e cloranfenicol nos animais infectados.
Após o tratamento, houve:
eliminação da bactéria;
redução da inflamação;
diminuição da expressão de TAGLN;
redução do número e do peso das lesões.
Mesmo quando os antibióticos foram administrados após o desenvolvimento da doença, os pesquisadores observaram diminuição do peso das lesões endometrióticas.
Estudo sugere nova linha de investigação
Os autores afirmam que os dados ajudam a ampliar a compreensão sobre os mecanismos envolvidos no desenvolvimento da endometriose.
Segundo eles, a infecção por Fusobacterium nucleatum pode criar um ambiente inflamatório favorável à progressão da doença e estimular alterações celulares associadas à formação das lesões.
O estudo conclui que estratégias voltadas à eliminação da bactéria podem representar uma possível abordagem terapêutica para endometriose no futuro.
O que é endometriose
A endometriose ocorre quando tecido semelhante ao revestimento interno do útero cresce fora da cavidade uterina.
A doença afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva e pode causar dor pélvica intensa, alterações menstruais e infertilidade.
Como os sintomas variam e o diagnóstico muitas vezes depende de cirurgia, muitas pacientes levam anos até receber a confirmação da doença.
Por isso, pesquisas que buscam marcadores menos invasivos da doença são consideradas uma das principais frentes da investigação científica sobre endometriose.
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