
O cientista francês Michel Siffre passou dois meses isolado em uma caverna sem luz do sol, relógio ou calendário durante um experimento feito em 1962, nos Alpes da Ligúria, na França.
A experiência queria entender como o corpo humano reage quando perde totalmente a noção de tempo do mundo exterior. Os pesquisadores tentavam descobrir se as pessoas possuem um “relógio interno” natural ou se a percepção dos dias depende apenas de fatores externos, como a luz do dia e a rotina.
Quando o experimento terminou, porém, Siffre acreditava que ainda faltava quase um mês para sair da caverna.
Dentro do local, o francês vivia sem qualquer referência de horário. Ele comia quando sentia fome e dormia quando sentia sono. O único contato com a equipe do lado de fora acontecia por telefone, usado apenas para avisar quando acordava, fazia refeições ou ia dormir. Os pesquisadores anotavam essas informações para observar como o corpo funcionava sem interferência externa.
Quando deixou a caverna, em setembro de 1962, Siffre acreditava que havia passado muito menos tempo no isolamento. Os relatos sobre o tamanho exato do erro variam, mas todos indicam que ele perdeu semanas na própria noção de tempo.
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O relógio natural do corpo
Os registros mostraram que o ciclo de sono e despertar de Siffre não seguia exatamente as 24 horas de um dia comum. O corpo dele funcionava em um ritmo de cerca de 24 horas e meia.
A descoberta reforçou a ideia de que os seres humanos possuem um relógio biológico natural, que continua funcionando mesmo sem luz solar ou rotina.
Os pesquisadores deram a esse funcionamento o nome de “ritmo biológico livre”. No dia a dia, fatores como a luz do sol, os horários das refeições e o contato com outras pessoas ajudam o corpo a manter esse relógio interno ajustado. Sem esses sinais, o organismo continua acompanhando o tempo, mas de maneira diferente.
Além das mudanças no sono, o experimento mostrou um efeito importante na mente humana. O erro na contagem dos dias não podia ser explicado apenas pela diferença de meia hora no relógio biológico. Segundo os pesquisadores, a própria sensação da passagem do tempo também mudou.
Em entrevista ao jornalista Joshua Foer, o cientista descreveu o impacto do isolamento.
Siffre também relatou um teste realizado durante o isolamento. Segundo o cientista, ele levou cerca de cinco minutos reais para contar até 120, embora tivesse a sensação de que apenas dois minutos haviam passado.
Caminho para novos estudos
Antes da experiência na caverna de Scarasson, ainda existiam dúvidas sobre a existência de um relógio biológico interno nos seres humanos. O estudo mostrou que o corpo consegue manter um ritmo próprio mesmo sem sinais externos de tempo.
Na época, Siffre era geólogo e havia ido à caverna para estudar uma geleira subterrânea. Mais tarde, ele afirmou que transformar a viagem em um experimento sobre o tempo se tornou “a ideia da minha vida”. A experiência ajudou no avanço da cronobiologia humana, área da ciência que estuda os ritmos naturais do corpo.
Os resultados chamaram a atenção de pesquisadores ligados a viagens espaciais longas, já que no espaço também não existe a marcação natural entre dia e noite. Segundo Siffre, a NASA financiou uma análise matemática do experimento.
Em 1972, ele passou por outro período de isolamento, desta vez durante seis meses em uma caverna no Texas, nos Estados Unidos. Nas experiências mais longas, os ciclos de sono chegaram perto de 48 horas.
Anos depois, o cientista reconheceu que os longos períodos sozinho em cavernas foram difíceis e causaram problemas pessoais. Mesmo assim, a principal descoberta continuou válida. Segundo ele, o corpo humano possui um relógio interno parecido com as 24 horas do dia, mas precisa da luz do sol e da rotina para continuar sincronizado com o mundo ao redor.
