Isso prova que muita gente que está no programa não deveria estar.
Os programas sociais são essenciais quando cumprem sua finalidade original, proteger quem realmente não tem alternativa de renda, emprego ou sobrevivência digna. Há brasileiros em regiões isoladas, no semiárido, em áreas rurais pobres ou em periferias sem acesso regular a trabalho formal, saneamento, transporte e crédito. Para essas famílias, o Bolsa Família não é um privilégio, é uma rede mínima de proteção.
O problema começa quando essa política deixa de ser tratada como exceção social e passa a funcionar como transferência ampla, pouco fiscalizada e politicamente conveniente. Em 2025, segundo o IBGE, 18 milhões de famílias, o equivalente a 22,7% dos domicílios brasileiros, receberam algum programa social do governo. No mesmo ano, a taxa média de desemprego caiu para 5,6%, o menor nível da série histórica. Esses dois dados, colocados lado a lado, exigem uma pergunta incômoda, se o mercado de trabalho vive seu melhor momento em mais de uma década, por que ainda há um contingente tão expressivo de famílias dependentes de auxílio público?
A resposta ficou ainda mais difícil depois das revelações sobre as bets. Auditoria do TCU apontou que beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3,7 bilhões para apostas online em janeiro de 2025. Mais de 5 milhões de beneficiários fizeram apostas naquele mês, e 889 mil delas concentraram mais de R$ 3 bilhões, quase 80% do total movimentado pelo grupo.
O tribunal também identificou casos incompatíveis com a renda declarada, incluindo transferências de até R$ 2 milhões em um mês, o que levanta suspeitas de fraude, uso indevido de CPFs e lavagem de dinheiro. Não se trata de criminalizar a pobreza nem de negar a existência de famílias vulneráveis. Trata-se de reconhecer que há uma distorção grave quando parte dos beneficiários de uma política financiada pelos impostos da população que trabalha movimenta bilhões em plataformas de aposta. A finalidade do auxílio é garantir comida, remédio, transporte, escola e sobrevivência, não financiar consumo especulativo em um setor de alto risco.
O avanço das apostas tornou essa contradição impossível de ignorar. Em maio de 2026, o TCU informou que operadores ilegais respondem por 41% a 51% do volume total de apostas no país, movimentando até R$ 40 bilhões por ano. O dado mostra que o problema ultrapassa o comportamento individual e revela uma falha institucional de fiscalização.
Ao mesmo tempo, o governo publicou regras para restringir o acesso de beneficiários do Bolsa Família e do BPC às apostas, por meio de checagem de CPF no Sistema de Gestão de Apostas. A medida indica que o próprio Estado reconhece a incompatibilidade entre receber benefício assistencial e manter atividade em bets. A discussão, portanto, não deveria ser se o programa social deve acabar, mas se o país aceitará que ele continue funcionando sem filtros duros, cruzamento de dados em tempo real e consequência prática para quem usa o auxílio de forma incompatível com sua finalidade.
Um país sério precisa proteger os vulneráveis sem transformar política social em instrumento de dependência permanente. Quem vive em situação extrema deve ser amparado, sobretudo onde o emprego não chega, a renda não se sustenta e o Estado só aparece pelo benefício. Mas quem recebe dinheiro público e demonstra capacidade de gastar em apostas não pode ser tratado da mesma forma que uma família que depende daquele valor para comer.
A exclusão automática talvez exija cautela jurídica e investigação para evitar injustiças, especialmente em casos de fraude de CPF, mas a direção precisa ser clara, benefício social não pode conviver com aposta online. O Brasil precisa voltar à lógica do “ensinar a pescar”, com qualificação, geração de renda, fiscalização e porta de saída, em vez de ampliar indefinidamente a distribuição de dinheiro sem contrapartida. As bets apenas escancararam o que já estava diante dos olhos, programas sociais são indispensáveis para quem precisa, mas injustificáveis para quem transformou auxílio público em saldo disponível para apostar.
*Coluna escrita por Fabrizio Gueratto, especialista em investimentos com mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro. Foi sócio do Banco Modal, é professor de MBA em Finanças, autor do livro “De Endividado a Bilionário”, fundador da Gueratto Press e criador do Canal 1Bilhão, que soma quase 21 milhões de visualizações no YouTube.
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