
Giovanni Galizia posa com o calendário ‘Calendario Romano’, que há duas décadas é um sucesso de vendas nas lojas de souvenirs de Roma, em sua casa em Verona, Itália, na quarta-feira, 20 de maio de 2026.
AP/Luca Bruno
Um calendário com closes de jovens bonitos usando trajes sacerdotais é, há duas décadas, uma lembrança tradicional de Roma — mas, ao que tudo indica, poucos deles são realmente padres.
Giovanni Galizia estampou a capa do chamado “calendário dos padres sexy” em muitas das últimas 23 edições. Na mesma foto reutilizada ano após ano, Galizia usa um colarinho clerical e exibe um sorriso enigmático, digno da Mona Lisa, diante da parede de granito de uma igreja em sua cidade natal, Palermo.
✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp
“Era o sorriso de um garoto envergonhado, porque eu via todos os meus amigos na minha frente gargalhando porque eu estava vestido como um padre”, contou Galizia à Associated Press durante uma entrevista em sua sala de estar, em Verona, nesta quarta-feira (20).
Para Galizia, a sessão de fotos foi apenas uma brincadeira sem grandes consequências em sua vida — até que uma reportagem publicada nesta semana pelo jornal romano La Repubblica revelou que o “calendário dos padres sexy” talvez pudesse ser chamado com mais precisão de “calendário dos falsos padres”, atraindo atenção nacional.
O calendário não tem vínculo com o Vaticano, que se recusou a comentar o caso.
Um souvenir popular com 12 retratos em preto e branco
Hoje com 39 anos e trabalhando como comissário de bordo de uma companhia aérea espanhola, Galizia tinha apenas 17 anos quando amigos em comum o apresentaram ao fotógrafo Piero Pazzi, que também criou um calendário com gondoleiros venezianos e fundou museus sobre a história dos gatos em Budapeste e Montenegro.
Oficialmente chamado Calendario Romano, cada edição traz 12 retratos em preto e branco de homens, em sua maioria usando roupas clericais — muitas fotos são reaproveitadas ano após ano. Galizia disse conhecer apenas um dos outros modelos, um francês que também não era padre.
Pazzi afirmou à AP que pelo menos um terço dos homens retratados no calendário de 2027, já lançado, são de fato sacerdotes, mas não deu detalhes.
Galizia contou que nunca foi parado na rua por causa da foto, embora seus primos tenham dado o calendário de presente para a avó — “e todo mundo morreu de rir”.
O calendário pretendia ser arte, não enganação
Galizia vê as fotografias de homens vestidos como padres como parte de uma tradição artística. Segundo ele, ninguém acredita que os atores de séries de TV sobre religiosos sejam realmente membros do clero.
“Claro que existe uma certa provocação na relação entre o sagrado e o profano, porque é evidente que ver um universo distante e, de certa forma, tão elevado como o eclesiástico associado a um rapaz jovem e de rosto fresco cria uma espécie de dissonância”, disse.
Ele também afirmou não entender por que os retratos em preto e branco passaram a ser considerados sensuais. Pazzi concorda e diz que essa nunca foi a intenção.
“Existe uma tendência de confundir o que é belo com o que é sensual, porque hoje em dia, especialmente em um mundo tão sexualizado, a beleza só é expressa por meio da sensualidade”, afirmou Galizia.
“Dito isso, eu aprecio a observação e encaro como um elogio — porque conseguir ser sexy usando um colarinho clerical não é pouca coisa.”
Tem a aprovação de pelo menos um padre de verdade
O calendário ‘Calendario Romano’, com uma foto de Giovanni Galizia, que não é padre, está à venda em uma loja de souvenirs em Roma, na quarta-feira, 20 de maio de 2026.
AP/Alessandra Tarantino
Pazzi não revela quantos exemplares do calendário já foram vendidos, mas estima que sejam vários milhares por ano. Enquanto o fotógrafo diz receber royalties, Galizia — que assinou uma autorização de uso de imagem na época da foto — afirma nunca ter pedido pagamento.
O calendário é vendido por cerca de 8 euros (aproximadamente R$ 50) em lojas ao redor do Vaticano e no centro histórico de Roma. Um vendedor chamado Hassam Mohammad disse comercializar alguns exemplares todos os dias.
Pazzi inclui no calendário uma página com informações sobre o Vaticano, mas afirma que a produção é independente e sem qualquer relação com a Santa Sé.
Um padre sul-coreano que caminhava perto do Vaticano nesta semana disse que o calendário é bastante conhecido em seu país, especialmente entre os jovens, que o veem com humor.
“Muitas vezes, eles acham que os padres são rígidos e distantes”, afirmou o religioso, que se apresentou informalmente como padre Domenico. “Mas olhando esse calendário, eles sentem os padres mais próximos, e percebem que padres também podem ser divertidos. Acho que, na Coreia, esse calendário é muito famoso, e tudo bem.”
