Ninguém é melhor que ninguém

Paulo Rosenthal Advogado em SP e Moderador do Grupo Judaísmo Sem PartidoArquivo pessoal

*Por: Paulo Rosenthal Advogado em SP e Moderador do Grupo Judaísmo Sem Partido

Muito do ódio contra judeus decorre de estereótipos mentirosos que, repetidos várias vezes ao longo dos séculos, viraram “verdades”. A melhor — ou pior — de todas é aquela de que “todo judeu é rico”, quando, na verdade, é exatamente o oposto. Para se ter uma ideia, estima-se que mais de 220 mil sobreviventes do Holocausto vivam no mundo hoje, e cerca de um quarto a 40% deles enfrentam dificuldades financeiras, vivendo abaixo da linha da pobreza (Times of Israel).

Talvez o desprendimento dos judeus com relação às coisas materiais seja exatamente o ponto que causa um ódio coletivo contra o povo de Israel. Infelizmente, como demonstrarei adiante, hoje, assim como no período pré-Holocausto, há um movimento — creio que subconsciente — no sentido de uma assimilação aos valores modernos, afastando-nos, judeus, do Sagrado. Hoje, o fenômeno é nítido, e suas consequências virão, invariavelmente.

Ao longo dos séculos, os judeus sempre precisaram de permissões especiais para tudo. O local onde poderiam morar era predefinido, assim como as profissões que poderiam exercer e, de acordo com o período, as regras mudavam, e os judeus precisavam se adaptar, sair ou até morrer. Hoje, Israel é uma realidade que muda essa equação, e muitos de nós, judeus, ainda não entendemos que não precisamos mais fugir de lá para cá. Não são necessárias muitas explicações para entender o tamanho do poder daquele minúsculo país.

Em todos os cantos do mundo, muitos judeus se destacaram em profissões nas quais se tornaram especialistas, exatamente porque eram proibidos de exercer outras atividades. Ganharam fama na Medicina, nas Artes, nas Finanças, e até hoje sofremos com a inveja por termos trabalhado bem nas áreas em que nos obrigaram a atuar. Todos nós, judeus, temos muito orgulho de todas as conquistas e de todas as áreas em que nos destacamos.

Algumas semanas atrás, percebi que novamente estamos nos afastando daquilo de que sempre nos orgulhamos e caindo exatamente no pecado que fez Moisés revoltar-se. Sim, estou falando do “Bezerro de Ouro”. Nós, judeus, praticantes ou não, sempre fomos ensinados a nos afastar de coisas e pessoas superficiais, que em nada nos elevam. Estamos inseridos em uma sociedade baseada em sensações. Se usamos um relógio bonito, então nos sentimos bem. Se usamos uma roupa de marcas caras ou dirigimos carrões, então somos reconhecidos como pessoas de sucesso. Olhem para o lado e percebam o nível a que chegamos! Se o chique é estar em determinado condomínio, quem está de fora sente-se um perdedor.

Amigos, nós, judeus, não precisamos disso! Temos a nossa incrível jornada, que nos trouxe até aqui. Sim, a história de cada um de nós é incrível. E, sem sombra de dúvida, só chegamos até aqui pela união e pela fé de que um dia teríamos Israel. Hoje, tendo Israel, parece que ficamos mais moles e suscetíveis a bobagens que nada agregam. Ficamos impressionados quando algum de nós atinge riquezas materiais, quando o sujeito é apenas bom em “ganhar dinheiro”. Isso não quer dizer que ele seja uma pessoa boa ou ruim, culta ou não, e especialmente que possa dar opinião sobre coisas que não entende. Só que a paparicação muitas vezes leva o sujeito a acreditar que pode se meter em coisas que, de fato, não entende e, por vezes, prejudicar uma coletividade inteira.

Quando disse, logo acima, que caí na real, preciso explicar melhor. Há algumas semanas, uma amiga judia que se tornou símbolo da luta contra o antissemitismo teve ajuda recusada em um estabelecimento que, para mim, representava um espaço ligado ao judaísmo. Minha primeira reação foi de revolta. Depois, ao refletir com mais calma, percebi que o próprio estabelecimento parece ter deixado essa identidade em segundo plano, ainda que mantenha, em sua fachada e em seu interior, símbolos tradicionalmente associados ao universo judaico.

Ao olhar mais atentamente, notei também uma ênfase grande na aparência, no luxo e em sinais externos de status. E foi isso que mais me chamou a atenção: o judaísmo, ao menos como sempre aprendi a enxergá-lo, não se sustenta em aparências, mas em valores, conteúdo e propósito. Talvez o ponto mais importante seja justamente este: não somos melhores nem piores do que ninguém, e não precisamos de sinais externos para afirmar quem somos.

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