
O Governo de Minas Gerais oficializou nesta segunda-feira (25) o encerramento definitivo da história do Hospital Colônia de Barbacena (MG), um dos maiores símbolos de violações de direitos humanos no Brasil. Os últimos 14 pacientes que ainda viviam institucionalizados no antigo complexo psiquiátrico foram transferidos para uma residência terapêutica no município, onde passarão a receber acompanhamento especializado e cuidados em liberdade.
O fechamento marca o fim de um modelo manicomial que atravessou mais de um século e ficou conhecido nacionalmente após denúncias de abandono, maus-tratos, mortes em massa e comercialização de corpos de pacientes para faculdades de medicina.
Durante cerimônia promovida pelo governo estadual, autoridades realizaram o fechamento simbólico do Pavilhão Antônio Carlos com um cadeado, gesto apresentado como marco do fim definitivo do chamado “hospital-colônia”.

Segundo a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), os 14 moradores transferidos passaram praticamente toda a vida dentro da instituição. Eles viveram, em média, 49 anos internados no antigo hospital psiquiátrico e atualmente têm idade média de 73 anos. Três desses pacientes chegaram ao local ainda crianças, antes dos 15 anos, e permaneceram institucionalizados por décadas, atravessando grande parte da vida sob o modelo manicomial implantado em Barbacena.
“Muitos foram internados em uma época em que situações de abandono familiar, preconceito, sofrimento psíquico leve ou comportamentos considerados inadequados pela sociedade podiam levar uma pessoa ao confinamento”, afirmou o governo mineiro em nota oficial.
Os pacientes foram levados para uma residência terapêutica preparada especialmente para acolhê-los, com equipes multidisciplinares e acompanhamento permanente. A medida integra o processo de desinstitucionalização psiquiátrica previsto pela reforma da saúde mental no Brasil, baseada no tratamento comunitário e no cuidado em liberdade.
Desde 2019, 68 moradores deixaram o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena para viver em residências terapêuticas em cidades da região.
A presidente da Fhemig, Renata Dias, afirmou que o encerramento do antigo modelo manicomial representa uma ressignificação da história de Barbacena.
“Estamos ressignificando uma história rumo à liberdade”, declarou.
O que foi o Hospital Colônia
Fundado em 1903, em Barbacena, o Hospital Colônia se tornou ao longo do século XX um dos maiores centros de internação psiquiátrica do país.
Inicialmente criado como sanatório, o espaço passou a funcionar como hospital psiquiátrico público e recebeu milhares de pessoas consideradas “indesejáveis” pela sociedade da época. Segundo investigações reunidas no livro “Holocausto Brasileiro”, muitos internos sequer possuíam diagnóstico de doença mental.

Ao longo das décadas, cerca de 60 mil pessoas morreram na instituição, vítimas de fome, frio, doenças, violência e negligência.
Em entrevistas ao iG, Daniela Arbex afirmou que o manicômio funcionava como um mecanismo de exclusão social legitimado pelo próprio Estado.
“Eram indesejáveis sociais: pobres, negros, mulheres consideradas inadequadas, homossexuais, pessoas marginalizadas. O manicômio funcionava como um instrumento de exclusão. Igual a um campo de concentração”, disse a jornalista.
“Trem de doido” e desumanização
Pacientes chegavam ao Hospital Colônia em vagões ferroviários conhecidos como “trens de doido”, expressão popularizada pelo escritor Guimarães Rosa.
Os internos viviam em condições degradantes, muitas vezes sem roupas, camas ou alimentação adequada. Em períodos de superlotação, o hospital chegou a reunir cerca de 5 mil pessoas em um espaço projetado originalmente para 200 pacientes.
No livro “Holocausto Brasileiro”, Daniela Arbex relata que os corredores eram ocupados por pessoas desnutridas, muitas delas dormindo sobre capim espalhado pelo chão e bebendo água misturada ao esgoto que atravessava os pavilhões.
As mortes se tornaram rotina dentro da instituição. Em determinados períodos, segundo relatos reunidos pela jornalista, até 16 pessoas morriam por dia no local.
Venda de corpos e pedidos de desculpas
Além das denúncias sobre maus-tratos, o Hospital Colônia também ficou marcado pela comercialização de cadáveres de pacientes para instituições de ensino médico sem autorização das famílias e sem qualquer comunicação aos parentes dos pacientes.
Documentos preservados pela Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais apontam que 1.853 corpos de internos foram vendidos entre 1969 e 1981 para 17 faculdades e universidades brasileiras.
“Muitos haviam sido enterrados como indigentes. Essas pessoas foram desumanizadas em vida e também após a morte. Elas não tiveram valor nem na morte, porque seus corpos foram vendidos sem o consentimento das famílias”, afirmou Daniela Arbex ao iG em reportagem anterior.
O caso voltou ao centro do debate nacional após pedidos públicos de desculpas feitos pela UFMG e pela UFJF neste ano pelo uso dos cadáveres em aulas de anatomia entre as décadas de 1960 e 1980.
Para Arbex, os reconhecimentos institucionais representam um passo importante na reparação histórica.
“A gente só transforma aquilo que reconhece. Quando uma instituição assume seu papel, ela abre caminho para mudanças reais. O pedido de desculpas é o começo. É preciso reconhecer a responsabilidade do Estado brasileiro e transformar essa memória em conscientização para que práticas como essas não se repitam”, declarou.
Memória para que as violações não se repitam
Parte da história do Hospital Colônia hoje está preservada no Museu da Loucura, em Barbacena, criado para manter viva a memória das vítimas e denunciar as violações ocorridas dentro da instituição.
Para Daniela Arbex, preservar essa memória é fundamental para impedir que práticas semelhantes voltem a acontecer.
“Quando a gente não fala sobre o que aconteceu, é como se nunca tivesse existido. E isso abre espaço para que tudo se repita. A saúde mental continua em disputa no Brasil. A gente não tem mais os grandes hospícios como antes, mas ainda existem práticas de exclusão e violação. É um tema absolutamente atual”, afirmou.

