
O desconforto financeiro das famílias brasileiras atingiu o pior nível já registrado pela Fundação Getúlio Vargas desde 2014, quando a instituição criou o Índice de Desconforto de Crédito.
Em janeiro, o indicador estava em 0,966. Um mês depois, atingiu 1,0, o teto da metodologia baseada em dados do Banco Central disponíveis desde 2011.
O índice é baseado em três componentes: comprometimento de renda, inadimplência e qualidade do crédito.
Segundo o levantamento, o comprometimento da renda familiar com dívidas chegou a 29,7% em fevereiro. Isso significa que, a cada R$ 100 recebidos pelas famílias brasileiras, R$ 29,70 já estavam comprometidos com parcelas, juros e amortizações.
Já a inadimplência acima de 90 dias (ou seja, parcelas que não foram pagas após três meses) atingiu 7,2%, outro recorde da série histórica.
Outro dado preocupante, segundo a FGV, é que 25,1% do crédito livre para pessoas físicas passou a se concentrar em modalidades consideradas mais caras, como cheque especial, rotativo do cartão e crédito pessoal não consignado.
Isso significa que um em cada quatro reais tomados pelas famílias brasileiras já está em linhas de crédito de alto custo.
Para os pesquisadores da FGV, o movimento ajuda a explicar uma contradição que tem chamado atenção de economistas e formuladores de políticas públicas nos últimos anos. Afinal, como pode, em um país com baixos índices de desemprego e registro de crescimento econômico, ter tanta gente com a sensação de estar sufocada financeiramente?
A explicação é que os indicadores tradicionais da economia já não captam o cotidiano financeiro da população. Ou seja: Uma pessoa pode estar empregada e ainda assim viver permanentemente pressionada por juros, parcelas, refinanciamentos e renegociações sucessivas de dívida.
Isso não tem a ver “só” com acesso ao crédito, mas com a qualidade do crédito obtido pelas famílias – usado para sustentar consumo corrente e antecipar renda futura, e não necessariamente para formar patrimônio.
Uma das apostas do governo para desarmar essa bomba eleitoral é o lançamento do novo Desenrola Brasil, programa de apoio ao refinanciamento de dívidas.
Mas, segundo os pesquisadores da FGV, programas de renegociação de dívidas do tipo podem até aliviar temporariamente o desconforto financeiro. Mas a tendência, a longo prazo, é que o desconforto volte a subir.
As razões para isso serão discutidas nesta quarta-feira (27) em São Paulo durante o lançamento do FGV Money Lab, uma iniciativa voltada ao estudo do comportamento financeiro, educação econômica e endividamento das famílias brasileiras.
A ideia é aproximar pesquisa aplicada, comportamento econômico e educação financeira por meio de produção de conteúdo, eventos e iniciativas voltadas à tomada de decisão financeira.
O encontro reunirá economistas, executivos do setor financeiro e especialistas para discutir, além do avanço estrutural da dívida das famílias, os impactos das apostas online sobre o comportamento financeiro da população e os riscos econômicos de 2026.
O primeiro painel do encontro discutirá os riscos econômicos de 2026 e contará com a participação de Ana Paula Vescovi, diretora de macroeconomia do Santander Brasil, e Fernando Honorato Barbosa, economista-chefe do Bradesco.
O segundo painel abordará o endividamento estrutural no Brasil e reunirá Marcelo Toressi, CEO do Banco Paulista, Felipe Sales, economista-chefe do C6 Bank, e Ricardo Campos, CEO e CIO da Reach Capital.
Já o terceiro bloco discutirá os impactos das apostas online e a chegada dos chamados prediction markets. Participam do debate Ana Leoni, CEO da Planejar, Amanda Dias, criadora do canal Grana Preta, e Fernando Schmitt, CEO do Me Poupe!.
O evento acontece no Auditório FGV 9 de Julho, na Rua Itapeva, 432, na Bela Vista, em São Paulo, das 8h30 às 12h30.
